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Lições de jornalismo dócil.  Ou: a pergunta que não foi feita a Cunha

 

Pindorama é um país sui generis.

As palavras por aqui não valem praticamente nada, principalmente quando saídas da boca de algum político.   Os oradores tupiniquins, sempre tão prolixos em suas falas, jamais são questionados a respeito de suas contradições, ainda que elas sejam mais do que óbvias.  Nossa imprensa, além de majoritariamente comprometida com o establishment, é pouco preparada para questionamentos mais duros e/ou constrangedores.

Nos estados Unidos e na Europa, é normal assistirmos a entrevistas de políticos e outras autoridades nas quais o entrevistado chega a ser emparedado de tal maneira, a ponto de nos sentirmos constrangidos.  Quem quer que já tenha assistido a um programa do tipo “60 Minutes” pôde constatar o que estou dizendo.  Mesmo em debates eleitorais, os jornalistas partem para cima do candidato sem dó nem piedade, não raro apontando suas contradições e/ou mentiras.

Aqui, ao contrário, os jornalistas parecem participar de um teatro com enredo previamente ensaiado, dispostos a perguntar somente aquilo que os entrevistados desejam responder.  Se estes não respondem, mentem ou simplesmente se contradizem, fica tudo por isso mesmo.  Raros são os episódios em que vemos um entrevistador fazer perguntas de forma mais incisiva ou chamar às falas o entrevistado.

No último fim de semana, a presidente Dilma concedeu uma entrevista em Estocolmo e, perguntada se as denúncias contra o presidente da Câmara causam constrangimento ao Brasil, respondeu que considera lamentável que isso esteja acontecendo com um brasileiro.  Dilma demonstrou, mais uma vez, com esta resposta, que é uma personagem politicamente desastrada e, segundo opiniões abalizadas, cognitivamente débil, o que explica boa parte de seus problemas políticos.  Não havia qualquer motivação para uma resposta tão inábil.

Qualquer político com um mínimo de bom senso teria respondido que aquele era um assunto do poder judiciário, cujo inteiro teor ela desconhece e que, portanto, não comentaria.  Mas Dilma não seria Dilma se tivesse agido dessa maneira, e acabou criando mais uma saia justa para seu governo, já que, segundo consta, o deputado Eduardo Cunha teria ficado furioso com a resposta – embora, na minha humilde opinião, a intenção da presidente tenha não tenha sido cutucar a fera.  O problema é que, ao que parece, há uma enorme distância entre o que Dilma pensa e diz.

Bem, quaisquer que tenham sido as motivações da presidente, o fato é que Cunha convocou uma entrevista coletiva cujo principal objetivo, como restou claro, era dar o troco.  Disse ele, quando perguntado o que tinha a dizer sobre a declaração da presidente, na véspera: “eu lamento que o maior escândalo de corrupção do mundo tenha acontecido com um governo brasileiro”.  Mais não disse e também não foi perguntado.

O presidente da Câmara estava cercado de dezenas de jornalistas e a entrevista continuou por, pelo menos, mais uns 10 minutos, sem que ninguém tivesse perguntado o óbvio naquele momento: “Presidente, se o senhor tem tanta convicção assim acerca dos escândalos de corrupção que assolam o governo da presidente Dilma, por que então já engavetou dezenas de pedidos de impeachment? Por acaso não acha que esse seria um motivo suficiente para levar o processo à frente?”

Mas nenhum repórter presente sequer perguntou nada semelhante.  Simplesmente, desconversaram, seja por incompetência ou por mansidão atávica.  Até porque Eduardo Cunha, apesar de ter dito uma verdade cristalina, é o único brasileiro que não poderia dizê-la sem cair em contradição, pois, apesar de ter a faca e o queijo nas mãos, até hoje se recusou a fazer o que a maioria da população brasileira deseja.

Esperemos agora que, apesar dos pesares, Eduardo Cunha confirme com ações concretas que acredita realmente naquilo que disse.  Caso contrário, ficará parecendo briga de criança birrenta: “Você é feio! Não, feio é você!”

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.