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Maior diferença entre as projeções do FMI e as expectativas de mercado para o crescimento do PIB brasileiro

O mundo mudou bastante neste começo de ano. A pandemia do coronavírus, uma crise de saúde que tem impactos na economia, começou na China, e se espalhou por praticamente o mundo inteiro. Saber a dimensão da crise econômica ainda é muito difícil, dadas as inúmeras incertezas em torno disso tudo. Há um mês atrás, foi divulgado pelo FMI, na sua reunião semestral de abril, o World Economic Outlook, com projeções para algumas variáveis macroeconômicas, entre elas as taxas de crescimento do PIB para este conturbado ano de 2020. Semanalmente, há as expectativas de mercado do boletim Focus, divulgado pelo Banco Central, com a mediana das projeções de mais cem instituições financeiras e consultorias econômicas.

Para o FMI, o PIB do Brasil deve recuar, em termos reais, 5,3% neste ano, número próximo da projeção do IBRE/FGV (-5,4%). Já segundo as expectativas de mercado, do boletim Focus, a queda será de 5,1%. Uma das marcas desta crise é a velocidade muito rápida em que tanto as variáveis macroeconômicas quanto as projeções se deterioram. Neste ano ocorreu a maior variação de um dia para o outro das projeções de crescimento do PIB, segundo o boletim Focus. Já são 14 semanas consecutivas de queda das projeções da Focus para o PIB de 2020.[1] Porém, há um mês atrás, quando o FMI atualizou suas projeções para um recuo de mais de 5%, as expectativas de mercado indicavam uma queda de 3,0% da atividade econômica brasileira. Somente um mês depois é que a mediana do boletim Focus convergiu para um número próximo do FMI.

Desde 2000, quando existem as projeções da Focus, neste ano de 2020 foi que ocorreu a maior diferença entre as projeções do FMI divulgadas na reunião do primeiro semestre e as expectativas de mercado, evidenciando o alto grau de incerteza desta crise do coronavírus, como mostra o Gráfico 1. Para fazer este cálculo, foram utilizadas as projeções de abril do FMI para o ano corrente e a mediana da Focus de uma data próxima das reuniões do Fundo Monetário Internacional, em meados de abril. A maior diferença até então tinha sido justamente em 2009, no final da crise financeira internacional de 2008/09.[2] Nos outros dois anos de queda do PIB brasileiro (2015 e 2016), as projeções do FMI e das expectativas de mercado foram exatamente as mesmas.[3]

Já o Gráfico 2 mostra as diferenças entre os dados efetivos das taxas de crescimento do PIB e as projeções do FMI e as expectativas de mercado. Nestes 20 anos de comparação (2000-2019), as projeções da Focus apresentaram um desvio menor em relação aos dados efetivos em nove oportunidades. Já o “erro absoluto” do FMI foi menor do que da Focus em cinco vezes. Em seis anos, os desvios foram os mesmos. O erro quadrático médio (EQM)[4] entre os dados efetivos e as projeções da Focus é menor do que na comparação com as projeções do FMI (0,1% e 0,4%, respectivamente).

Por fim, é bom frisar que as projeções[5] do FMI são anteriores ao agravamento da crise política por que o Brasil está passando, com potenciais de afetarem de forma negativa mais ainda as projeções para a economia brasileira neste ano. Na atualização da Focus, em um mês, com o agravamento da crise política, a queda do PIB passou de -3% para -5%. As incertezas atualmente são muito altas, numa combinação de múltiplas crises (saúde, econômica e política). Tomara que este período passe logo, com o menor impacto possível, tanto em questões de saúde quanto na parte econômica, e que todos possamos voltar à “maior normalidade” possível em breve!!

[1] No final de março (27/03) foi a primeira vez que a Focus indicou um crescimento negativo do PIB (-0,5%), que passou rapidamente para -1,2% (03/04), -2,0% (09/04), 3,0% (17/04), reduzindo ainda mais para -3,3% (24/04), -3,8% (30/04), -4,1% (08/05) e -5,1% (15/05).

[2] No ano de 2009, o FMI projetava uma queda do PIB de 1,3%, e para a Focus, o crescimento do PIB seria -0,3%. No final, o recuo efetivo foi de 0,1%.

[3] Em 2015, enquanto se previa uma queda de 1,0%, o resultado final foi de -3,5%. Já no ano seguinte, as projeções eram de -3,8%, e o dado efetivo foi -3,5%.

[4] EQM = quadrado do diferencial médio entre os dados efetivos e projetados.

[5] As expectativas de mercado, da Focus, têm uma frequência semanal. Já o FMI só revisará sua projeção para o Brasil em julho, possivelmente, no update das projeções.

Marcel Balassiano

Marcel Balassiano

É mestre em Economia Empresarial e Finanças (EPGE/FGV), mestre em Administração (EBAPE/FGV) e bacharel em Economia (EPGE/FGV).