Mensalão e uma comprovação: poder é mais importante que dinheiro

House-of-Cards1Estava lendo agora de manhã a ampla reportagem do “O Globo” sobre o fim do julgamento do mensalão. A página 6, que fala sobre os condenados, as multas e as penas são um chocante retrato da influência do poder político sobre o resultado do julgamento. Influência muito maior que o a do poder econômico.

Praticamente  todos os réus do mensalão pertencentes ao núcleo financeiro e operacional (Marcos Valério, Kátia Rabelo, José Roberto Salgado, Ramon Hollerbach, Cristino Paz) tiveram grandes penas e ficarão um bom tempo na prisão. A média de multas também foi bastante alta (1,847 milhões por condenado).

Já o núcleo político teve pouquíssimos réus efetivamente presos (os que estão em regime fechado, como José Dirceu e José Genoíno, estarão em regime semi-aberto em alguns meses). A média das multas foi significativamente mais baixa (686 mil por condenado – um terço da média das multas para o núcleo econômico).

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Essa situação me lembra um dos seriados de maior sucesso no mundo hoje, “House of Cards” (castelo de cartas), do site Netflix, sobre um deputado americano (Frank Underwood – interpretado magistralmente por Kevin Spacey) que manipula todo o sistema em favor dos seus interesses.

Uma das frases mais marcantes da personagem na segunda temporada é um desabafo feito após encontrar com um lobista que foi seu ex-funcionário: “Dinheiro é aquela super mansão em um lugar lindo que começa a se deteriorar apenas dez anos depois de construído. Poder é aquele prédio feito de pedra maciça que dura por séculos. Eu não consigo respeitar uma pessoa que não consegue enxergar tão clara diferença.” (em tradução livre)

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O caso brasileiro atesta claramente a veracidade desse pensamento. Em uma sociedade corrompida pela política, valores como liberdade, enriquecimento pelo trabalho, respeito ao próximo e respeito às leis tem pouca importância perto da vontade e exercício do poder. Marcos Valério podia ser muito rico. Kátia Rabelo podia ser banqueira. Nada disso os salvou de condenações e respeitáveis tempos de prisão, muito justos, por sinal. Mas basta você ter poder político, influência na escolha de membros do STF, voz e voto na condução da economia e abertura para concessão de crédito barato em bancos públicos para rapidamente você ser perdoado e libertado. Sem contar a vaquinha que fazem para pagar suas dívidas (com grandes suspeitas de lavagem de dinheiro).

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Eu quase consigo ouvir pessoas como José Dirceu falando consigo mesmo, após mais um dia de negociatas de dentro do presídio de onde ele sairá em breve, outra famosa frase de Frank Underwood: “democracia é algo tão supervalorizado”.

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Comentários

  1. É verdade… faz sentido também mencionar a série “Sopranos”, fazendo uma analogia do modo como funciona a política da “intelligentzia” brasileira ao modo como funciona a máfia de origem italiana/siciliana… nesse sentido o Dirceu é o Tony Soprano. Ainda prefiro o Tony!