Mangabofobia

 

A presidente Dilma militou comigo no PDT, na época do Brizola. Ela tem uma visão que nos aproxima, de usar o poder do Estado para construir alternativas. Mas isso precisa ser reestruturado, precisamos dar nova forma a isso. O nacional-desenvolvimentismo não é mais suficiente”. Roberto Mangabeira Unger

Ao ler a declaração acima, retirada de uma entrevista do indigitado professor à Folha de São Paulo, que mais parecia um pedido de emprego do que qualquer outra coisa, comecei a sentir calafrios, os primeiros sintomas de uma enfermidade que me acometeu no passado e, a exemplo das doenças autoimunes, permanece em estado latente em meu corpo: a “Mangabofobia aguda”.

Como expliquei à época do primeiro surto, e de acordo com a definição dada originalmente pelo professor Sério Rodrigues, “Mangabofobia” é um “neologismo com o qual pretende-[se] dar conta não de uma aversão a mangabas, frutos meio antipáticos mas inofensivos da mangabeira, e sim do pânico que (…) inspiram o catedrático de mesmo nome e seu estilo oratório copiado (…) dos trejeitos de Benito Mussolini: queixo projetado, boca desenhando um U de cabeça para baixo, peito cheio como o de um galo de briga, voz projetada com arrogância e olhos varrendo a audiência, desafiadores, em pequenos arrancos de boneco de mola”.

Antes de prosseguir, seria interessante um breve resumo acadêmico desse  personagem macabro.  Segundo a Wikipedia, “Muito do trabalho teórico de Unger pode ser expresso em quatro projetos relacionados: teoria social, alternativas programáticas, pensamento jurídico e filosofia. O primeiro projeto é o desenvolvimento de uma alternativa radical, anti-determinista ao marxismo e, mais geralmente, para o que ele descreveu como “teoria social de estrutura profunda”. O segundo projeto é a formulação de alternativas institucionais para as sociedades contemporâneas — Unger acredita que as sociedades contemporâneas podem resolver seus problemas mais básicos apenas inovando nos arranjos que hoje definem as democracias políticas, as economias de mercado e as sociedades civis independentes. O terceiro projeto é a transformação do pensamento jurídico em uma prática de re-imaginar as instituições sociais, econômicas e políticas. O projeto quarto é a instrução e defesa de uma posição filosófica geral, não só na política e filosofia moral, mas também na filosofia da natureza e da ciência”.

Em resumo, meu algoz pode ser descrito como um reformador social, para quem nenhum dos arranjos sócio econômicos atuais presta, devendo ser corrigidos e reorganizados por mentes brilhantes e profícuas como a dele. Em meus terríveis pesadelos, já antevejo o homenzinho, tal qual um Allien, parindo leis esdrúxulas em profusão, para o bem do povo e felicidade geral da nação.

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Meu terror torna-se ainda mais desumano porque sei que minha luta contra o ogro de Harvard é absolutamente desigual. Enquanto eu me descabelo para tentar entender os mecanismos que movem a ação humana e a dinâmica dos mercados, ele parece não estar nem aí para essas bobagens. Para o meu algoz, a sociedade em geral e o mercado em particular nada mais são do que grandes tabuleiros de xadrez, onde ele pode exercitar sua arrogância intelectual. Já para mim, é um sistema de estrutura extremamente complexa e equilíbrio tênue, que evolui e se aprimora ao longo do tempo.

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Ele simplesmente ignora o poderoso mecanismo de preços, que registra a intensidade dos desejos e necessidades dos consumidores, e dá aos empreendedores a oportunidade de saber o melhor emprego para os recursos sempre escassos. Tampouco se importa que seja absolutamente impossível predizer o resultado de bilhões de transações individuais e voluntárias, bem como os impulsos que geram as decisões e interações que culminam nestas transações.

Eu, por outro lado, prevejo conseqüências catastróficas de longo prazo quando seus eventuais planos forem colocados em prática, já que nem mesmo ele, malgrado todos os seus poderes sobre-humanos, jamais poderá prever com precisão o comportamento dos agentes diante desses planos.

Meu maior medo, no entanto, é que esse senhor de fala mansa e sotaque de gringo jamais se deterá em sua sanha reformadora. O jogo que ele joga não é justo, pois se não derem certo as suas bruxarias, sempre lhe sobrará a cadeira em Harvard. Ele não perde nunca. Já este pobre mortal não tem como vencer.

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Por que, meu Deus, eu tinha de acreditar naquilo que Hayek chamava de “ordem espontânea”? Ou achar que aqueles que se arrogam a tentar interferir nessa ordem estão indiretamente reivindicando possuir todas as respostas necessárias para produzir resultados melhores do que a interação cotidiana de milhões de indivíduos?

Por que, meu Pai, eu deveria saber que ninguém possui suficiente informação e conhecimento para determinar, ou sequer prever, quê particular método ou solução é melhor para lidar com problemas tão complexos?

Será que essa tal “mangabofobia” é alguma espécie de castigo divino pelo pecado mortal de ter eu insistido, durante tanto tempo, que se deixasse o mercado corrigir-se sozinho, sem a ajuda de planos simplistas? Ou será que esse surto paranóico pode ser explicado freudianamente como uma reação do meu id àquela recusa indelével do ego em aceitar passivamente qualquer modelo ou plano originado na cabeça de políticos e burocratas?

Por favor, Senhor, ajude-me a suportar mais esta provação.

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João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.

Um comentário em “Mangabofobia

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    07/11/2014 em 4:54 pm
    Permalink

    Rio de Janeiro, 7nov2014.
    Prezado Barão de Mauad.
    Entendo a sua preocupação com a figura esdrúxula.
    É que ele padece da tal ilusão sinótica (Hayek) aquela sensação de que o portador sofre imaginando conhecer todas as circunstâncias da vida em sociedade e de seus milhões de indivíduos, e que para isto, tem na sua cachola soluções mirabolantes para todos os problemas.
    Fique tranquilo pois daqui a pouco esse gaiato desaparece sem deixar vestígios e ninguem vai lembrar das suas afirmações transloucadas.
    Aproveito para deixar um dito de Tolstoi.
    “Não alcançamos a liberdade buscando a liberdade, mas sim a verdade. A liberdade não é um fim, mas uma consequência.”
    ―Leon Tolstoi
    Frases – http://kdfrases.com
    Um abraço ao amigo.
    UilsonJC.

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