O messianismo antiliberal em torno de Jair Bolsonaro

Jair Messias Bolsonaro é seguramente um fenômeno eleitoral marcante na história brasileira desde a redemocratização. O capitão da reserva deixou o relativo desconhecimento em que exercia a atividade parlamentar para ascender ao posto de líder nas pesquisas de intenção de votos para a presidência da República. Deixou o Congresso e assumiu a liderança na corrida ao Palácio do Planalto, tomando a frente na defesa de pautas conservadoras do gosto popular: a defesa irrestrita da família, o combate às ideologias do petismo, o tom de tolerância zero com criminosos e de valorização dos profissionais da segurança pública. Com veemência e firmeza, o discurso de Bolsonaro atraiu a atenção do cidadão comum e gradualmente conquistou a simpatia de expressiva parcela da sociedade. O resultado está aí: sua participação nas eleições pode decidir o futuro do Brasil.

Como explicar o sucesso do capitão? Vários fatores contribuíram para tornar Bolsonaro um fenômeno eleitoral, e entre eles está o seu carisma particular. O “mito” caiu nas graças do povo, é o novo herói nacional, o ícone cotado para livrar o Brasil das garras da corrupção e do socialismo. A fala simples e sem floreios retóricos, os trejeitos de tiozão e a pinta carrancuda de militar fizeram de Bolsonaro uma personalidade carismática que logo seduziu o eleitorado comum. É claro que a pessoa de Jair Bolsonaro é certamente mais sedutora que seus projetos e suas ideias. Mas será que esse personalismo é condizente com uma autêntica democracia liberal? Esta é uma pergunta importante a que o país, se quiser progredir politicamente, deve responder com atenção.

Enquanto crescia na aprovação popular, Bolsonaro enfrentou a resistência cerrada de setores da nova direita brasileira. Os liberais de última hora viram-no com desconfiança, pois seu histórico estatizante e militar acenava para um Estado autoritário e intervencionista, nada parecido com os ideais de liberdade e de limitação da atuação do governo. Somente os reacionários, antiliberais de estirpe como os simpatizantes da intervenção militar, apoiaram-no sem reservas. Ao longo do tempo, porém, o capitão abrandou o discurso intervencionista e buscou se aproximar do liberalismo econômico, apaziguando os ânimos do mercado e conquistando o voto do restante da direita. Muito já se discutiu, portanto, sobre em que medida Bolsonaro seria um liberal ou apenas um reacionário saudoso da ditadura militar. Acontece que ele já é uma realidade da qual não podemos fugir, e então essa discussão teórica é posta de escanteio. Não interessa perder tempo com rótulos ideológicos, se Bolsonaro pode vestir a faixa presidencial em breve. Mas um elemento central do liberalismo clássico é a afirmação da autonomia individual, o que envolve não idolatrar político nenhum, não ter fé em nenhum Messias. E é isso que nos interessa aqui.

O personalismo em torno do presidenciável é preocupante. Formou-se um culto messiânico à personalidade de Jair Bolsonaro, homem honesto e destemido que, com a graça de Deus, irá salvar o Brasil. Se é verdade que candidatos a cargos executivos precisam conquistar o apoio pessoal dos eleitores, sobretudo nas democracias modernas, também é verdade que toda política baseada fortemente no personalismo tende a degenerar em servidão ou populismo. Seduzidos pela pessoa de Jair Bolsonaro, seus eleitores fecham os olhos a aspectos fundamentais que envolvem o ato de votar em alguém para ser presidente da nação. Ignoram os projetos de governo e as ideias e os argumentos enfeixados no discurso do capitão, defendem-no nervosa e apaixonadamente, como se não estivessem tratando de um burocrata que eventualmente pode adquirir poderes maiores se sentar na cadeira presidencial. E afinal, Bolsonaro é isto: mais um político que vai disputar as eleições, interessado em conquistar o poder e permanecer nele. Não há nenhuma substância divina no capitão que o diferencie naturalmente de outros homens, e, como todo ser humano, o presidenciável é falho e sujeito a cometer erros irreparáveis e desastrosos, ainda mais ocupando a presidência da República.

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John Locke, em seu clássico Segundo tratado sobre o governo civil, se esforçou em separar claramente os domínios da sociedade civil e do Estado, entendendo que os homens associados livremente não dependem de governantes para subsistirem, pois o governo é um mal necessário e não um agente encarregado de prover a felicidade geral dos homens. Desde então, a tradição liberal reforça a autonomia da sociedade civil em relação ao Estado, no que está implícita a ideia de que um povo politicamente desenvolvido não depende das graças de um presidente para progredir e prosperar. James Madison, pai fundador da república dos Estados Unidos, concordou com Locke ao afirmar que “se os homens fossem anjos, não seria necessário haver governos”. Se o governo é necessário porque as leis devem arbitrar os conflitos que eventualmente existam entre os homens, ele não é necessário para salvar as pessoas do que quer que seja. O governo não é o lugar do Messias.

Porém, todos sabemos que esses são princípios ignorados por sociedades politicamente incultas como é a brasileira. Infelizmente, o brasileiro médio confia demasiadamente no Estado, deposita esperanças desmedidas em personalidades carismáticas que, de posse do poder, podem se revelar ditadores de marca maior, prejudicando a vida da multidão que o ergueu ao posto de comando do governo. É claro que não queremos aqui dizer que Bolsonaro seja um embrião de ditador. Não devemos acreditar nisso, a despeito do alarde que a esquerda faz em chamá-lo de tirano opressor et caterva. Se é verdade que Bolsonaro tem um longo passado estatizante e autoritário, as forças políticas que se aglutinam em torno de sua candidatura não representam nenhuma ameaça substancial às liberdades individuais consagradas na democracia liberal. O Bolsonaro que daria um golpe de Estado assim que assumisse o poder naufragou nas ondas do tempo e não ameaça mais ninguém.

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Mas, se o capitão não deve ser visto como tirano, isto não torna menos perigoso o messianismo em torno de sua candidatura. Acontece que a devoção a presidentes-messias é prejudicial à saúde da democracia porque obscurece as prioridades do país como um Estado nacional, porque imbeciliza o eleitor e o torna vulnerável à sedução de populistas, porque corrobora a tradição autoritária e estatizante do Brasil, porque personaliza relações institucionais que devem ser impessoais, porque alimenta a servidão política e escraviza homens livres aos encantos de uma personalidade qualquer. Em outras palavras, a política concerne à proteção dos direitos naturais do homem e não ao endeusamento de líderes que, munidos dos poderes do Estado, podem desgraçar uma nação pelo despotismo ou pela inépcia. Se Bolsonaro não é um tirano, ele ainda pode causar danos irreversíveis à política ou à economia do país, e seus eleitores devem ser os primeiros a fiscalizar criticamente suas ações.

A história política do Brasil, segundo historiadores e cientistas sociais, é marcada pelo personalismo desde a transição atrapalhada da monarquia para a república. O povo comum do Brasil se acostumou a admirar a figura venerável de dois imperadores e, com a instalação da república, passou a enxergar nos presidentes as mesmas figuras carismáticas e magnéticas dos monarcas. É claro que é difícil nos desembaraçarmos das teias do personalismo, mas é uma tarefa urgente para o Brasil: fugir do messianismo e encarar a política como uma disputa mundana por poder, não como uma arena de lutas entre forças do bem e do mal. Pois está claro que burocratas da pior espécie souberam explorar a carência afetiva queo  povo sente por grandes lideranças, como escreve Bruno Garschagen em seu livro de estreia, a respeito do segundo presidente de nossa combalida República:

A presidência de Floriano Peixoto passou a operar com base no culto à personalidade (depois repetido por diversos políticos, de Vargas a Lula) e numa política claramente autoritária, com deposição de governos estaduais, prisões, deportações, decretação de estado de sítio, fortalecimento do poder público, que englobava uma política estatal de desenvolvimento econômico com um pacote de medidas protecionistas.

É fundamental que o povo brasileiro amadureça politicamente, e essa evolução só pode se dar individualmente, na medida em que cada um observar a política com sobriedade e sem grandes paixões. Todo liberal deve se lembrar que o caminho para a servidão começa com o falseamento do mundanismo da política: ela é tão somente a atividade de disputa por poder legítimo na sociedade, nada além disso. Não por acaso, os políticos populistas e os genocidas socialistas usaram e abusaram do culto à personalidade para seduzir seu povo e consagrar seus líderes no altar da adoração pública. O teólogo calvinista Franklin Ferreira analisou a tendência do socialismo em incentivar a adoração a políticos como estratégia de sedução e de supressão das liberdades individuais e democráticas; ele constatou que todo regime totalitário estimula a veneração de seus líderes e idealiza o Estado como a síntese espiritual de um povo. Uma sociedade de homens livres não se dobra jamais diante do Estado, ainda que seu presidente seja um Jair Messias Bolsonaro.

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No atual cenário, o capitão é a melhor saída para décadas de populismo econômico e de ideologias nefastas, mas seu eventual governo deve ser um governo e não um pontificado ou um reinado. É absolutamente indispensável, para o futuro da democracia nacional, que o eleitor não idolatre cegamente nenhum político, pois se todo profissional da política é funcionário do pagador de impostos, por que devemos tratá-los como seres iluminados e superiores? Vimos até onde chegou a devoção insana dos petistas a Lula: negaram os crimes do patriarca petista e até agora dizem que seu líder é inocente das acusações que o levaram à cadeia. Cabe perguntar, apenas hipoteticamente: se, nesse momento de expectativa sobre as eleições, Bolsonaro fosse acusado e julgado culpado dos mesmos crimes cometidos por Lula, será que seus eleitores o defenderiam cegamente ou será que acatariam a decisão da Justiça? Será que atribuiriam as acusações a uma conspiração comunista, exatamente como os petistas que acusam a CIA e os EUA de prender Lula? Sabemos que o petismo se tornou uma seita fechada, mas o que será do bolsonarismo no futuro?

Como diria o próprio Bolsonaro, em sua simplicidade característica, “tem que votar no presidente e só isso, tá ok?”.

Nota: Texto escrito por Rafael Valladão Rocha.

 

Referências

LOCKE, John. Segundo tratado sobre o governo civil. Coleção Os Pensadores, Editora Abril.

GARSCHAGEN, Bruno. Pare de acreditar no governo: por que os brasileiros desconfiam dos políticos e amam o Estado. Editora Record.

FERREIRA, Franklin. Contra a idolatria do Estado. Editora Vida Nova.

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