Paulo Guedes não pode falar em “imposto sobre pecados”

É lamentável que uma figura como Paulo Guedes, o “posto Ipiranga” do Governo Jair Bolsonaro, eleito com grande sacrifício (em meio a resiliência e esperneio do lulo-petismo) com promessas de uma guinada econômica liberal que só tem a contribuir para a vida dos brasileiros, dê declarações como: “O cara fuma muito? Bebe muito? Taca um imposto nele” (sic), que agridem tão profundamente os princípios liberais mais elementares. Não é próprio da Escola de Chicago acreditar que a preservação dos sistemas de saúde pública falidos, como os do Brasil, sejam a prioridade de uma gestão econômica, ainda mais quando essa proposta de gestão, apontada por um economista que vem de Chicago, Guedes, ofende tão gravemente a liberdade individual do brasileiro.

Não é possível que um auto-intitulado liberal, no sentido mais neoclássico, acredite que aumentar a tributação (já altíssima) sobre insumos como o cigarro vá efetivamente mudar a disposição moral das pessoas de comprar o produto, e a própria alma mater deste que dirigiu a obscenidade já cansou de provar isso ao longo da história; como poderia o materialismo ser combatido com mais materialismo? Se o brasileiro fuma, bebe, toma refrigerante e pratica mais inúmeras outras ações reprováveis compulsivamente, é porque ele tem disposições culturais para fazê-lo, muitas vezes expressas e influenciadas socialmente e outras vezes motivadas por caráter individual. Diga então o que acontece quando, por força da máquina pública e dos instrumentos do Estado, tenta-se fisgar o brasileiro pelos bolsos e fazê-lo parar de fazer aquilo que é acostumado a fazer – ou ainda é viciado em fazer, no caso do fumo? Guedes acha que os brasileiros irão parar de cair mortos nas filas de hospitais, pois ele aumentou os impostos “sobre o pecado”, como o mesmo disse?

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Aqui está, na muito humilde opinião de um liberal estudante de economia o que viria a acontecer, na melhor das hipóteses: a Dona Fernanda, que administra uma padaria no interior paulista e fuma compulsivamente, iria passar a comprar cigarros contrabandeados ou de baixa qualidade, ou até fumar com menos frequência (o que, do ponto de vista da clínica, não significa absolutamente nada diante das chances de se ter câncer); ou pior, Dona Fernanda poderia passar a comprar ingredientes mais baratos para os produtos da sua padaria para continuar comprando cigarros de qualidade, refrigerante para os filhos e cervejas para o marido; ou ainda, ela economizaria dinheiro deixando de comprar os produtos tributados e, após alguns meses, usaria essa economia para novamente voltar a fumar ou comprar os refrigerantes quando as próprias empresas passassem a reduzir o preço por conta da baixa demanda artificialmente criada pelo Estado. O mercado se equilibra e o “imposto sobre o pecado” de Guedes, onde fica? Do que adianta parar de pecar, e continuar amando o pecado? Parece que Guedes não tinha um projeto para a ética brasileira quando deu essa opinião infeliz, mas procura apenas “equilibrar as contas” como sempre diz; mas a que custo?

Está claro que o brasileiro, em geral, come mal e trata mal a própria saúde; diga-se de passagem, comer mal no Brasil é sempre muito barato. Não há muito espaço para se culpar o brasileiro nisso; o paulistano que sai logo cedo para trabalhar comumente toma café em qualquer barraquinha da Barra Funda, não tem tempo para fazer exercícios e nem de pensar no que está comendo ou no porquê de estar fumando. E como alguns burocratas querem responder a isso? Insinuando que essas pessoas são a mazela do nosso belo sistema de saúde e que devem dar mais dinheiro para pagar um sistema que talvez nem usem, pois estão muito ocupadas morrendo para pagar os gordos salários do funcionalismo público; me poupe! Por que o Estado não passa mais tempo capitalizando para microempresas interessadas em oferecer comida saudável e bem feita? Investindo mais em esporte e educação física? Pois isso não os interessa, e se ilude quem acha que Guedes se preocupa com a nossa saúde. As pessoas se vão na gestão de Estados e Governos, mas a cultura fica, e não há tributação que mude isso.

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Em vez de pensar em preservar um sistema de saúde como o nosso com esses argumentos pornográficos, a equipe econômica devia estar começando a pensar que talvez os serviços públicos não sejam um bom negócio para nós, brasileiros.

Por mais individualismo no Brasil e que cada brasileiro um dia preze mais pela própria saúde do que pela tutela do Estado.

*Claus Canddie é ensaísta e artista plástico.

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