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“In God I Trust”

Luiz José de Britto Alves*

god-trust-white-greenA confiança é a liga da sociedade humana, sem a qual ela se desfaria, reduzindo a apenas duas as perspectivas de seus membros, a de serem predadores ou presas. Sem ela, uma eterna pré-história seria a hipótese mais otimista para o destino da nossa espécie. Nela, fundou-se a possibilidade da nossa existência e continuidade.

Estabelecida a liga, frágil, mas única, começou a nossa saga. Do acerto inicial, da primeira palavra honrada, do reconhecimento de quem recebeu aquilo que lhe havia sido prometido, nos fizemos viáveis.

Desde então, os tempos de paz e guerra se sucederam conforme a maior ou menor confiança entre os homens.  Os espaços de civilização e barbárie se constituíram pela robustez ou fragilidade dessa liga. Nos tempos e espaços de confiança, a humanidade moldou a face que nos fez acreditar que fôramos feitos à imagem e semelhança de Deus. Nos tempos e espaços de engodo, a destruição do que nos é caro, a marca do pecado original, a quebra do acordo com Aquele que nos prometeu o paraíso.

Sem essa compreensão, sem o entendimento de que não há futuro comum possível na ausência de laços de confiança entre os membros de uma sociedade, não podemos discutir o Brasil de hoje. O que torna compreensível e une em um mesmo diagnóstico, os quase 60 mil assassinatos ao ano no país, as 40 mil mortes no trânsito, as vidas perdidas pelo descaso e incompetência na rede de saúde brasileira, a falência do nosso sistema educacional, o baixo desempenho do Ibovespa, a inflação que corrói o poder de compra das famílias, é a de que gradual, mas consistentemente, viemos perdendo a confiança no nosso governo, nos nossos políticos, nas nossas instituições, nas nossas empresas, nos nossos profissionais, na nossa moeda, no nosso vizinho. Sem esse diagnóstico não nos é possível uma solução satisfatória para a encruzilhada em que nos encontramos.

Um presidente americano quase perdeu o seu mandato por ter mentido sobre um episódio para muitos banal. O âncora e editor de um dos telejornais da NBC, Brian Willians, teve sua participação no telejornal suspensa por ter exagerado sobre sua participação na cobertura da guerra do Iraque. Em um comunicado da emissora, o seu presidente executivo justificou a decisão afirmando que as mentiras do apresentador são “indesculpáveis e sua suspensão é grave e apropriada” porque com elas “Brian afetou a confiança de milhões de lares americanos na NBC News”.

O que nos faz tão complacentes com mentiras muito maiores? Aceitar que somos um povo cordial quando mais de cem mil pessoas morrem no país de morte violenta todos os anos; que os médicos cubanos e alguns tantos dos médicos formados em nossas faculdades de medicina são médicos e não apenas portadores de diplomas de médicos; que temos um sistema educacional quando os que se formam por ele, em grande parte, são analfabetos funcionais; que temos um governo democrático quando o vemos sistematicamente alinhado com ditaduras e protoditaduras; que há independência entre os poderes quando assistimos um Legislativo sujeito a formação de maiorias compradas e um Judiciário que pune, quando pune, os operadores de um delito e deixa impunes, quando não afaga, os seus mandantes e beneficiários; que temos uma moeda hoje quando não sabemos o valor que ela terá amanhã; que nos ofereçam utopias quando os que o fazem são artífices da distopia?

Não há solução para os problemas do Brasil, nem futuro para nós e nossos filhos, sem que enfrentemos a crise de confiança pela qual passamos. A urgente e decisiva escolha que temos que fazer é entre a civilização e a barbárie.

*Economista e Analista do Banco Central do Brasil.

Instituto Liberal

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O Instituto Liberal é uma instituição sem fins lucrativos voltada para a pesquisa, produção e divulgação de idéias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal.

Um comentário em ““In God I Trust”

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    24/02/2015 em 8:52 pm
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    Parabéns pelo excelente texto!

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