O Jacobino “democrático”

O professor Marco Antonio Villa, no Jornal da manhã da Jovem Pan, ao debater com Rodrigo Constantino, louvou a Revolução Francesa, a mesma que trouxe caos político e moral à França e seus lacaios ― inclusive o Brasil ―, os quais até hoje dele não conseguiram se recuperar; sem falar das incontáveis montanhas de corpos e cabeças rolantes da guilhotina ― um sistema de matança rápida criado pelos revolucionários. A Revolução que se divertia com as decapitações de freiras, padres, reis, rainhas e que afogava dissidentes em rios, é a mesma para quem o historiador das datas decoradas diz rezar em seu comentário na rádio. A revolução, segundo estimativas históricas, matou mais de 40 mil pessoas entre 1792 e 1799; através do site “prospection.net” você pode até consultar os nomes e os porquês de 18 mil guilhotinados registados ― quem sabe não acha algum parente distante por lá.

De qualquer forma, convido os meus leitores a lerem o Dicionário da Revolução Francesa de François Furet e Mona Ozouf; trata-se de uma obra não-panfletária preocupada com o pragmatismo dos fatos incômodos, geralmente negados ou ignorados. Aqui não cabe descrever todos os erros e fracassos históricos que alicerçavam o iluminismo francês, alimento e causa da revolução na França. Por isso, usemos de Edmund Burke para resumi-la, segundo sua obra monumental ― Reflexões sobre a revolução na França. Diz ali que a França padecia de uma doença da consciência, não percebia que a história não pode ser fragmentada e que o progresso sem as hastes da tradição é puramente utopia, já que o bom futuro nada mais é do que a estrutura robusta do passado somada às escolhas virtuosas do agora. Os franceses não percebiam que as abstrações morais, políticas e filosóficas defendidas pelos iluministas não podiam ganhar primazia frente à realidade elementar dos fatos, às tradições e às moralidades que sustentam as virtudes de nosso tempo, ao custo de, com esse conjunto ignorado, a realidade tão logo ser também sacrificada. Até hoje não existiu sequer um caso na história em que o sacrifício da realidade também não tenha descambado em sacrifício de vidas humanas.

Mas voltando a Burke, o principal acerto da análise do político irlandês foi a percepção da mentalidade que rodeava os revolucionários franceses de outrora. A mentalidade do “sacrifício pela ideologia”: quando todos se tornam “meios”, e não “fins” em si mesmos, e dessa forma, em nome da causa pré-dita por alguns intelectuais encastelados, tudo fica aceitável, vidas humanas se tornam facilmente relativizáveis em prol da revolução. São os eternos ovos quebrados que nunca findam em omeletes reais. A mentalidade ideológica comum ― descoberta por Jung ― torna-se real em todos aqueles que guardam alguma admiração por grupos e sociedades que levantaram suas frágeis estacas da “glória política” por sobre incontáveis cadáveres de inocentes; indivíduos que arregimentaram seus bambos esteios morais sobre os sacrificados pela causa.

Ostentando a velha arrogância que marcou seus comentários na Jovem Pan em sua primeira passagem, Marco Antonio Villa ainda não aprendeu a ser cordial no debate e, como uma pessoa em ataque de histeria, tenta ganhar a peleja num palavrório constante que impede o seu adversário de o contrariar e finalizar qualquer pensamento mais ou menos articulado. Exibe uma expressão debochada, seguido de jorros de datas, nomes, referências que supostamente deveria garantir com todas as certezas a verdade de suas falas ― como se para julgar fatos fosse necessário andar com um calendário histórico no bolso e uma Wikipedia na mente.

Escolhendo apenas autores ou citações que lhe convém ao raciocínio monocrático, manda todos estudarem como se fosse o único que soubesse de tudo “da forma que se deve saber”: portador indiscutível e inerrante do bastão da verdade. Sem conhecer, ao que parece, Edmund Burke, o principal crítico da revolução da França; ignorando, ou tomando como inaptos frente a sua maestria intelectual, homens como Alexis de Tocqueville, Régine Pernoud, Linn Hunt, Christopher Dawson, Gertrude Himmelfarb, Michel Vovelle, segue sua fala como se suas toneladas de referências decoradas garantissem a legitimidade da análise. Disse Marco Antonio Villa que todos os anos, no dia 14 de julho, ele reza por aqueles que fizeram a Revolução Francesa. Eu rezaria por aqueles que por ela injustamente foram mortos; nenhum indivíduo deve ser ovo para omeletes políticos.

Parece-me que para identificar os erros latentes da Revolução Francesa não é necessário sequer um rodapé – basta a breve análise da história, uma moral regulada e a não-seletividade hipócrita entre tiranias. Um democrata rechaça, per se, qualquer ato de ditadura, tirania e devassidão política; um homem sensato sabe que não adianta tentar tirar as partes podres de uma maçã a fim de purificá-la. Ou estamos totalmente contra o despotismo, ou somos aliados dele. Uma mente sã não aplaude ― e nem reza ― por um sistema político que deixou montes de corpos como herança nojenta dos supostos avanços de suas pautas. Aplaudir a Revolução Francesa possui o mesmo absurdo ontológico que aplaudir o nazismo; aplaudir a revolução na França pelos supostos avanços sociais que ela trouxe, apesar dos milhares de mortos que deixou, é como louvar os avanços aéreos e medicinais dos nazistas, apesar do que fizeram com suas câmaras de gás. Por ora, não importam os números e sequer a comparação, mas o mal em si mesmo, a essência da vilania ditatorial. Genocídio algum é justificável, independente do que venha após isso.

O problema, no entanto, não incide no pensamento do professorpois apesar de não concordar com a análise da Revolução Francesa de Antonio Villa, ele obviamente tem todo o direito de defendê-la e amá-la; a liberdade é uma estrada para todos, até para aqueles com que não concordamos. O problema está em Villa parecer não saber disso.

Já disse isso em outros tempos, por ocasião da primeira saída do comentarista da Jovem Pan: a postura do historiador é a de um homem histérico e sem nenhum autocontrole; toda vez em que é contrariado, se apresenta montado em sua cavalaria de arrogância e prepotência, o debate com ele então se torna impossível. Monopolizando o microfone vermelho da Pan, ele incorpora o famoso Robespierre que, aliás, morreu pela mesma morte que impiedosamente condenou milhares de “reacionários” ― a forma como o Villa denominou a posição de Constantino. Villa tem todo direito de pensar e portar as ideias que bem entender, nunca poderá ser rechaçado por ser progressista e por amar um modelo de política diferente daqueles que seus adversários adotam. No entanto, a sua postura enquanto comentarista é totalmente descontrolada e indesejável num terreno sadio de democracia. Quem não se lembra dele chamando os manifestantes que saíram às ruas pelo pacote anticrime do ministro Sérgio Moro de “neonazistas”. Qual foi o crime desses manifestantes? Não concordarem com o historiador e apoiarem o governo que ele não apoia. 

Por fim, se deixassem Villa sozinho, durante 3 dias, ele discutiria consigo mesmo sem que ele próprio conseguisse terminar seus argumentos; no fim seria bem capaz de se chamar de “jacobino” defendendo, ao mesmo tempo, a Revolução Francesa. Ao Villa realmente não falta conhecimento ― temos que dar o braço a torcer e reconhecer sua inteligência nada comum nos dias atuais; o que parece faltar mesmo é tão somente paz de espírito e respeito aos discordantes.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.