Manual de como ser amado pela ONU

Eu entendi. Sério, eu entendi a modernidade e suas concepções políticas e culturais. Tudo gira em torno de ser “fofinho” e não contestar as certezas, os egos e os sentimentos dos politicamente sensíveis. Ser fofinho nas propostas de segurança pública, nas soluções sobre imigrações em massa, ser gracioso e lacrador ao falar sobre o direito humano de matar bebês no útero materno e ser “tchutchuca” no trato com ditadores e “tigrão” com aqueles que contestam as suas sedes por sangue. Não importa se as visões são corretas, se as preposições de seus argumentos correspondem à realidade e se as conclusões são no mínimo sensatas. O que importa agora, de verdade, é que na TV e nas páginas dos grandes portais de notícias, os discursos estejam alinhados num globalismo político, que as lacrações pseudossociais encham os jornais de matérias e os posts de compartilhamentos. Os fatos não importam mais, mas sim como a foto sairá no Instagram e como a Globo vai reportar as frases de efeito dos discursos pró-Amazônia e antipoliciais.

Ora, é relativamente fácil ser amado pelo mainstream e pela sociedade progressista: mostrem a imagem de um urso polar se afogando (ursos polares, cujo nome científico é Ursus maritimus, que nadam quilômetros de distância apenas para fazer sexo com suas ursas, mas segundo os ecossensíveis, eles se afogam no derretimento de geleiras); coloquem a imagem de florestas em chamas dantescas (florestas que “pegam fogo” sozinhas há milênios, mas a mídia imparcial e profissional descobriu esses dias); falem sobre a ideologia de gênero (a teoria mais ridícula dos últimos séculos, sem o menor teor científico, uma das alegorias ideológicas mais abissais e picaretas desde “leite com manga faz mal”); atravessem os mares a barco para salvar a atmosfera, aliás, quem sabe a solução para salvar o mundo não esteja no ato de voltarmos a andar de carroças?

Basta ser politicamente fofinho; quem não se padece de um ursinho se afogando, de índios em florestas em chamas e de uma adolescente da Suécia com medo do mundo acabar amanhã? O problema disso tudo é que não passa de hipocrisia. Mas agora se trata de uma hipocrisia global, galopante, mas bonitinha. Lembro que na minha infância os movimentos das organizações internacionais, aquilo que rapidamente se tornava cartilha nas escolas, estava mais direcionado à fome humana, à miséria e aos maus tratos que muitos povos ainda recebiam — e recebem — como espólios históricos de políticas mal feitas e tiranias virais. 

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Lembro-me também, no ensino médio, de escrever poemas nas aulas de língua portuguesa a fim de conscientizar meus pais para a fome na África e dos meios legais para ajudá-los. Nas missas havia cestas para recolher doações para os miseráveis da África. Mas tudo bem, parece que essa luta cansou, não há mais lágrimas para Ruanda, nem para os sofridos nigerianos. 

Diz a ONU que agora temos que chorar pelos biomas e pelas castanheiras centenárias das florestas tropicais. “Prioridades”, clamam os secretários da instituição. Falemos, pois, das calotas polares que estão descolando e dos homens que se sentem mulheres; massacres políticos, misérias extremas e trabalhos escravos não seduzem mais aquela esquerda que agora habita os grandes salões, a esquerda gourmetizada que agora discute o sexo dos confusos. Os gritos dos africanos, os choros das estupradas e os estampidos dos fuzis dos massacres políticos, tudo isso parou de ressoar no 25º andar de seus apartamentos em Paris, Nova York ou no Leblon; temos problemas maiores: os sonhos que roubamos da Greta.

Agora, se quisermos entender de fato o que jaz nesse mundinho de Imagine, temos que cavar um pouco mais a camada fétida da hipocrisia para bem vermos o que jaz no subsolo da ideologização global. Não importa o que fazem, o que defendem, importa a quem afagam com tais discursos e apologias. 

Por exemplo: Cuba, aquela mesma Cuba que assassinou em massa centenas de milhares nas décadas de 1950-1990, que mantém na pobreza milhões, que ainda hoje ostenta campos de cultivo primitivos, que mantém prisões sub-humanas, que mantém a democracia e as liberdades mínimas longe de seus cardápios caribenhos. Aquela ilha que há poucas décadas — e, quiçá, ainda hoje — matava e prendia homossexuais pelo simples fato de serem homossexuais, esse mesmo país é hoje a queridinha da ONU. Ninguém toca nela apesar das publicamente sabidas desumanidades ali cultivadas, quaisquer medidas contra ela se tornam dignas de pesadas críticas, suas diretrizes ditatoriais e seu modus operandi escravagista vertem em verdadeiros “exemplos a serem seguidos pelo mundo” — dizem os sacrossantos da Organização das Nações Unidas. Quem nunca escutou na universidade que Cuba é um exemplo de humanismo? Poupe-nos! 

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E a Venezuela? Por favor, não perturbem o nosso camarada Nicolás Maduro; não proponham ações efetivas e nem toquem no assunto dos milhares que agora comem lixos com cachorros. Não é prioridade; salvem antes as florestas e as calotas.

Que tal falarmos um pouco da “alma” das florestas? Sim, é dessas almas que nossos “batinados” agora cuidam a partir dos seus púlpitos. No Brasil a salvação escatológica já deu, agora temos que salvar os aquíferos e demarcar terras indígenas. Evangelho? Deixem de ser antiquados, falemos de Gaia e dos textos da ONU. Jesus? Para quê? Temos a Mãe Terra, esse deus nos basta. E digo mais, segundo São Boff, capítulo 13, versículo 13: “se não salvardes as árvores, arderás no fogo do capitalismo malvadão”. E mais, façamos um Sínodo para discutir ecologia, já que os demais problemas humanos e religiosos, como a pedofilia, fome, tiranias, perseguições religiosas e abusos teológicos já não dão mais likes geopolíticos, nem fazem um Papa ser “pop”.

O segredo para ser politicamente respeitado na modernidade, é, pois, ser carinhoso e pregar fofuras mundiais para que os jornalistas lacradores repliquem de maneira viral os discursos de sempre. Se você postar a foto de um macaco em meio a queimadas no Facebook, nem precisa mais ajudar o mendigo que está há um mês dormindo na entrada de seu condomínio de luxo. Chorar por calotas polares e florestas, enquanto se joga embaixo do tapete os sofrimentos humanos, os mais abjetos e os corriqueiros, eis o nosso segredinho capitão. E aqui está a verdade por debaixo da crosta globalista hipócrita. 

Na Nigéria, por exemplo, a nova moda é sequestrar garotas, estuprá-las e consequentemente engravidá-las, para depois raptar seus filhos e vender no mercado negro. Mas quem se importa(?), temos florestas queimando, ursos polares em alto mar e uma adolescente sueca brava com o Trump. Para que perder tempo com nigerianas estupradas se temos que aumentar absurdamente as terras indígenas demarcadas? Afinal, o que são mulheres estupradas e bebês vendidos no mercado negro quando temos os sonhos de Greta para nos preocupar, quando temos nos altares católicos a consagração de matas e biomas? PRIORIDADES… 

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A ONU tem mais o que fazer. É preciso unificar mentes, censurar com sentimentalismos ralés os discursos discordantes. É preciso uma ONU forte para que os indivíduos e as nações se enfraqueçam e deem lugar a uma política comum inconteste. Uma só nação mundial… O que sempre achei ser um discurso piegas e conspiracionista de assembleianos radicais, aos poucos a própria ONU vem me convencendo possuir seus fundamentos. Assustador…

Por fim, o que todos querem saber, o que diz o famoso manual: “Seja querido pela ONU e ainda ganhe dinheiro fácil de George Soros”? Lacre, fale o que a nossa geração de “Merthiolate que não arde” quer ouvir. A decepção e a frustração são coisas que nossa era não pode suportar. Então replique os discursos oficiais, não duvide, não conteste e não enfrente o sistema; a Greta pode chorar. Seja ecologista, vegano, socialista, trans, e se for possível, negro. O ponto de inflexão não está na validade do que é dito, o conteúdo pouco importa, o que importa é a quem serve tal programa de tertúlias, qual grupo sai ganhando e qual sai perdendo, Então seja um lacrador fofinho e ficará tudo bem, talvez você até seja promovido como um herói da humanidade e um gênio da geopolítica com apenas 16 anos, tendo apenas que repetir a mesma diarreia ideológica de sempre. 

E se no fim, alguém mais inteligente contestar as suas conclusões, chore, abrace uma árvore e saque de seu coldre ideológico aquele “fascista” delicioso que a tudo cura e a todos calam.

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Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, colaborador do Jornal Gazeta do Povo, ensaísta e editor-chefe do acervo de artigos do Burke Instituto Conservador.