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Henry Kissinger e a nova ordem mundial

Não há dúvidas de que a figura americana com maior riqueza em conhecimento diplomático e geopolítica mundial atualmente chama-se Henry Kissinger. É acerca da perspectiva traçada em sua obra Diplomacia (1994) sobre a nova ordem ou sistema internacional das potências no século XIX que vamos discorrer neste breve artigo, além de buscar entender como a pandemia do coronavírus oriunda da China impacta esse processo.

Nascido em 1928 na Alemanha e de origem judia, já em 1938, devido ao antissemitismo nazista que levava terror aos judeus, precisa e consegue emigrar com seus pais para solo americano, onde são acolhidos. Com cidadania americana obtida em 1943, Henry Kissinger faz seu doutorado na Universidade de Harvard em 1954, onde leciona posteriormente. Antes disso, serve na Segunda Guerra Mundial.

Foi Secretário de Estado dos Estados Unidos nos governos Richard Nixon (1973–1974) e Gerald Ford (1974–1977). De 1969 a 1975, foi Conselheiro Nacional de Segurança, também com Nixon e Ford. No entanto, desde Eisenhower foi conselheiro de relações exteriores de todos os presidentes dos Estados Unidos, até Ford. Em 1973, ganha o Prêmio Nobel da Paz por seu trabalho em prol do acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietnã. Um currículo e tanto – e uma história de vida não menos importante. Este não é o primeiro texto em que cito o currículo de Kissinger; e difícil tarefa é não fazê-lo, sobretudo quando se trata de um homem que vivenciou os bastidores da política americana durante a Guerra Fria, sendo diplomata na maior nação do mundo num período em que uma simples vitória em uma partida de xadrez tinha uma valia imensurável para os dois eixos do embate, EUA e a então URSS.

Em sua obra Diplomacia, Kissinger manifesta sua impressão de que a cada século o mundo é regido por alguma nação. Ele discorre: “Como por força de alguma lei natural, parece que em cada século surge um país com poder e vontade, ímpeto intelectual e força moral para moldar todo o sistema internacional aos seus próprios valores”. Kissinger cita a França do século XVII e a Inglaterra do século XVIII. “No século XIX”, prossegue, “a Áustria de Metternich reconstruiu o Concerto da Europa e a Alemanha de Bismarck o demoliu, tornando a diplomacia europeia o jogo a sangue-frio da política de poder”. Já no século XX, segundo Kissinger, os Estados Unidos foram protagonistas na influência das relações internacionais.

Kissinger ressalta a imposição americana com seus ideais no firmamento dos principais acordos internacionais – da Liga das Nações e do Pacto Briand-Kellog à Carta das Nações Unidas e à Ata Final de Helsinque. Para Kissinger, o colapso do comunismo da URSS confirmou tal imposição dos ideais americanos no campo diplomático. Estamos falando de um país (EUA) que, em 1945, nos findos da Segunda Guerra Mundial, era dono de 35% da economia no mundo.

A nova ordem mundial, ou novo sistema internacional do século XXI, para Kissinger – que traça a perspectiva num contexto pós-Guerra Fria -, terá seis potências: Estados Unidos, Europa, China, Japão, Rússia e, “provavelmente”, escreve, “Índia”. O diplomata também afirma que países de porte médio e até pequeno terão algum protagonismo.

De acordo com o ranking da Austin Rating, que faz o comparativo das maiores economias do mundo desde 1994, os seis primeiros colocados no levantamento de 2021 são, pela ordem de participação do PIB, Estados Unidos (22,8%), China (17,2%), Japão (5,3,), Alemanha (4,5%), França (3,0%) e Reino Unido (3,0%). A Índia, apontada como estando entre as seis por Kissinger, aparece na sétima colocação com 2,9%. A Rússia figura na décima primeira posição, com 1,6% do PIB. Dos países emergentes, o Brasil ocupa o décimo quarto lugar com 1,5%. Em 2019, o Brasil ficou na 9ª posição, no comparativo que considera o PIB dos países em valores correntes, em dólares.

Considerando-se a variação das economias, Kissinger é assertivo em sua previsão, com exceção da Rússia, ao menos nesse ranking atual. O Brasil, por sua vez, a partir do desgoverno do PT de Dilma Rousseff, pendeu ladeira abaixo com a grande recessão econômica. Com o impeachment, o país parou. Agora, com uma assustadora pandemia que ninguém sabe quando termina, não sabemos onde iremos parar.

O fator a ser observado a médio ou até a curto prazo é o crescimento da China, país de origem do coronavírus, mas que, ao menos pelo que se sabe, eliminou a pandemia dentro de seu território. Aqui não entro em teoria da conspiração. É apenas curiosidade. Aliás, definir a China atualmente dá nó em qualquer cientista político. Se a economia cresce com uso do capitalismo de mercado, a China também é um país fechado, controlador, sem qualquer liberdade de imprensa e individual. Seria a China uma URSS do século XXI disposta a pelear uma “Guerra Fria”?

Kissinger, que segue vivíssimo com 98 anos, acredita em algo pior: já alertou Biden, inclusive, para o risco de uma catástrofe militar na relação entre EUA-China. Durante a sessão de abertura do Bloomberg New Economy Forum, disparou: “Os Estados Unidos e a China caminham cada vez mais para o conflito e conduzem sua diplomacia de forma confrontadora. O perigo é que ocorra alguma crise que vá além da retórica para um conflito militar real.”

Segundo Kissinger, a pandemia do coronavírus vai alterar para sempre a Ordem Mundial. Aguardemos os próximos capítulos.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).