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O efeito Dunning-Kruger: da confusão mental à desinformação

A conhecida frase proferida por G. K. Chesterton “chegará o dia em que teremos de provar ao mundo que a grama é verde” tem uma profundidade que vai muito além do entendido e pregado pelos conservadores nos embates com relativistas. É verdade que o gigante inglês viveu num contexto de “pós-cristianismo”, em que imperava a tentativa de desconstrução da moral pelas ideias relativistas. Entretanto, Chesterton, antes de apologista cristão e de defensor ferrenho do conservadorismo, tinha um senso de realidade acima da média – o que se percebe em seus escritos. Sua leitura de mundo e sociedade, diferentemente do que muitos pensam, transcende a fé e a ideologia. O que Chesterton quer dizer na frase, para resumir o parágrafo, é que o mundo é habitado por uma classe de idiotas que, sem o mínimo senso de realidade, defendem absurdos – e não o fazem por mau-caratismo, mas sim porque acreditam, de fato, que suas ideias estão certas, mesmo não estando. Esse tipo de comportamento é explicado pela ciência como efeito Dunning-Kruger.

Os psicólogos americanos David Alan Dunning e Justin Kruger conduziram um experimento em 1999 com voluntários, incumbidos de responder a perguntas de lógica e gramática. A dupla de psicólogos pediu aos integrantes, ou “cobaias”, do estudo para avaliarem suas próprias performances – isso sem informar-lhes os resultados de cada um. De um lado, os indivíduos com melhor desempenho, sem saber de seu êxito, subestimaram seus resultados. Enquanto isso, de outro lado, os que erraram mais questões (25%) foram os que mais se superestimaram e acreditaram estar entre os 33%, equivalente aos mais bem-sucedidos no exame. O experimento foi batizado como efeito “Dunning-Kruger”. De acordo com os psicólogos americanos, quando um indivíduo apresenta deficiência de conhecimento relativo a uma questão complexa, fantasia em sua mente uma falsa superioridade; isso devido à sua incapacidade de lidar com a complexidade do problema. O comportamento é descrito por Dunning e Kruger como “calibração do incompetente”.

Se as redes sociais são um difusor de pensamento, dando “voz” a qualquer indivíduo – o que deve ser comemorado como evolução para a liberdade de manifestação -, elas ao mesmo tempo escancaram a assertividade do efeito Dunning-Kruger. Não raro, deparamos com indivíduos fazendo defesas pitorescas, incompatíveis com qualquer coisa próxima ao mínimo senso de realidade. Nesse sentido, a liberdade de pensamento e de expressão demonstra-se paradoxal: de um lado, possibilita a manifestação de todos; de outro, permite que teses absurdas (como as antivacinas) sejam difundidas. É aí que entra a relação entre liberdade e responsabilidade. Atualmente, a desinformação é uma chaga abominável nas redes sociais. Aqui não me refiro às fake news “dolosas”, que são as propositais, mas sim aos conteúdos e opiniões difundidos por pessoas que creem ter razão. Ou seja, são fake news culposas – disseminadas por indivíduos que sofrem do efeito Dunning-Kruger; mas aqui já entraríamos noutro problema. Voltemos a Dunning-Kruger.

Não é preciso ir longe para encontrar arquétipos do mal provocado pelo efeito Dunning-Kruger. Para compreender o problema, basta invocar o empirismo do filósofo Francis Bacon (1561 – 1626). Seu método indutivo de investigação científica, no meu entender, é o meio mais simples para pessoas diletantes, como este que vos escreve, entenderem determinados comportamentos do ser humano. Foi o que Chesterton, que de diletante nada tinha, sempre fez para expor suas conclusões acerca dos mais diversos problemas sociais, filosóficos, ideológicos e políticos no final do século XIX e início do XX. No século XXI, vivemos a profecia de Chesterton. São dias nebulosos em que a necessidade de provar que a “grama é verde” aparece volta e meia; mas provar isso para alguém que sofre do efeito Dunning-Kruger é missão impossível, perda de tempo. Pessoas que chamaram a Covid-19 (que ceifou mais de 600 mil vidas no Brasil) de gripezinha, por exemplo, hoje jazem a sete palmos do solo em caixões lacrados. Lembram-se da relação entre liberdade e responsabilidade? Eis um terceiro fator: a consequência. Forte, não é mesmo? Mas, infelizmente – e com todo o quadro exposto -, essas pessoas se mostram irredutíveis devido à sua confusão mental e seguem debochando da pandemia, acreditando em teorias ridículas e disseminando-as, sobretudo nas redes sociais, como verdadeiros agentes propulsores de desinformação. Como escrevi acima, são os paradoxos da liberdade individual.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). Estuda Pós-graduação em Ciências Humanas: Sociologia, História e Filosofia na PUC-RS. De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC, veículos do Grupo Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor parlamentar na Câmara dos Deputados. É colunista e autor no Instituto Liberal (RJ). Foi colunista do site Opinião & Crítica. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria Municipal de Segurança de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021). Membro da Academia Luso-Brasileira de Letras do Rio Grande do Sul.