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Não confundam apoio ao governo com culto ao Presidente da República

Preciso lembrar aos prezados leitores do Instituto Liberal a avaliação de F. A. Hayek sobre a democracia: a de que é um sistema que favorece o menor denominador comum de uma sociedade, o que na prática significa que é IMPOSSÍVEL que tenhamos um Presidente da República representando perfeitamente os liberais. A democracia existe para eleger Lulas e Bolsonaros.

É verdade que já desfrutamos de alguns “milagres”, presidentes com “elevadíssimo” nível intelectual.
Juscelino Kubitschek, amante das artes, que um dia resolveu construir uma nova capital federal à custa do trabalho de milhões de brasileiros pagadores de impostos.

Tivemos ainda um membro da Academia Brasileira de Letras que atende pelo nome de José Sarney, aquele que congelou preços, criminalizou empresários, levou o país à hiperinflação e ainda criou o Ministério da Cultura.
Pouco depois, tivemos outro “brilhante” intelectual, Fernando Henrique Cardoso, o professor universitário poliglota que criou dúzias de agências reguladores, que fez privatizações de mentirinha e ainda falsificou uma polarização entre esquerda petista e esquerda tucana.

Quem aí tem saudade desses notáveis cérebros brasileiros?

Quero chegar no seguinte ponto: concordemos ou não − eu, liberal de consciência libertária, abomino −, vivemos numa democracia em que cada cidadão representa um voto. Nesse sistema, o atual presidente da República é Jair Bolsonaro, eleito com cerca de 60% dos votos.

A grande maioria das pessoas que votou nele não o estava idolatrando. Não lhe estava dando carta branca para tudo. Não estava projetando nele a imagem de si mesma. Dezenas de milhões de pessoas apenas votaram nele porque foi o que o sistema induziu. A abstenção favoreceria o lado oposto.

Votou nele quem enxergou uma alternativa às políticas anteriores, principalmente no que se refere a economia e segurança pública. Utilizando um termo comum entre analistas financeiros, já estava “precificado” desde o começo que Bolsonaro faria declarações desastrosas e seus cacoetes nacionalistas; mas foi computado também uma equipe econômica disposta a implementar um programa liberal e um Ministro da Justiça empenhado no combate à criminalidade.

Considerando isso, compreendemos que o apoio a Jair Boslonaro não é a ele enquanto pessoa, mas a um conjunto de medidas que vêm apresentando saldos positivos.

Quando as pessoas manifestam apoio ao presidente, estão, na quase totalidade dos casos, reforçando seu voto – e isso é legítimo!

Jair Bolsonaro não é o Lula da direita. Ele é apenas o nome que está lá em cima – simpatizemos ou não com ele − representando um projeto diferente do que tínhamos antes. Não se deve dar importância ao que ele diz, nem às ideias particulares dele. As manifestações toscas de seus militantes mais apaixonados não têm a menor importância.

Devemos prestar atenção nas propostas que estão sendo apresentadas por sua equipe, tendo a consciência de que, num ambiente democrático, elas também devem se aproximar de um menor denominador comum para serem aprovadas.

Não estou concordando com isso. Estou descrevendo uma realidade.

Numa analogia simplista, o Brasil pode ser considerado uma pessoa obesa que trocou um programa que lhe fazia engordar por um que tenta fazê-lo emagrecer o bastante para viver melhor, sem a expectativa de se transformar num atleta em poucos anos.

A chiadeira da esquerda também já estava precificada, mas a de muitos liberais não faz sentido. O que eles esperavam? Que o poder transformasse Jair Bolsonaro num liberal “puro e sábio”, com poderes mágicos para contagiar deputados, senadores, governadores e imprensa com os princípios liberais?

Depois de tantos governos socialistas, os liberais estão achando pouco o que está sendo apresentado pela equipe de Bolsonaro? É isso?

Ah… Pelamordedeus!

O fato é que o medo de ser chamado de “bolsonarista” ou de “bolsominion” por aqueles que adoram Lula e Dilma enfraquece o conjunto de medidas liberais que esperamos que sejam aprovadas.

O anti-bolsonarismo liberal é um tiro no pé por outras três razões:

1 – Caso Jair Bolsonaro sobreviva até o final do mandato e se reeleja, ele poderá não ver mais razão para tentar levar à frente políticas liberais (lembrando que muitas são impopulares) pelo simples fato de não ter apoio dos liberais. Então, perderemos espaço no governo e poder para pautar nossa agenda.

2 – Caso ele caia ou perca as próximas eleições, quem o substituirá não será alguém do Partido Novo, nem um anjinho liberal que descerá do céu. Será o PT ou outra coisa muito bem relacionada com ele.

3 – O cidadão comum acabará interpretando que os liberais são mais uma mutação da esquerda, atuando junto com os petistas contra o governo que ele elegeu e nele deposita esperança, o que jogará no lixo muitos anos e esforços dos movimentos liberais de popularização de suas ideias.

Repito: apoiar o atual governo não é aplaudir as falas desastrosas e os cacoetes nacionalistas de Jair Bolsonaro, é apenas uma postura inteligente de quem compreende o mínimo de política, de democracia e de história. O uso da imagem de Jair Bolsonaro nas manifestações do último domingo foi muito mais decorativo do que representativo.

A espera por um presidente que represente integralmente as ideias liberais tem o mesmo efeito das pombas brancas que as pessoas soltam nos atos contra a violência.

João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É militante liberal/conservador com consciência libertária.