O ciúme é fruto do capitalismo e da propriedade privada?

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É possível politizar o ciúme? Há quem tente. Começo dizendo isso porque recordei de uma conversa que certa vez tive com um casal de militantes do PSTU. Ambos diziam que o ciúme nada mais era do que o reflexo do sentimento de posse, algo que, na concepção deles, só poderia derivar do sentimento de propriedade nutrido pelo capitalismo. Em síntese: para eles o ciúme é fruto do capitalismo – sim, me lembro do casal afirmando isso categoricamente. Será o ciúme fruto da Revolução Industrial? (Risadas).

Fiz esta introdução porque tem algo menos cômico e mais monstruoso nisso tudo. Nada mais bárbaro, simplista e desumanizador do que enxergar a complexidade humana exclusivamente pela ótica da luta de classes, pela política e nada mais.

O pessoal que faz isso precisa de Nietzsche, mas não do Nietzsche desfigurado nos projetos de “pesquisa” que se valem da “Transvaloração da moral” defendida pelo filósofo alemão para endossar a ideologia de gênero. Ele vai muito mais longe. Precisam do Nietzsche que fala do ressentimento, do nosso eu mais profundo e que boa parte das pessoas insiste em negar.

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Essa gente idealiza a humanidade porque não a suporta. Inquietam-se com a sua essência. E por isso idealizam-na. Porque temem que ela seja isso mesmo, ciumenta, ressentida, invejosa, muitas vezes indiferente e geralmente mais preocupada com o extrato do cartão de crédito do que com a fome na África. São covardes. Não querem aceitar a inveja como intrinsecamente humana. Procuram encontrar um culpado por este “defeito”. Muitos não conseguem aceitar o lado sombrio do ser humano como natural, por isso culpam a desigualdade social, o gênero, a economia, o patriarcado, etc. Se a inveja for um produto do capitalismo, por exemplo, não precisam responsabilizar-se por ela. Assim fica fácil. Isso nada mais é do que uma forma de facilitar o convívio com aqueles demônios interiores que aterrorizam os idealistas puritanos.

Considerando o que foi dito acima, fica a reflexão: não é possível que alguém que acredite que o ciúme seja fruto do capitalismo possa ler Nelson Rodrigues e compreendê-lo satisfatoriamente; é impossível que alguém que pense ser o capitalismo a causa da inveja consiga ler Shakespeare sem superficialidade; é difícil compreender como alguém que lê Dostoievsky pode continuar crendo que as traições ocorrem somente em razão de interesses econômicos. E como perdem com isso!

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Se São Paulo, em 2 Coríntios 12:10, disse: “Porque quando estou fraco então sou forte”, os sectários políticos, se fossem sinceros, poderiam dizer: “Porque quando estou fraco, forte sou ideologicamente”. Não é possível que adeptos das mais variadas religiões políticas não saibam que a inveja já existia antes do saldo bancário. Em Crime e Castigo, Raskolnikov não cometeu o crime por pura necessidade; Macbeth não matou o rei Duncan simplesmente por questões políticas. Aprígio, em O Beijo no Asfalto, não matou o genro Arandir por ter vergonha pela filha.

Tentar compreender o mundo unicamente pelo ponto de vista sociológico é superficial e leviano. Para os adeptos dessa tradição bruta, bastaria acabar com o capitalismo e consequentemente com a propriedade privada para que o ciúme também desaparecesse. Haveria raciocínio mais bizarro? O poliamor não funciona, os apaixonados querem posse, sim, e isso nenhuma ação política irá revolucionar.

É inegável que a política se tornou a religião secular, mas com uma mística pobre e uma teologia tão rasa que só enxerga o pecado nos outros, no sistema. O que seria o marxismo, por exemplo, senão uma escolástica materialista? Se os cristãos escolásticos buscavam compreender o mundo sob a luz das Sagradas Escrituras, os marxistas, ainda que contemporâneos, buscam entender o mundo sob a ótica da luta de classes.

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Seja como for, não tenho nenhuma dúvida de que toda a humanidade que os sectários políticos insistem em negar, incluindo os ciúmes, sobreviverá às suas ideologias. Por isso, se um dia sepultássemos todas as ideologias que idealizam a raça humana, continuaríamos aqui nos odiando, nos amando, nos ajudando e nos matando como se nenhuma delas tivesse existido. No entanto, isso não será possível porque sempre haverá covardes se escondendo atrás de princípios que busquem anular sua própria humanidade.

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Thiago Kistenmacher

Thiago Kistenmacher

Thiago Kistenmacher é estudante de História na Universidade Regional de Blumenau (FURB). Tem interesse por História das Ideias, Filosofia, Literatura e tradição dos livros clássicos.