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O grande coração do Juiz Scalia

Que Deus lhe conceda o descanso eterno _ Jeffrey Tucker 

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Este artigo de Jeffrey Tucker [1] foi publicado originalmente no site da FEE – Foundation for Economic Education – em 13 de fevereiro de 2016. 

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Scalia_2010Com algumas das decisões do Juiz [2] Antonin Scalia eu estava de acordo, com outras, não. Mas nunca duvidei da sinceridade de suas convicções.

Agora que ele se foi desta terra, posso contar uma história que guardei por muitos anos, uma cena que me tocou intensa e profundamente. Não consigo pensar nele sem me recordar deste momento.

Foi numa tarde de primavera, alguns anos atrás, e ele estava participando de um culto na igreja, sentado num banco de trás, segurando nas mãos seu livro de oração. A missa havia terminado e a maioria das pessoas tinha ido embora. Ele ainda estava rezando, sozinho, no banco de trás.

Por fim, ele se levantou e começou a caminhar para sair. Não havia repórteres, ninguém olhando. Havia apenas uma mulher que tinha assistido à mesma missa. Ela não tinha ideia de quem ele era. Eu era um espectador, e tenho certeza de que ele não sabia que eu estava lá.

Uma coisa chamava a atenção nesta mulher: havia feridas marcantes no seu rosto e nas mãos. Eram feridas abertas. Havia alguma doença, e não apenas física. Ela agia de um modo estranho, uma pessoa com problemas que você vê nas cidades grandes e das quais você rapidamente sai de perto. Uma pessoa a ser evitada e, certamente, nunca tocada.

Por um motivo qualquer, ela foi na direção do Juiz Scalia, que estava sozinho. Ele pegou as mãos dela, apesar de cheias de feridas. Ela se inclinou para dizer alguma coisa e começou a chorar.

Ele segurou o rosto dela próximo ao dele e ela falava em meio a lágrimas que já então escorriam para o terno dele. Ele não vacilou. Não tentou ir embora. Apenas segurou-a enquanto ela falava. Isso durou talvez mais do que 5 minutos. Ele fechou os olhos enquanto ela falava, segurando-a pelas costas.

Ele não recuou. Ficou lá com convicção. E amor.

Não havia câmeras nem outros espectadores além de mim, e ele não tinha ideia de que eu estava lá.

Finalmente ela terminou. O que ele disse confortou-a, deu-lhe serenidade. Ela se afastou para ir embora. Ele segurou suas mãos ásperas, cheias de feridas, e disse algumas palavras finais que eu não consegui ouvir. Deu-lhe algum dinheiro.

Então, ela foi embora.

E ele foi embora, passando pelo gramado verde, em direção ao edifício da Suprema Corte, sozinho. Provavelmente, ele estava se preparando para uma tarde de trabalho.

Fiquei lá perplexo. Temos aqui um dos homens mais poderosos de Washington, uma estrela por qualquer padrão de referência. As câmeras sempre o seguiam. Com esse tipo de atenção voltada para você, com o tempo você começa a acreditar que a sua vida é um espetáculo.

Não no caso do Juiz Scalia. O que eu vi naquele dia foi um homem humilde, um homem piedoso, um homem que acreditava no poder do contato pessoal. Esta foi a atitude de um homem de princípios e de um caráter de verdade. Naquele ato, ele não estava em busca de mérito nem de atenção. Ele estava simplesmente fazendo uma coisa humana e bela.

Um tema constante em sua carreira foi a liberdade humana. Scalia acreditava nela. E por quê? Porque acreditava que a humanidade podia gerar resultados melhores do que todo o planejamento e todo o poder já reunidos num Estado centralizador. Este foi um princípio de vida para ele.

Eu não havia contado esta história até agora simplesmente porque há tempos sei que ele nunca buscou reconhecimento por sua caridade. A caridade é simplesmente uma forma de amor e o amor verdadeiro não busca o reconhecimento público.

Com esse gesto, ele tocou não apenas a vida daquela mulher, mas a minha também. Só posso imaginar quantos outros exemplos seus amigos poderiam citar.

Este era um homem bom. É tão raro para um homem desta qualidade ganhar o alto nível de influência e poder que ele obteve durante sua vida.

Lorde Acton tinha uma máxima de que o poder tende a corromper. O que vi naquele dia foi uma rara exceção. O poder não corrompeu este homem. Ele se manteve fiel a si mesmo e fiel a seus princípios.

Que raridade: uma figura pública em sua posição, ele nunca deixou de ser uma pessoa boa, até mesmo grandiosa.

Que sua bela alma descanse agora sob o cuidado amoroso de Deus.

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[1] Jeffrey Tucker é Diretor de Desenvolvimento Digital da Foundation for Economic Education.

[2] No original, Justice, título de membro da Suprema Corte dos EUA, equivalente ao de ministro do Supremo Tribunal Federal no Brasil, mas com cargo vitalício (N.T.).

Ligia Filgueiras

Ligia Filgueiras

Jornalista, Bacharel em Publicidade e Propaganda (UFRJ). Colaboradora do IL desde 1991, atuando em fundraising, marketing, edição de newsletters, do primeiro site e primeiros blogs do IL. Tradutora do IL.