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O liberalismo e a cultura pop: Matrix

A bola da vez da série “O liberalismo e a cultura pop” é a trilogia de filmes Matrix. Como de hábito, advirto que não se trata de uma crítica cinematográfica e deixo o aviso dos inevitáveis spoilers.

De criação e direção das irmãs Lilly e Lana Wachowski, o primeiro filme (Matrix) foi lançado em 1999, seguido por Matrix Reloaded e Matrix Revolutions, ambos de 2003. Como uma “distopia cibernética”, Matrix suscita discussões muito mais peculiares do que as distopias “convencionais” – isso porque aqueles que a comandam não são homens, mas sim máquinas. Convém ressaltar que não se trata do mero clichê em que as máquinas/robôs fugiram do controle dos humanos e um conflito é travado com cada lado visando à dominação alheia. Aqui, essa dominação já é um fato desde o primeiro momento, com o adendo de que aqueles que vivem dentro da Matrix levam a sua vida normalmente, sem a mais vaga ideia do real papel que exercem na distopia que os cerca. Isso não significa que por meio de seus agentes a Matrix não exerça um controle mais assertivo sobre aqueles que pareçam correr o risco de adquirirem consciência da realidade. Isso fica claro no primeiro encontro que Neo, personagem interpretado por Keanu Reeves, tem com os agentes, em especial com aquele que viria a ser seu principal antagonista: o Agente Smith. Ao ser interrogado, Neo pronuncia que “conhece seus direitos”, para logo descobrir que seus direitos, como tudo dentro da Matrix, não passam de uma ficção.

Mas o que, afinal, é a Matrix? Quem dá a melhor definição é Morpheus: “uma prisão para sua própria mente”. Nas palavras de Morpheus, ela “está em todo lugar”. Apesar de parecer um apelo filosófico, a definição da Matrix como uma prisão para a própria mente é a mais precisa possível. Fisicamente, os humanos encontram-se permanentemente adormecidos, servindo como uma fonte de energia, verdadeiras “pilhas”, tal como a analogia de Morpheus, para as máquinas. Enquanto isso, suas mentes funcionam de acordo com os cenários estabelecidos pelas máquinas, vivendo a ilusão de que vivem aquilo que é mera realidade virtual. Eis a Matrix.

O já citado Morpheus é capitão da nave Nabucodonosor, sendo habitante de Zion, a última cidade povoada por humanos existente. Ele e sua tripulação libertam pessoas da Matrix, não de forma indiscriminada, afinal, como aprendemos, “muitas pessoas não estão prontas para acordar”, sendo que “muitas vão lutar para proteger a Matrix”. No entanto, Neo é um caso diferente dos demais, uma vez que Morpheus acredita que ele é o escolhido, aquele que finalmente será capaz de derrotar as máquinas. Só são resgatados da Matrix aqueles que consentem com isso – e é aí que temos a que é provavelmente a cena mais clássica do filme, com Morpheus oferecendo duas pílulas à Neo, uma azul, a outra vermelha. A pílula azul lhe permite permanecer vivendo na Matrix e esquecer que sabe se tratar de uma realidade virtual. A vermelha significa que quem a toma consente em ser libertado dessa prisão mental. Desnecessário dizer qual foi a escolha de Neo, que precisa se libertar da Matrix para poder lutar contra ela.

Na cultura popular, e mesmo em discussões políticas, as pílulas se tornaram uma analogia para os que escolhem o caminho da verdade, ainda que dura, e os que preferem viver a mentira. Ainda que no caso de Neo a escolha tenha sido óbvia, é fácil entender por que ela poderia se apresentar como um cruel dilema para muitos. Despertar para a realidade significa despertar para o desconhecido, para o que poderia ser o avesso da realidade virtual. Escolher a pílula vermelha era um caminho sem volta, pois não seria possível ser reintegrado(a) à Matrix. O preço a se pagar seria abrir mão de tudo aquilo que, ainda que ficção, se conhece e vive, o que poderia ser menos pesaroso para quem vive uma vida infeliz, mas muito mais para quem experimenta o oposto.

Politicamente, a analogia mais provável é com o dilema de alguém que, vivendo sob a batuta de um governo ditatorial, pode optar entre viver uma vida normal, longe de qualquer querela política e, portanto, sem se tornar foco de atenção, ou embarcar no combate a esta ditadura, seja de forma literal ou por meio de palavras, e arcar com as consequências, potencialmente ruins. Diante dessa perspectiva, já não é tão simples sucumbir ao impulso de chamar de covarde aquele que opta pela pílula azul, na ficção, ou pela apatia, na vida real. Aqueles que em uma escala de valores têm a liberdade em mais alta conta tenderiam a rejeitar a apatia, assumindo os riscos como sendo o “preço da liberdade” – ou ao menos de sua persecução. Outros podem valorar o conforto, a sobrevivência, o status quo, de tal forma que aceitam sacrificar parte de sua liberdade por isso. Claro que, diferentemente da vida real, na Matrix aquele que opta pela pílula azul não precisa rememorar a escolha e sofrer de culpa ou arrependimento.

O conceito da pílula, de certa forma, faz lembrar a “soma”, a droga utilizada para suprimir a tristeza em Admirável Mundo Novo, de Aldous Huxley. A felicidade provocada pela droga, ao provocar aceitação, acaba funcionando como uma ferramenta de controle. Em várias ocasiões, ao manifestar um comportamento “fora do padrão”, questionando o sistema vigente, Bernard é aconselhado por seus pares a tomar soma. Outra semelhança entre Matrix e a distopia de Huxley é o fato de que os humanos não nascem mais naturalmente. Em Admirável Mundo Novo, eles são criados em laboratórios, cada qual com um propósito definido, enquanto na Matrix os humanos são “cultivados”. A exceção, no primeiro caso, são aqueles tratados como “selvagens”, exibidos para turistas como animais em um zoológico. Já em Matrix, a reprodução natural apenas acontece em Zion.

Entendemos o que Morpheus quer dizer com “muitos vão lutar para proteger a Matrix” com a traição de Cypher, membro da equipe que faz um acordo com o Agente Smith para entregar Morpheus em troca de retornar à Matrix. Ele destaca para Smith que não quer se lembrar de nada e que deseja “ser rico, alguém importante”. Cypher pode servir como uma analogia para aqueles que, pagando o “preço da liberdade”, decidem que as provações não compensam a recompensa incerta. O personagem apresenta uma grande insatisfação com sua situação atual e um claro arrependimento por sua escolha, o que confessa a Neo em tom de aparente brincadeira: “porque não tomei a pílula azul?”. Não mais aceitando o preço de integrar forças rebeldes, opta pela traição, disposto a sacrificar os antigos companheiros para voluntariamente voltar à ilusão virtual, ainda que em uma realidade de sua escolha.

A traição serve para nos lembrar de que não só as máquinas podem ser as inimigas. Não que a trilogia transmita a mensagem de demonização da humanidade, mas apresenta tal visão vocalizada pelo vilão Agente Smith, que defende que “os seres humanos são uma doença”, sendo essa a causa da justa ascensão das máquinas. Talvez não se possa falar em “desumanização”, pois não faria sentido esperar humanitarismo de máquinas, mas é interessante destacar a facilidade com a qual se justifica a subjugação de todo um grupo de forma eugênica. O paralelo com a realidade é o fato de que talvez só a ficção possa prover subsídios para o que é necessário para concretizar certas utopias: retirar o ser humano da jogada. Com efeito, podemos notar como discursos radicais parecem andar lado a lado com a demonização da humanidade, ou parte dela, com a sua identificação como sendo a única variável impeditiva para, parafraseando Karl Popper, trazer o paraíso à Terra.

Claro que na Matrix os humanos não são completamente retirados da jogada, servindo como fonte de energia, mas, sendo cultivados e vivendo em uma realidade virtual, são, ao menos em tese, controláveis. Talvez por isso, a grande razão de Neo ser o “escolhido” seja o fato de não ser suscetível ao controle como os demais, de ser uma “anomalia na programação da Matrix”, como em certo momento o “Arquiteto”, o programa criador da Matrix, o define. Neo, como os demais que adquiram consciência suficiente para serem “desplugados”, é a prova de que o controle, apesar de sua eficiência, não é perfeito.

Para chegar ao estado atual, a Matrix passou por um processo evolutivo. Como aprendemos com o Agente Smith no primeiro filme, a sua primeira versão “foi desenhada para ser um mundo perfeito para os humanos”. O plano não vingou. A versão seguinte visava a emular a história humana, mas também acabou por fracassar. O problema, o Arquiteto finalmente perceberia, era ignorar o fator humano. Foi apenas após um programa, o Oráculo, conseguir compreender melhor a mente humana, que foi possível chegar a um controle mais efetivo. Tal revelação vem acompanhada de outra: sem contar as Matrixes anteriores à primeira que de fato funcionou, essa já é a sua sexta versão e, consequentemente, houve cinco Neos anteriores. Uma nova versão surge após a destruição da anterior, em um eterno ciclo. A fórmula encontrada pelo Arquiteto para fazer o sistema funcionar foi dar uma dose, ainda que inconsciente, de livre arbítrio aos humanos. Destes, 99,9% seriam complacentes com o programa, enquanto os integrantes da minoria restante, fadados a inevitavelmente despertar, formariam Zion, a última cidade humana. Quando a resistência à Matrix se tornasse grande o suficiente para ameaçá-la, seria necessário “reiniciar o sistema” e começar tudo de novo.

Neo se vê diante de um dilema imposto pelo Arquiteto. De forma fatalista, Zion terá o mesmo destino que teve cinco vezes antes: será destruída. O propósito de Neo seria alimentar a Matrix para a próxima versão, sendo-lhe permitido escolher 16 mulheres e 7 homens para serem despertados da Matrix e reconstruírem Zion. Se assim Neo não fizesse, toda a humanidade seria destruída. Cada Neo de cada uma das cinco versões anteriores fez a escolha de salvar a humanidade, mas, surpreendentemente, e de forma que a princípio soa irresponsável, o Neo atual decidiu seguir pela porta que lhe permitiria salvar Trinity, a mulher que amava, assumindo o risco de condenar a humanidade à extinção.

A escolha de Neo, que na prática significa romper o ciclo, não poderia ser prevista pelo Arquiteto. Embora incapaz de eliminar por completo o livre-arbítrio, até então ele havia sido capaz de condicionar a decisão do “escolhido”, mas a sexta versão de Neo rejeitou até mesmo esse condicionamento. O paralelo com a realidade é que, assim como uma realidade perfeita, artificialmente projetada, é incompatível com o livre-arbítrio, não sendo possível extirpá-lo da humanidade, então a própria ideia de perfeição torna-se uma utopia. Ao invés disso, o caminho inevitável do déspota é tentar limitar ao máximo as margens de ação e/ou dar uma ilusão de escolha para aquilo que escolha não é. Exemplo clássico disso são as eleições de partido único, em que o único candidato existente é eleito com a totalidade de votos; mas mesmo o controle mais severo, embora capaz de determinar aparências, não é capaz de impingir contentamento a todos, podendo resultar em fissuras que, crescendo, podem vir a comprometer todo o sistema.

O fato de ser capaz de escolher livremente é o que permitirá a Neo produzir um desfecho diferente de seus “eus” anteriores. Da mesma forma, é por ter adquirido um grau de autonomia alheio à Matrix que o Agente Smith consegue dela se desvencilhar e até mesmo sair de dentro dela, como acontece no último filme da trilogia. Podemos inferir que a autonomia de um é consequência da do outro, haja vista que o Oráculo fala para Neo que Smith é o seu “negativo”, o negativo da equação da Matrix tentando se equilibrar. Smith, que sempre demonstrou traços de individualidade mais acentuados que os demais agentes, se torna uma ameaça, não apenas para Neo e os demais humanos, mas para a própria Matrix. Certo de que não é possível destruir a ambos, Neo propõe à Matrix destruir Smith, em troca de uma “trégua”. Incapaz de controlar Smith, que se alastra como um vírus e planeja destrui-la, a Matrix aceita a proposta de Neo, cessando o ataque à Zion.

Portanto, a conclusão da trilogia não é a destruição da distopia das máquinas, como muitos poderiam presumir, e sim um conflito final entre Neo e Smith. A batalha entre os dois antagonistas é épica, mas, mesmo com várias “cópias” de si – Smith tornou-se capaz de transformar cada pessoa em uma versão sua -, Smith não é capaz de derrotar o escolhido. Com autonomia, mas ainda assim um programa, incapaz de entender a escolha humana, Smith questiona o porquê de Neo insistir em lutar, ao que ele responde: “Porque eu escolho”. Assim, Neo se sacrifica, derrotando Smith e produzindo sua desejada trégua. A trégua, é verdade, não irá durar para sempre, mas não deixa de ser uma grandiosa vitória: o Arquiteto confirma para o Oráculo que, como parte da trégua, aqueles que quisessem seriam libertados.

A última frase proferida por Neo coroa sua trajetória. Quando Neo escolheu tomar a pílula, estava fazendo algo já previsto pela Matrix, mas, ao escolher agir de forma diversa de seus antecessores, ele tolheu a sua capacidade de previsão e, portanto, de controle. Minha leitura é de que a saga serve como um elogio à “escolha” e consequentemente à individualidade. Ainda que guiado por um motivo egoísta, apenas um ato de determinação individual foi capaz de romper o ciclo. Smith era incapaz de compreender a escolha humana, do mesmo modo que as primeiras versões da Matrix falharam pela incapacidade do Arquiteto em compreender a mente humana. No mundo real, o elemento humano nunca poderá ser descartado, por mais que se tente, e é aí que reside a grande força capaz de resistir aos inimigos da liberdade.

P.S. Dezoito anos após o encerramento da trilogia, o lançamento de uma sequência está previsto para dezembro deste ano.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.