Milton Friedman e a coragem de pensar
Há exatos 50 anos, em 14 de outubro de 1976, Milton Friedman recebeu o Nobel de Economia. O comitê discutiu longamente antes de premiá-lo, porque alguns membros se incomodavam com as colunas em que ele defendia, para o grande público, menos Estado, moeda estável e liberdade de escolha.
Um artigo publicado hoje no Wall Street Journal relembra a qualidade que mais faz falta ao debate público: a coragem intelectual. Gary Becker, seu aluno e também Nobel, o definiu como “a pessoa mais intelectualmente corajosa que já conheci, disposto a dizer o que achava certo, danem-se as consequências.”
Guardo um exemplar de Two Lucky People autografado por Milton e Rose Friedman. Para mim, ele representa as ideias que marcaram minha visão sobre liberdade, responsabilidade e o papel do Estado.
Friedman enfrentava governos, grupos organizados e os próprios colegas quando achava que estavam errados. Fazia isso com clareza e bom humor, sempre mirando as ideias e preservando as pessoas. E sabia mudar de opinião: depois de uma longa conversa com Ronald Coase, reviu uma posição. Para ele, convicção que não responde a argumentos e evidências vira dogma.
Algumas frases dele parecem escritas para o Brasil de hoje. “A inflação é sempre e em toda parte um fenômeno monetário.” “Nada é tão permanente quanto um programa temporário do governo.” E a lição que ele popularizou: não existe almoço grátis. Quando o governo perdoa dívidas na véspera da eleição, quem paga é o contribuinte que cumpriu a lei.
Uma política pode nascer de uma intenção generosa e produzir consequências ruins. Um subsídio beneficia um setor e transfere o custo para milhões. Uma barreira comercial protege empresas e prejudica consumidores. A boa economia acompanha essas consequências, inclusive as que nunca aparecem no anúncio oficial.
No agro, aprendi a avaliar políticas pelo que entregam a quem produz, investe e consome. Vivi isso como ministro, na abertura de 1990. A concorrência nos obrigou a melhorar, e a liberdade para empreender produziu transformações que nenhum gabinete conseguiria planejar.
Defender a liberdade exige firmeza. Aprender exige humildade. O debate público precisa das duas.
*Antonio Cabrera é conselheiro do Instituto Liberal.



