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Muita calma nessa hora

 

As imagens são chocantes e lastimáveis.  Primeiro, uma cidade coberta de lama.  Casas, ruas, jardins, tudo ocre.  Uma dezena de pessoas mortas.  Agora, a lama invadindo quilômetros de mar, na foz do Rio Doce, cobrindo de marrom o oceano antes azul. Não há quem não se sensibilize com uma tragédia dessas.  Mas é preciso ter cuidado para não deixar que nossas impressões, por piores que sejam, se elevem acima da razão.

Como todo e qualquer desastre, ambiental ou não, este também deve ser rigorosamente investigado e os eventuais responsáveis punidos na forma da lei.  Investigações têm o mérito não apenas de cobrar responsabilidades dos culpados, mas, principalmente, servir de base para análises técnicas de causas e consequências.  Sábios são aqueles capazes de aprender com os próprios erros, diz o velho ditado. Saber exatamente o que aconteceu e por que aconteceu é o primeiro passo para se evitar outros acidentes semelhantes.

Mas investigar é muito diferente de punir sumariamente, com base em arroubos autoritários, como pretendeu a presidente Dilma ao definir, ela mesma, a multa que deveria ser aplicada à empresa dona da barragem.  Além de não ter competência para isso, a presidente, assim agindo, passou por cima de um dos pilares do Estado de Direito, que é respeito ao devido processo legal.

De forma semelhante, não foram poucos os políticos, jornalistas e “analistas” que, do alto de suas indignações – verdadeiras ou falsas – vieram a público clamar por punições severas, entre elas o fechamento sumário da mineradora Samarco, esquecendo-se de que esta empresa é a locomotiva da economia daquela região, responsável por cerca de 80% da renda de Mariana e adjacências.

Esse pessoal, que sugestivamente nunca se cansa de fazer proselitismo anticapitalista a cada acidente ambiental, se “esquece” de que nunca houve local onde se poluiu tanto, durante tanto tempo, como nos países da antiga Cortina de Ferro.  Os comunistas conseguiram até mesmo secar o Mar de Aral quase completamente.  Por outro lado, fingem desconhecer que é nos países onde o capitalismo está em estágio mais avançado que os níveis de poluição ambiental são hoje os menores – América do Norte, Europa e Japão.

Durante os últimos quinze dias, li e ouvi gente dizendo os maiores disparates sobre a tragédia de Mariana, alguns inclusive falando do alto de seus títulos de especialistas.  Uns diziam que não foi acidente, mas terrorismo, outros que o Rio Doce estaria morto, alguns mais exaltados chegaram ao absurdo de dizer que a avalanche de lama teria sido mais grave que o tsunami do Japão e a explosão da usina atômica de Fukushima.

Pelo amor de Deus, vamos raciocinar um pouquinho antes de sair por aí alardeando o “apocalipse da lama”. Os ingleses despejaram esgoto e rejeitos industriais durante, pelo menos, dois séculos no Rio Thamsa, que banha Londres, entre outras cidades.  A imagem daquele rio, antes de ser despoluído, no final do século XX, era similar a que se vê atualmente no rio Tietê, em São Paulo.  Hoje, o rio voltou a ter águas puras e límpidas, e a vida marinha retornou com toda a sua força, para orgulho dos ingleses.

Repetindo: foram mais de dois séculos de rejeitos sanitários e industriais jogados naquele rio por uma das maiores cidades do planeta.  E o Thamsa não morreu.  E mais: ouso dizer que nem mesmo o Tietê está morto e ainda pode voltar a ser o que era no passado, bastando que se faça a coisa certa.

Já a situação do Rio Doce, apesar dos alarmistas de plantão, é muito menos grave.  Eu sei que isso é politicamente incorreto de se dizer numa hora dessas, mas é a verdade.  A lama pode ter uma aparência e uma cor muito feias, mas sem dúvida é muito menos danosa à vida do rio do que muitos outros poluentes presentes no Tietê, por exemplo.

A natureza é teimosa e, deixada em paz, é capaz de recuperar-se em tempo muito mais curto do que se imagina. O rio é um organismo dinâmico.  A cada minuto, são despejados nele quantidades enormes de água limpa, seja através da nascente ou dos seus diversos afluentes, os quais foram pouco ou quase nada atingidos pela lama.

O pior que se pode fazer nos momentos mais agudos de qualquer tragédia é deixar que nossas impressões e sentimentos de revolta se sobreponham à razão.  O Rio Doce não morreu, nem vai morrer.  Muito mais rápido do que se imagina, suas águas voltarão a abastecer os municípios por ele banhados e seus peixes voltarão a alimentar a população ribeirinha.

Fechar a Samarco ou puni-la de forma a inviabilizar sua operação, como desejam os mais exaltados, por outro lado, é castigar justamente a população mais atingida pela tragédia, cujo meio de vida está totalmente vinculado àquela empresa.

Esperemos que a razão prevaleça.

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

Um comentário em “Muita calma nessa hora

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    26/11/2015 em 8:01 pm
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    Sim, mas e o exemplo dos países liberais, onde acidentes similares custaram indenizações bilionárias? Se ser irresponsável sai mais em conta, não seria como dizer que o crime compensa?

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