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Geração de energia e impactos ambientais na Alemanha

A Alemanha foi castigada por fortes chuvas nos últimos dias, que já mataram 106 pessoas. Não sou especialista em clima ou em meio ambiente, mas presumo que isso esteja ocorrendo devido às mudanças climáticas. Se o fenômeno estivesse acontecendo no Brasil, eu colocaria na conta do mau planejamento do nosso Estado, mas não é o caso. Eu já morei naquele país e se há uma qualidade indiscutível nos alemães é sua capacidade de planejamento a longo prazo. Assim, coloco na conta das mudanças climáticas mesmo.

Conforme já escrevi aqui outras vezes, não há como nos livrarmos dos combustíveis fósseis no curto (e possivelmente nem no médio) prazo sem a energia nuclear, mas a Alemanha é o país mais anti-nuclear do mundo. Os movimentos antinucleares começaram por lá na década de 1970, quando iniciativas locais organizaram protestos contra os planos de construção de novas plantas. Em 1975, 28.000 manifestantes ocuparam o canteiro de obras de uma usina nuclear em Wyhl (no estado de Baden-Württemberg) e conseguiram impedir sua construção. Após o acidente na usina nuclear americana Three Mile Island (nenhum morto) em 1979, cerca de 200.000 pessoas foram às ruas em Hannover e Bonn, protestando contra o uso da energia nuclear. Vários reatores foram fechados e, depois do acidente de Fukushima (1 morto), Angela Merkel anunciou que todos seriam desativados até 2022.

Porém, essa história possui algumas ironias. A Alemanha trocou o poder do átomo pelo carvão mineral – literalmente falando, a fonte de energia mais suja do planeta. Isso tem tanto sentido quanto uma pessoa obesa trocar arroz por sorvetes na tentativa de emagrecer. Outra ironia: a Alemanha importa energia nuclear da França e, por mais inacreditável que possa parecer, os franceses pagam na conta de luz aproximadamente 50% a menos que seus pares do outro lado do Reno. O motivo por que isso ocorre é simples: a construção de centrais nucleares pode ser cara, mas sua energia é uma das mais baratas do mundo (na Europa só perde para a eólica) e 75% da matriz energética francesa é atômica.

O motivo que levou os alemães a se livrarem dos seus reatores é o medo de acidentes, porém esse medo não se sustenta – ainda mais se considerarmos que a troca foi feita justamente pelo carvão. De acordo com Sunniva Rose, PhD (Universidade de Oslo), 161 pessoas morrem por cada terawatt gerado a partir do mineral, enquanto a mesma quantidade proveniente do núcleo mata 0,04 pessoas. Para critério de comparação, o maior acidente nuclear da história, Chernobyl, causado por erro humano somado à péssima tecnologia da Rússia Comunista, segundo as Nações Unidas, matou pouco mais de 200 pessoas. Vale ressaltar que, de todas as maneiras de se produzir energia que a humanidade conhece, a menos letal é a nuclear – a hidroelétrica, bastante usada por aqui, mata 1,4 pessoas por cada terawatt.

Outro grande medo das pessoas é o que fazer com os resíduos radioativos. Mais uma vez, não dá para igualar o problema causado pelo lixo nuclear com os combustíveis fósseis. Quando derivados do petróleo e carvão mineral são queimados, seus respectivos resíduos vão direto para os nossos pulmões – e essa é a grande razão pela qual as três maneiras de produzir as energias que mais matam são as do carvão mineral, do petróleo e do gás natural, respectivamente (161, 36 e 4 por terawatt). Já os resíduos de urânio são lacrados com concreto e enterrados e, uma vez feito isso, não incomodam mais. Além disso, a quantidade produzida de dejetos atômicos é muito baixa em relação à sua capacidade de geração. Um “cubo mágico” de urânio possui toda a energia que você vai consumir em sua vida e todo o lixo nuclear produzido pelos EUA até hoje enche somente um campo de futebol.

Há uma cena no filme “Invictus” em que Nelson Mandela, interpretado brilhantemente por Morgan Freeman, convence membros de seu partido a não mudar o nome da equipe de Rugby do país de “Springboks” para “Pretorias”, que queriam fazê-lo apenas para provocar os brancos. No meio do caminho ao local onde tal decisão estava sendo deliberada, Mandela/Freeman foi alertado por sua secretária de que o povo queria isso e, caso ele fosse contra, colocaria em risco seu futuro como líder do país, bem como seu prestígio político. Sua resposta foi: “o dia em que tiver medo de fazê-lo (mostrar ao povo que ele está equivocado) é o dia em que não serei mais apto a ser líder”.

Assim, recomendo que Angela Merkel assista à película de Clint Eastwood. Já passou da hora de os alemães (e de toda a humanidade) perderem o medo da energia nuclear e aceitarem que não há como combater as mudanças climáticas sem o poder do átomo. Caso isso não ocorra, prevejo que mais conterrâneos de Schumacher irão sucumbir aos efeitos da queima de combustível fóssil, o que é uma tragédia, especialmente para mim, que sou fã de F1.

*Artigo publicado originalmente por Conrado Abreu na página Liberalismo Brazuca no Facebook.

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