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A Máfia de Brasília: quando o óbvio nos deixou de queixo caído

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Quando transcorria a malfadada discussão na Câmara dos Deputados acerca das chamadas “dez medidas contra a corrupção”, um momento chamou a atenção: o deputado do Democratas-RS, Onyx Lorenzoni, discursou em defesa do seu relatório, comparando a situação brasileira, com a Operação Lava Jato, à Operação Mãos Limpas italiana. Um de seus colegas no Plenário se manifestou: “Pare com isso! Aqui não tem máfia italiana!” O brado de indignação, à luz do que hoje se vai escancarando aos olhos da pátria, soa bastante despropositado.

Algumas informações constantes das “delações apocalípticas” dos executivos da empreiteira Odebrecht, dando conta de suas relações espúrias com o poder público, através de caciques de todos os principais partidos, aproveitando-se do sistema de conchavos e eleição de “parceiros preferidos” na máquina pública brasileira, deixam claro que a política em Brasília, senão completamente, ao menos em abominável e gigantesca escala, tem todas as características de uma verdadeira MÁFIA. Quando amigos dizem que vige em nosso país uma cleptocracia, os dados a que enfim temos acesso não permitem que se tome tal afirmativa por exagero.

O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), que protagonizou um ensaio de crise institucional direta com o STF ao se recusar a atender, junto ao colegiado daquela casa Legislativa, a uma liminar do ministro Marco Aurélio Mello que o afastava monocraticamente do poder – posição suspensa depois pelos seus colegas de Corte -, está longe de ser o único a aparecer nos detalhes escabrosos das novas informações da Lava Jato. Só na delação do ex-diretor Cláudio Melo Filho, ele aparece junto a Romero Jucá e Eunício Oliveira como componente do “núcleo dominante” do PMDB no Senado em esquema de repasse de propina em troca de apoio a projetos de lei de interesse da empresa – em confusão flagrante do público e do privado, típica do nosso já tão martelado patrimonialismo. Na Câmara, Cláudio Melo apontou diretamente para o presidente da República, Michel Temer, e para seus ministros Eliseu Padilha e Moreira Franco. O governo Temer, depois do impeachment de Dilma Rousseff, tem motivos reais para se preocupar.

Mas falar em “governo Temer” é limitar muito o impacto do que estamos vendo. Sabemos que a lista de políticos implicados beira aos 200; só na delação de Cláudio Melo, os tucanos Aécio Neves, Adolfo Viana, Arthur Virgílio, Duarte Nogueira e Jutahy Magalhães; os membros da cúpula petista Delcídio do Amaral (já fora do partido), Anderson Dornelles (ex-assessor de Dilma), Jacques Wagner, Marco Maia e Rui Costa; os peemedebistas Colbert Martins, Eduardo Cunha, Geddel Vieira Lima (que acabou de sair do governo por protagonizar a crise com o também ex-ministro Marcelo Calero), Lúcio Vieira Lima e Paulo Skaf, além dos membros do governo acima citados; o atual vice-governador pepista do Rio, Francisco Dornelles, e até os membros do DEM José Carlos Aleluia e José Agripino, são acusados de receber importantes doações não declaradas. Embora não propriamente aí, os escândalos e as listas de apelidos tragicômicos já envolvem o prefeito do Rio, Eduardo Paes, o ex-governador Sérgio Cabral, o governador Pezão, a família Garotinho, petistas como Lindbergh Farias e até o governador tucano de São Paulo, Geraldo Alckmin.

O bom senso e a temperança nos devem lembrar que as delações ainda não estão homologadas, que os fatos precisam ser apurados e confirmados, que não podemos condenar e crucificar ninguém com base em indícios e declarações. OK. Porém, contudo, todavia, quem em nossa pátria desiludida se atreve a apostar que as afirmações não são verdadeiras? Quem se atreve a negar? Por mais perplexos, por mais de queixo caído que fiquemos com tamanho retrato de imoralidade, no fundo todos sabemos que o que nos apavora é nada mais que o óbvio. Todos sempre soubemos que, nos recônditos da Nova República, essa mitologia construída em 1988, imperava a falta de caráter e se pavoneava a ausência de vergonha.

Diante de um cenário tão devastador, é possível encontrar reações em direções distintas, mas, a nosso ver, igualmente equivocadas. De um lado, estão aqueles que clamam por intervenções militares em caps lock nas redes sociais. Confessamos com certa introspecção que não há como dizer, a essa altura do campeonato, que não podemos ao menos entender, por mera empatia, a emoção inocente desse grupo, pasmo e revoltado diante de tanto esterco moral, quase envergonhando-se de ser honesto – para parafrasear Rui Barbosa. Contudo, além de duvidar de uma ação militar – afinal, os companheiros do general Villas Bôas não tendem a estar nem um pouco interessados em abdicar de suas posições para tomar o poder, e não vejo por que pensar que eles seriam um setor imaculado e imune às distorções a que temos assistido -, devemos reconhecer os riscos disso, tais como os que foram assumidos em 1964. Apostar em militares seria dar um tiro no escuro com alto potencial autoritário, e não podemos cometer os mesmos erros; com ou sem eles, é preciso formar uma base intelectual e cultural capaz de construir um ideário de pátria, ou ficaremos destinados a pensar em revoltas e golpes militares a cada 30 anos – o que significaria que nosso país estará condenado, e é justamente o que me recusarei a aceitar.

De outro lado, há aqueles que, animados pela PEC do teto dos gastos e pelo contraste (real, a nosso ver) entre Temer e o PT, movem críticas frígidas, em tom quase de superioridade, não apenas aos “intervencionistas” que advogam o golpe – em verdade bem menos numerosos do que parecem -, mas a todos que se manifestaram, por exemplo, em 4 de dezembro, contra os abusos que temos visto e em favor da Lava Jato. Chamam a todos de “direita brucutu”; esquecem-se de que o que a Lava Jato está fazendo não é burocrático, e que ela não pode desafiar os maiores poderes do país sem a legitimação do amplo apoio popular. Enchem a boca para homenagear o “Estado Democrático de Direito da República de 88” e, sob o pretexto de dissociar a razão da paixão e desejar que as reformas de austeridade do governo sejam aprovadas (desejo, aliás, correto e judicioso), preferem fingir que Temer não foi vice da Dilma e que ele é uma sumidade republicana – só para não correrem o risco de arranhá-lo em sua articulação política. Quanto a estes últimos, neles vejo certo utilitarismo com que não me posso afinizar; parecem anestesiados por medidas econômicas a ponto de não nos enxergarem em nosso real estado de degradação moral, cultural e política.

Há ainda o grupo dos que se riem de nós porque derrubamos o PT do poder, num dos melhores sinais dentro de toda a nebulosidade contemporânea: o de que a pressão popular já age, com reforço das redes sociais, de maneira mais organizada e efetiva. Dizem eles: “acharam que acabariam com a corrupção, mas são seletivos; tiraram a Dilma e ficou isso aí”. Estes mal merecem comentário; basta ressaltar que a proposta jamais foi finalista, como se supuséssemos que nosso gesto salvaria o Brasil de encarar, no pós-Dilma, os monstros que ele próprio gerou, apenas reforçados pelo lulopetismo. Mais ainda: os seletivos são eles, para quem apenas Dilma e os petistas deveriam ser poupados da cobrança imperiosa da justiça. Nunca protegemos ninguém.

Posto tudo isso, qual seria o farol a nos guiar nesse momento em que até os mais sensatos acabam tentados a flertar com salvadores da pátria – para uns, o Judiciário, que eles talvez enxerguem erroneamente como um exército de Sérgios Moros com salários pornográficos; para outros, os militares, que já cometeram tantos erros no passado; para outros, algum líder messiânico que possa vir a ser eleito em 2018 – e, no fundo, ninguém antevê quem parará de pé? Acredito que os analistas políticos, quaisquer que sejam, estarão mentindo caso se digam portadores da resposta. Em meio a tantas dúvidas e podridão, porém, com toda a modéstia do mundo, prefiro acreditar nos avanços da pressão popular organizada e no que a Lava Jato ainda pode fazer.

A PEC 55 é muito importante, cortar gastos – inclusive na própria carne – seria muito pedagógico e fundamental, a Reforma da Previdência é inadiável (embora o caminho mais justo e razoável fosse o movimento para a previdência privada e para retirar os seus recursos de qualquer contato com manipulações do governo). Mas a Lava Jato é a grande novidade política do país. A casta e a máfia precisam ser purgadas, sim, doa a quem doer; não há nenhum messianismo ou salvacionismo nisso. É uma questão de bom senso e de resgatar a confiança do nosso povo nas nossas instituições. Aqui, do ponto de vista teórico, para o raciocínio, importa menos se elas funcionam mesmo ou não; importa que o povo confie nelas. Se o povo não acreditar em suas próprias instituições, não haverá país. E se os desmandos e canalhices não forem contemplados pela devida punição, é isso que acontecerá. Deus queira que não tenhamos que sofrer até as últimas consequências.

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).