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“O chamado da tribo”, de Mario Vargas Llosa

La llamada de la tribu é uma obra de Mario Vargas Llosa, publicada pela primeira vez em 2018 e traduzida em 2019 por Paulina Watcht e Ari Roitman. Llosa nasceu no Peru, em 1936, mas viveu parte de sua vida na Europa e nos Estados Unidos, onde lecionou em diversas universidades. Em 2010 recebeu o prêmio Nobel de Literatura.

A obra apresenta a história e as principais ideias de sete autores: Adam Smith, José Ortega y Gasset, Friedrich von Hayek, Karl Popper, Isaiah Berlin, Raymond Aron e Jean-François Revel. Esses autores não foram escolhidos aleatoriamente. Apesar de não parecer, O chamado da tribo é uma autobiografia de Mario Vargas Llosa que descreve parte de sua história intelectual e política, principalmente no que tange à conversão do marxismo ao liberalismo.

Em contato com movimentos coletivistas, Mario percebeu que estes nunca falaram sobre liberdade, pelo contrário, falavam sobre dominação e poder. Ao entrar em contato com as ideias liberais, percebeu que a liberdade era o valor supremo e ela deveria manifestar-se em todos os domínios: econômico, político, social e cultural.

As ideias políticas de Llosa defendem a presença de um Estado forte e eficaz, mas não um Estado grande. Há momentos do livro em que, inclusive, ele cita autores que põem em xeque a liberdade econômica, defendendo maior intervenção do Estado na economia. Por isso, embora seja uma obra rica em ideias, faz-se necessária uma leitura cautelosa, atenta e crítica.

Dentro de cada autor apresentado, diferentes pontos são levantados e analisados por Mario. Trarei alguns deles nos próximos parágrafos. O primeiro ponto é entendermos a natureza do homem, tal como exposta em 1759 em Teoria dos Sentimentos Morais por Adam Smith. O homem é naturalmente egoísta, mas a sociedade humana mantém-se estável e em progresso apesar disso (ou, por causa disso). Smith entende que o ser humano nasceu com a necessidade de agradar os seus semelhantes e com uma aversão a ofendê-los. A natureza humana nos deu uma base para diferenciar o bom do mau, o verdadeiro do falso e o certo do errado.

Em seguida, precisamos entender que Mario viu no livre mercado a única forma de termos uma sociedade justa e livre. Ao ler A Riqueza das Nações de Adam Smith, ele compreendeu que o livre mercado é o motor do progresso. Sem propriedade privada, igualdade dos cidadãos perante a lei, rejeição dos privilégios e divisão do trabalho, não há progresso nem justiça.

A contribuição de Ortega y Gasset mais relevante foi levar a Llosa o entendimento das massas. A massa consiste em indivíduos que perderam sua individualidade, abrindo mão de pensarem por si próprios, com seus próprios valores e convicções. O conjunto tira a racionalidade dos indivíduos, que passam a ser guiados por reflexos condicionados. Llosa compreende esse movimento como um retorno ao primitivismo. Atrelo essa perda da racionalidade a um fenômeno de busca de aceitação no grupo e na sociedade.

É importante dizer que, embora Ortega y Gasset tenha aparecido como influenciador das ideias liberais, o próprio Mario Vargas Llosa aponta que o liberalismo de Gasset é parcial. Para ele é possível que haja liberdade no sentido político, ético, cívico e cultural, mas não no econômico. Entretanto, sabemos que não existe liberdade pela metade.

Talvez o capítulo dedicado a Friedrich August von Hayek seja o melhor do livro. Mario consegue trazer com detalhes todo o legado de Hayek em poucas páginas. Deixo aqui minha sugestão de leitura das obras de Friedrich Hayek na íntegra, afinal, nas próprias palavras de Llosa, “suas ideias são tão renovadoras no campo econômico, como na filosofia, no direito, na sociologia, na política, na psicologia, na ciência, na história e na ética. Em todos eles, manifestou uma originalidade e um radicalismo que não tem comparação entre os pensadores modernos” (p.72).

Em Karl Popper, o grande legado é a percepção da verdade: a verdade é sempre provisória, que dura enquanto não é refutada. Primeiro precisamos entender que, para se constituir uma verdade, uma hipótese precisa ter sido testada e refutada. Se ela resistir a tal processo, ela faz avançar o conhecimento da natureza e da sociedade. Segundo precisamos fazer a mais importante reflexão: não é porque uma verdade não é eterna que ela não deve ser considerada. Enquanto ela é verdade, ela é concreta.

Nos três últimos capítulos, Mario traz os pensamentos dos autores Raymond Aron, Isaiah Berlin e Jean-François Revel. Embora tenham tido forte influência sobre Llosa, as ideias dos autores não se mostram muito impactantes tal como os quatro primeiros. Não posso afirmar se houve uma escolha ruim de organização narrativa ou se, de fato, as ideias dos autores são menos relevantes. Contudo, pontos importantes são levantados.

Aron traz com muita sabedoria a compatibilidade das liberdades políticas e produção de riqueza e dos mecanismos de mercado e da elevação da qualidade de vida, demonstrando que o progresso requer liberdade. Berlin discorre sobre a importância da liberdade individual, defendendo a soberania do indivíduo que deve ser respeitada, afinal, ela é a raiz da diversidade. Revel discorre sobre a liberdade de expressão, apontando a deterioração de uma sociedade ou instituição sem a sua presença. De forma geral, a obra traz importantes contribuições e é uma boa forma de ter contato com diferentes autores e obras, embora não a aponte como uma obra de leitura fundamental.

*Larissa Carneiro é associada III do Instituto Líderes do Amanhã. 

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