fbpx

Montaigne, Flaubert e Lewis: a vida intelectual e o valor do livre pensamento

Um dos grandes exemplos da arte do pensamento pode ser encontrado no francês Michel de Montaigne (1533 – 1592). Com a morte de seu pai em 1568, o então jurista e político torna-se herdeiro do Castelo e do título de Senhor de Montaigne, mas já dois anos mais tarde vende seu cargo e, no ano seguinte, enclausura-se em sua torre para escrever suas reflexões.

Aposentado, Montaigne restringe-se à vida em seu castelo, o “Castelo de Montaigne”, e dedica, com um pequeno intervalo, o resto de sua vida à leitura e à produção de seus ensaios filosóficos. Montaigne possuía uma imensa biblioteca. Nela, o filósofo francês escreveu seus inúmeros trabalhos. Por conta disso, muitos o consideram como precursor do ensaio pessoal. Devido aos conflitos religiosos entre protestantes e católicos que se sucediam na época com a eclosão da Reforma de Lutero, Montaigne chegou a regressar a compromissos políticos e sociais, mas, nos últimos sete anos de sua vida, voltou à sua biblioteca e dedicou-se à reflexão e à produção de seus ensaios.

Outro francês, o romancista Gustave Flaubert (1821 -1880), autor do conhecidíssimo e polêmico livro Madame Bovary, é outro exemplo de vida intelectual. Nas Cartas Exemplares (pequena versão em português de sua correspondência), Flaubert escreve a seu interlocutor que em determinado momento de sua vida, ainda novo, decidiu romper com o mundo exterior e viver como um “urso branco”, focado em seu trabalho literário. É claro que, com a morte de seu pai, Flaubert, assim como Montaigne, também herdou uma fortuna importante, o que garantiu seu sustento para dedicar-se exclusivamente à escrita e à vida intelectual. O resultado de tal reclusão e dedicação ao trabalho com afinco pode ser bem percebido em cada descrição do mencionado romance Madame Bovary. Para muitos, o clássico é considerado como um “romance perfeito”.

Com uma vida social mais ativa, porém não com menos dedicação e horas de reclusão para seus estudos, o irlandês-inglês Clive Staples Lewis (1898 – 1963) foi o que considero um intelectual completo. Tanto na vida acadêmica, sendo professor nas universidades de Oxford e de Cambridge (após 1954), como em suas produções fora da academia, Lewis tornou-se um expoente do pensamento em seu tempo, não restrito à apologia de sua fé, mas abrangendo muitas áreas da filosofia, da crítica literária, da vida intelectual e literata e da valorização da capacidade de pensamento. Se a vasta obra literária composta por ficção e incontáveis ensaios nos revela a profundidade de Lewis, os relatos de suas discussões tanto no The Inklings, grupo informal de amigos eruditos de Lewis, entre os quais participava outro grande pensador, J. R. R. Tolkien, para discussões sobre literatura e demais temas filosóficos, como no Clube Socrático da Universidade de Oxford, nos mostram um mesmo Lewis que defendeu acima de tudo a importância do livre pensamento. Em O Dom da Amizade, o jornalista e escritor britânico, Colin Duriez, resgata relatos incríveis sobre os encontros dos The Inklings. Para saber um pouco sobre o Clube Socrático é preciso ler os ensaios de Lewis. A Editora Thomas Nelson faz um brilhante trabalho de tradução da obra de Lewis para o idioma português. Além disso, evidentemente as biografias de Lewis são fontes riquíssimas para quem tiver desejo de se aprofundar no universo do pai das Crônicas de Nárnia.

Uso os três pensadores, sem me aprofundar em suas vastas biografias (o que seria impossível neste pequeno texto), como um insight para refletirmos sobre nossa vida intelectual. De fato, a sobrecarga de conteúdos gerados na internet atualmente provém de quais tipos de fonte? De papagaios repetidores ou de indivíduos que, caps lock!, PENSAM? A necessidade de tecer opinião sobre tudo e de ganhar cliques e curtidas não pode ser – e não é – maior que o prazer de viver uma vida intelectual. Por tal erudição, não entendam tirar fotos com uma biblioteca ao fundo, com cachimbo na boca e olhar de Schopenhauer. Refiro-me, isso sim, a ter uma vida interior de estudos, de reflexão – o que não, necessariamente, resulta em produção de conteúdo.

Tenho um amigo caminhoneiro. É amante dos livros. Faz a rota Rio Grande do Sul-Argentina. Viaja a Buenos Aires. Leva com ele em cada viagem um novo livro, que retira da Biblioteca Municipal Machado de Assis, de Novo Hamburgo. Ninguém vai ver artigos dele em jornais, blogs na internet ou produções literárias. Guarda seu conhecimento para si. Cada vez em que converso com ele, percebo que flui de seu íntimo uma fala natural de alguém que tem vida interior, vida intelectual. É um caminhoneiro, batalhador e que suja as mãos de graxa, mas tem uma vida interior não menos importante que a de Montaigne, de Flaubert e de Lewis – pois, como escrevi acima, a vida intelectual é interior. Além do mais, se Montaigne e Flaubert ganharam suas heranças que possibilitaram sua dedicação total à vida literata e Lewis teve em seu pai um bom mantenedor ao menos nos primeiros anos em Oxford, o caminhoneiro precisa otimizar seu tempo para desenvolver sua vida interior de pensamento.

Hoje, poucos são os conteúdos que absorvo nas redes sociais, até mesmo dos principais formadores de opinião no país. Fico atento ao básico para manter-me informado. A necessidade de opinar sempre – e de ter razão sempre -, faz alguns, aos gritos, venderem suas almas, hoje vazias de um conhecimento genuíno, por migalhas de interesses próprios, via de regra pequenos se comparados à imensidão do conhecimento.

Raros são os pensadores da liberdade no Brasil atual. Os poucos que pensam, podem acreditar, não estão nas vitrines. Muitos estão atrás do volante de um caminhão e, como já disse, não são menos literatos do que outros que sentam na primeira fila dos eruditos nacionais; entendem o significado do “buscar o conhecimento”. Há uma frase atribuída ao escritor russo Fiódor Dostoiévski (1821 – 1881) que pode, de algum modo, explicar a diferença entre o viver a vida intelectual e o “ser” um intelectual: “Podem ter a certeza de que não foi quando descobriu a América, mas sim quando estava a descobri-la, que [Cristóvão] Colombo se sentiu feliz”. Ou seja, a estrada para o conhecimento, a vivência interior diária e as experiências do saber são muitos mais prazerosas em detrimento a qualquer título, publicação ou honraria na vida intelectual.

Somos (ainda) um país regido pela liberdade de pensamento. Que aproveitemos isso, pois noutros lugares o povo mal instruído perdeu sua liberdade de pensamento e expressão por, justamente, não fazer bom uso dessa liberdade. Haja vista o “Bücherverbrennung“, a triste queima de livros nazista ocorrida em 21 de junho de 1933, assim como os países socialistas que em pleno século XXI imprimem somente o que seus líderes totalitários permitem.

Lembremos: uma nação bem instruída jamais será governada pelos maus. Aqui no Pampa, enquanto escrevo este pequeno ensaio, faz um frio de “renguear cusco”. Minha casa é simples, mas aquecida pelos livros nas estantes em meu quarto. Como é bom ler, pesquisar, aprender, conhecer… são ferramentas que exercitam o pensar. O livre pensar!

Dia desses faltou energia elétrica aqui em casa. Fazia frio. Eu e minha esposa, que, quase formada em psicologia, compartilha comigo muitas leituras, ligamos a lanterna do celular e começamos a ler. Cada um lia algumas páginas de livros aleatórios. E como foi bom. Como é bom! O celular não fez falta – exceto pela serventia de sua lanterna. A literatura nos distrai dos aspectos ruins da humanidade e nos eleva a outro patamar individual, interior, de pensamento e conhecimento. Paradoxalmente, entretanto, ao passo que a leitura nos distrai de fatos ruins do dia a dia, ela nos apresenta outro mundo e novas realidades. Talvez até mesmo a verdadeira realidade, conquanto nem sempre estejamos abertos como bons receptores para depararmo-nos com algumas verdades.

Não é preciso romper com o mundo exterior, assim como fez Gustave Flaubert, para obter-se uma vida intelectual, mas é necessário romper, sim, com nosso próprio mundo interior. O bom liberal-conservador, preciso lembrar, deve ter uma vida intelectual. Até porque ficar por aí citando frases soltas de Ludwig von Mises para pertencer a rodas de discussões sobre política, economia, filosofia e ideologia é muito pouco se comparado àquilo que se espera de um bom liberal.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).