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O fascismo está voltando

putin fascista“Todo mundo sabe que o termo fascista é hoje pejorativo; um adjetivo frequentemente utilizado para se descrever qualquer posição política da qual o orador não goste.  Não há ninguém no mundo atual propenso a bater no peito e dizer ‘Sou um fascista; considero o fascismo um grande sistema econômico e social.’

Porém, afirmo que, caso fossem honestos, a vasta maioria dos políticos, intelectuais e ativistas do mundo atual teria de dizer exatamente isto a respeito de si mesmos.”

Lew Rockwell 

 

Há um ano, o escritor russo radicado na Inglaterra Peter Pomerantsev escrevia, no London Review of Books, o artigo “What fascists?”, comentando como estava sendo montada a máquina de propaganda do Kremlin para atingir a hegemonia da mentalidade russa contra a Ucrânia, no despertar da anexação da Criméia por Vladimir Putin.

Em sua narrativa em tom de new journalism, tão em falta no Brasil, comenta em formato de crônica como é receber notícias da Rússia longe dos canais oficiais e para-oficiais do regime, mas, sobretudo, como está sendo moldada a mentalidade russa para tratar como notícia e fato as teorias conspiratórias do neoeurasianismo de Putin (quatro dias antes, o principal semanário alemão, Der Spiegel, noticiava na capa que o “cérebro de Putin”, Aleksandr Dugin, havia sido demitido da Universidade de Moscou).

Basicamente, os russos ouvem notícias sobre uma gigantesca “ameaça fascista” ucraniana, a um só tempo em que, de forma idêntica justamente à propaganda nazista, são informados de que os ucranianos são seres inferiores, Untermenschen, que a “Pequena Rússia” nem mesmo é um país (apenas uma divisão artificial da geopolítica), que a ocupação da praça central de Kiev, a Maidan Nezalezhnost, é financiada por grupos pró-Europa Ocidental, financiados pelas duas potências anti-eurasianas: a América e Israel. Seus ocupantes são chamados de Mai-Downs (como em “síndrome de Down”) por artífices do regime putinesco travestidos de comunicadores, como Konstantin Rykov.

Os ucranianos, então, são retratados como “fascistas”, como neonazistas a sempre ameaçarem o glorioso Império Russo, como o Terceiro Reich o fez no século XX. Todavia, a um só tempo, também são retratados como sionistas, como uma raça inferior, como um país que nem deveria existir (de forma idêntica à propaganda islâmica, eurasiana e esquerdista sobre os judeus em Israel).

Fascistas e uma categoria inferior de seres humanos, que merecem ter sua existência no máximo tolerada pela Pátria Superior. Exatamente como vítimas do fascismo. Nada mais revela esta visão, digamos, “dialética” do inimigo do que as caricaturas distribuídas pela Rússia retratando as ucranianas como prostitutas, se oferecendo ou à União Européia, ou ao Kremlin – ou seja, mesmo quando “estão do lado certo”, é numa “categoria inferior” de quem se vende apenas para ser usada e abusada.

O quadro de mentalidade coletiva ganha contornos perigosíssimos por um fator sempre combatido pelos liberais: o dirigismo econômico de uma política centralizada, com poder concentrado apenas em “políticos salvadores”.

Mesmo um outrora grande escritor como Eduard Limonov, revolucionário anti-Putin que escrevia alegremente sobre suas experiências homossexuais, agora encoraja as invasões de Putin e recomenda “endurecer o metal enquanto ele ainda está quente”.

Tudo isto se dá porque é impossível sobreviver a um regime de economia planejada sem obedecer aos políticos manda-chuvas, não importa quão desagradáveis eles sejam – ou os próximos podem vir a se mostrar. Todas as figuras culturais, por exemplo, assinaram um manifesto a favor da “reunificação” (a invasão da Criméia). Um músico explicou: “Um cara do Ministério da Cultura veio e disse que eu perderia minha banda se eu não assinasse. O que eu poderia fazer?”

Para quem acompanha as notícias sobre os intelectuais e artistas sempre puxando o saco do governo brasileiro, sob uma égide de suposta luta contra uma “invasão conservadora”, este cenário tão longínquo acaba soando tão próximo que parece se confundir com o Brasil.

Para um país ainda (felizmente) dependente da literatura e da poesia para criar seus símbolos, a Rússia fala da “baixa qualidade” da poesia dos “hohli”, o termo pejorativo para ucranianos, com uma linguagem que em nada deve ao que os nazistas falavam sobre judeus.

De forma idêntica, inclusive, em jurar que uma diminutíssima minoria de pessoas (até chamados de “Pequena Rússia”, em comparação à grandiosidade da suposta Terra-Mãe) é uma elite perigosa e violenta pronta para desmantelar o glorioso passado de pioneirismo russo.

Ivan Bunin escreve até: “A Pequena Rússia não tem história… tem apenas canções, lendas, está de alguma forma fora do tempo”. O vezo em encontrar um determinismo na História, em evocar tal “espírito histórico” como separador de homens e de seus subalternos e de tentar purificar a história dos seus elementos nocivos não deve em nada ao nazismo com sua verborragia contrária aos judeus (a “elite” da época). Ou mesmo ao que se forma no Brasil como discurso contra os “coxinhas”, os “conservadores”.

Putin, como escreve Hugh Prysor-Jones na revista Chronicles (“Which KGB?”), é mais um criador de consenso do que um tirano desabrido. Não à toa que deixe toda a imprensa sob suas mãos, de forma não tão diferente da que faz o PT no Brasil, com tantas “verbas de publicidade”, que usam o trabalho do brasileiro e as riquezas naturais do país para comprar “jornalistas” que sempre falarão bem do governo – e atacarão a “ameaça” que são grupos contrários ao consenso nacional, sempre misteriosamente coincidente com o que os políticos no poder querem que as pessoas pensem.

Assim, sempre se pode xingar alguém de “fascista” e, por esta pessoa, ou grupo, ou nação, ser supostamente “fascista”, pode-se então tratá-la de forma pior do que os fascistas fizeram com suas vítimas. Afinal, é uma “justiça histórica”, uma “reparação”. Por isto a visão tão viciada em termos técnicos de filosofia hegeliana ou abertamente marxista-trotskysta para repetir a história como farsa e como tragédia, a um só tempo.

A bufonaria torna-se quase engraçada, não fosse o fim da liberdade e as mortes somando-se aos montes (literalmente), pois a mentalidade conspiratória (o “mind-set default” do Putinismo) passa a descrer de tudo – e se parece existir outra forma de fazer política, ou de gerir algo da vida sem precisarmos de políticos, certamente é porque há políticos malévolos interessados nisto (roteiro ainda mais conhecido de qualquer brasileiro, sempre acusado de “tucano” caso rejeite algo como os bilhões roubados da Petrobras pelo PT).

Peter Pomerantsev escreve que as conversas entre moscovitas e amigos radicados em Kiev, capital da Ucrânia, tornam-se um teatro do absurdo justamente por estas eternas acusações de que há “fascistas” por todo lado, como quando noticiam “golpes fascistas” em alguma aldeia.

“Você está a salvo dos fascistas?”, perguntam os russos.

“Que fascistas?”, respondem os residentes em Kiev.

“Aqueles fascistas”, explicam os russos.

“Que fascistas?”, obtemperam seus amigos.

A palavra “fascista”, portanto, foi completamente desligada de seu significado. Já é quase impossível vê-la como um conceito, e não apenas como um xingamento, a não ser em livros de História lidando especificamente com a Segunda Guerra.

Entretanto, tal como a Rússia sob auspícios de Vladimir Putin, o Brasil (e boa parte do mundo) têm caminhado com passos cada vez mais largos justamente para um sistema político que, se fosse buscar entre os grandes exemplos históricos sua paternidade, não passaria em um exame de DNA ao ser comparado ao liberalismo, ao socialismo, à social-democracia, às ditaduras militares e tecnocracias diversas – mas seria rigorosamente parecido com o fascismo do século XX.

Tal sistema, baseado no conluio com sindicatos tomando poder político, no clima geral de “conspiração” contra o poder eleito, em concentração de poder no Estado, em dirigismo econômico na busca por igualdade de renda, em nacionalismo geralmente militarista, nas massas em desfile, na superação do indivíduo pelo poderio estatal (o único que pode “nos tornar” grandes), no coletivismo, até mesmo no racionamento de alimentos em épocas de crise e, sobretudo, num bode expiatório a ser “eliminado” no futuro glorioso dirigido pelos progressistas tentando surpassar o passado dos “conservadores”, foi a segunda maior desgraça do século XX, depois do comunismo – seu “gêmeo heterozigoto”, na bela definição de Pierre Chaunu .

A grande novidade é que, tal como a esquerda se auto-engana julgando que já não é mais “comunista” (embora tenha uma misteriosa e injustificada azia só de pensar na palavra “capitalismo”), e também jura que o nacional-socialismo (nazismo) nada tem a ver com socialismo (se foram “inimigos” no campo de batalha, o nazismo só pode ser de… direita!), agora ela chama as próprias vítimas do novo fascismo, tão próximo do socialismo, justamente de fascistas.

Se faltava algo para a nova “dialética” da esquerda em seu eterno ódio-por-judeus-e-Israel-mas-mania-de-chamar-todos-os-seus-adversários-de-fascistas, faltava apenas o elemento do pior tipo de fascismo, o nazismo de Adolf Hitler e o Holocausto contra judeus.

Se faltava, é uma falta que vai sendo cada vez mais suprimida. O discurso anti-semita voltou com força total na segunda década do século XXI. Novamente, pela esquerda (a própria idéia de uma economia bancária-capitalista, baseada em propriedade privada e poupança, não é, senão, um princípio judaico tão odiado pela esquerda).

Basta ver as charges de Carlos Latuff, grande admirador de Dilma Rousseff e do PT, e ver como este chargista, que participa de concursos no Irã defendendo o revisionismo histórico de que o Holocausto na verdade não existiu, retrata judeus e Israel, sempre os xingando e sempre os comparando a nazistas.

Mas faltava algo em território nacional. Não falta mais. Conforme relatou Rodrigo Constantino na Veja, ao receber um documento enviado por um leitor:

Nada menos do que uma circular interna da Universidade Federal de Santa Maria (RS) em que o pró-reitor substituto José Fernando Schlosser, atendendo a uma suposta solicitação de sindicalistas e de um certo “Comitê de Solidariedade aos Palestinos”, pede para se “identificar” professores e alunos israelenses que pertençam à instituição e ao programa de Pós-Graduação.

Agora, em pleno Brasil que supostamente é tão “não-nazista” (ainda que o maior partido nazista fora da Alemanha tenha sido o brasileiro; ainda que Getúlio Vargas, tão inspirador de Lula, tenha tido como chefe de polícia Filinto “governar é prender” Müller, simpático ao nazismo e condecorado com a Ordem de Primeira Classe da Cruz Vermelha por ninguém menos do que Heinrich Himmler – ver o excelente livro de Bruno Garschagen, “Pare de Acreditar no Governo”), está sendo preciso “identificar a presença de israelenses”. Algo simplesmente idêntico ao Lebensraum, o “espaço vital” livre de judeus buscado pelos nazistas. Constantino comenta:

Mas que soa muito estranho, isso soa! Como assim identificar os “israelenses”? Imagina se fosse para identificar os “negros”, ou os “gays”: como seria a reação da turma dos Direitos Humanos e defesa das minorias? O que os simpatizantes da Palestina querem com os israelenses no curso? Vão obrigar agora todos os judeus a usarem uma estrela amarela no campus para serem facilmente “identificados”?

Imagine-se se, a pretexto de uma “Solidariedade ao Povo Isralense”, se partisse de duas premissas: 1) Proibir palestinos; 2) (e corolário necessário de 1)) Tratar todo o povo palestino como Untermenschen, como ratos a terem sua existência passível de permissão por burocratas, a entender que “solidariedade a um povo” signifique aniquilação imediata do povo vizinho.

É esta a diferença entre Israel e o Hamas controlando a Palestina, com a Autoridade Palestina lutando contra o Hamas na outra ponta da Faixa de Gaza. Um permite palestinos até na Suprema Corte, outro proíbe judeus de existirem. E logo os que querem exterminar judeus chamam os próprios judeus de… nazistas.

Ainda partem da mesma mentalidade conspiratória de Putin (outro ser não muito afeito a judeus, por assim dizer). Como crer que, se há professores israelenses (o país com o maior número de Prêmios Nobel per capita do mundo), só pode ser por uma “conspiração sionista”, já que ninguém (ou seja, nenhum esquerdista) quer ficar perto de judeus e israelenses. Só pode ser um “convênio secreto”. Também comenta Reinaldo Azevedo:

Ainda que os tais convênios secretos existissem — acusação típica de mentes paranoicas —, por que estudantes e professores israelenses deveriam, por isso, merecer alguma forma de tratamento especial? Ainda que Israel fosse o que dizem esses celerados, por que cidadãos daquele país deveriam ser expostos a alguma forma de restrição ou molestamento? Porque são judeus ou porque são israelenses?

Já afirmou Ben Shapiro:

O objetivo da esquerda é encerrar o debate político, depreciando seus adversários como algozes. Eles rotulam os seus adversários como racistas, sexistas, homofóbicos, intolerantes, ignorantes, teimosos amargos. Eles os comparam aos nazistas, membros da KKK, terroristas (!). Em seguida, eles os expulsam como leprosos do debate político. Porque quem se importaria em debater com um nazista, ou com um membro da KKK, ou com um terrorista?

É assim que a esquerda ganha argumentos. Eles polarizam os americanos uns dos outros. Eles nos separam por grupos. Eles nos dividem e eles nos conquistam. Eles nos convencem de que somos ou vítimas que merecem recompensa, ou opressores que devem se curvar ao jugo.

Em outras palavras, eles chamam alguém de fascista, de racista ou de homofóbico – ou simplesmente de “nazista” – justamente as pessoas que mais odeiam tais descriminações – e assim elas se calarão. Se fossem mesmo nazistas, racistas, homofóbicas ou o que fosse, simplesmente não ligariam.

Agora, o fascismo abre suas asas sobre o mundo – da Rússia ao Brasil – justamente chamando todas as suas vítimas de “fascistas” – aquelas que mereceriam, então, uma punição violenta e a força de um Estado total para se poder corrigir a sociedade.

O mundo, hoje, entregou sua consciência e sua capacidade de enxergar a realidade não às mentes privadas, mas à supremacia do Estado, aquela entidade que mais odeia a atividade privada. Os cérebros de muitos estão tutto nello Stato, niente al di fuori dello Stato, nulla contro lo Stato.

Flavio Morgenstern

Flavio Morgenstern

Analista político, palestrante e tradutor. Escreve para o jornal Gazeta do Povo , além de sites como Implicante e Instituto Millenium. Lançou seu primeiro pela editora Record Por trás da máscara, sobre os protestos de 2013.

3 comentários em “O fascismo está voltando

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    11/06/2015 em 2:08 pm
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    O mais triste é saber que assuntos tão sérios e importantes, só se encontram em alguns sites da internet e assim mesmo se alguém se interessar e procurar, acabei de ler o texto, vou sair agora e no máximo que vou encontrar serão pessoas falando sobre corrupção sem nem fazerem ideia do que esta por trás de tudo.

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    08/06/2015 em 11:08 pm
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    Os “fascistas” da Ucrânia são como as “elites” do Brasil e como “aqueles cujo nome não mencionamos” do filme Village de Night Shyamalan. Há quem diga, na direita ligth institucionalista, que são como os caras do Foro de São Paulo também, mas aí já não sei.

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    08/06/2015 em 6:06 pm
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    Não existe exemplo mais claro de como fascismo e comunismo convergem e se entrelaçam atualmente do que considerar a política de alianças do Kremlin na Europa, “racionalizada” pela teoria sintética do Alexandr Dugin.

    Quando aquela fraude do plebiscito pela anexação da Criméia ocorreu, Putin chamou como observadores seus amigos dos partidos Europeus. Estavam lá o que a mídia chama de extrema-direita junto com a extrema-esquerda. Os Syrizas e National Fronts de toda Europa, lado a lado. O Kremlin tem ligações profundas com partidos radicais pela Europa e inclusive financia muitos deles.

    É claro que há uma dimensão geopolítica. Do ponto de vista do Kremlin, qualquer movimento que seja um quinta coluna dentro de um país da OTAN é bem-vindo (perdão pelos termos bélicos, mas quando se trata da tradução da visão de mundo russa, eles são os corretos).

    O que a teoria do Dugin faz é construir uma segunda dimensão, de conjunção ideológica entre esses movimentos supostamente opostos (isso tudo é destrinchado pelo professor Olavo de Carvalho num debate com ele). A base de tudo, no entendimento deles, é uma reação à hegemonia americana (sionista-americana segundo os mais anti-semitas) representada pela democracia, o capitalismo e o liberalismo. Mas isso vai além de uma reação. O que todos eles propõe também converge, se entrelaça e se confunde em muitos pontos, Por exemplo, diversas formas de sistemas coletivistas, identitários e nacionalismos (em oposição a um pessimamente compreendido “individualismo liberal”) calcado numa identidade que está sempre em oposição ao “outro”; diversas formas de autoritarismo e populismo (em oposição à democracia liberal); diversas formas de organização coletiva da economia comunitarismos, estatismos e sindicalismos (em oposição ao livre-mercado); e assim por diante.

    E por fim, não se trata de uma convergência ocasional e nem mesmo estratégica. Tem raízes mais profundas e históricas. A própria teoria do Dugin não tem nada de nova, ela está calcada em autores franceses, alemães e italianos da década de 30, que estavam no mesmo “caldo cultural” no qual estava socialismo, comunismo e fascismo, na intersecção entre os regimes – por exemplo o nacional-sindicalismo italiano e o Strasserismo alemão. Eles foram recuperados pelo movimento nacional-blochevique na Rússia dos anos 90, do qual Dugin era também um dos gurus.

    Hoje em dia, o espectro político Europeu (e isso pode ser estendido pra muitos outros lugares do mundo) não se parece mais com uma linha reta que vá de extrema-esquerda para extrema direita passando pelo centro. Mas cada vez mais com um círculo. O centro é na verdade um dos lados, onde centro-esquerda e centro-direita relativamente convergem, em grande parte forçadas pela ortodoxia da União Européia. Pelos dois lados os grupos políticos se diferenciam, e se encontram naquele “quarto escuro” onde fascismo e comunismo convergem – e encontram dinheiro russo.

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