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A face ditatorial brasileira

proibir

Sei que o exemplo que usarei é de apenas um caso e de um indivíduo, mas exemplifica bem até demais a atitude de muitos brasileiros. Estamos acostumados a pedir tudo ao papai Estado e ter migalhas de volta, pelas quais nos engalfinhamos, arranhamos, lutamos… Bem, não só isso, quantas vezes você, caro leitor, se deparou com algum(a) conhecido(a) que ao ser contrariado ou se sentir prejudicado por algum produto ou serviço, disse: “Isso deveria ser proibido”?

Vivemos no país do instinto proibitivo, mas só para o outro. Não buscamos coibir nossas ações, nem nos preocupar com as consequências de nossos atos e nossas responsabilidades perante as mesmas, pois temos o papai Estado para assumir tudo por nós. Em troca, abrimos mão dessa tal liberdade. Para que serve mesmo, se tudo queremos proibir?

Este texto surge pela minha “revolta” com o indivíduo que ao se sentir prejudicado pelo aplicativo “Secret”, ao invés de buscar reparação (caso sinta-se nesse direito), ou a retirada do conteúdo que identifica como prejudicial a si, resolveu processar para que o aplicativo seja proibido. Ora, por que todos os usuários devem pagar pelos erros de pouquíssimos? Porque quando nos sentimos prejudicados, queremos vingança imediata, mas mais que isso, queremos destruir o que achamos que nos prejudicou. O que será melhor que proibir que exista?

Esquecemos de que o conteúdo não foi produzido pelo aplicativo, mas por indivíduos, que podem usar outras plataformas até que se esgotem as opções. Então, o que o usuário fará? Tentará a proibição da existência do Twitter? Do Facebook?

Esse instinto, tão claro na maioria dos brasileiros, chega ao ponto perigoso de queremos proibir algo só porque não nos agrada. O cheiro do cigarro não agrada? Essa porcaria deveria ser proibida! O bêbado está incomodando? Pois deveria ser proibida a bebida. O seu vizinho soltou fogos às 7 da manhã de um domingo? Malditos fogos, deveriam ser proibidos! Meia dúzia de usuários usaram um aplicativo para lhe prejudicar? Maldito aplicativo, que seja proibido.

E aí surge outro ponto muito comum à maioria dos brasileiros: culpar os meios utilizados, jamais quem os utilizou. Claro, que isso vai só até onde interessa. Usaram uma arma de fogo para matar? Proibamos as armas! Usaram uma faca? Então, precisamos delas para cortar carne, legumes, passar manteiga.. Já sei, vamos regulamentar ao máximo para que facas sejam menos perigosas. Depois o preço sobe, o produto piora e o mesmo indivíduo que pediu pelas regulamentações reclama e coloca a culpa nas empresas, aquelas exploradoras capitalistas malvadas.

E como ficam os indivíduos? Ninguém é responsável pelos próprios atos? Claro que isso não interessa. Veja, se eu concordar que o outro é responsável pelo assassinato cometido, ou pelo assalto, ou por me prejudicar em um aplicativo, etc, então, terei de assumir as responsabilidades pelos meus atos. Óbvio que isso não interessa, pois não poderei mais arrumar culpados imaginários para meus erros. Melhor proibir as armas, pois se amanhã eu utilizar uma, a culpa recairá sobre ela… mas espere, se eu usar para me defender, a culpa cai sobre mim, pois ajudei a “coitadizar” tanto tudo, que isso refletiu também em desculpas para coitadização dos criminosos. E agora?

Ah, ao menos, se amanhã eu usar um aplicativo para prejudicar alguém, a culpa cairá sobre a empresa que o hospeda e não sobre eu, que gerei o conteúdo. Mas, e se o prejudicado for alguém famoso, ou uma dessas “minorias oprimidas”, que também ajudei a legitimar, com minhas posições vitimistas e autoritárias? Xiii! Ao menos poderia usar a faca, se ela cortasse algo, pois agora malconsigo usar para passar manteiga. Ao menos dormirei tranquilo, pois não haverá fogos no meu vizinho, assim como não poderei utilizar caso queira, ou então, ele pode se sentir prejudicado caso eu coloque música alta, use um apito, ou uma corneta, para comemorar o gol do time que torço, enfim, neste caso, por que ele não poderia pedir a proibição daquilo que me agrada, se eu proibi o que o agrada, sem pensar nas consequências?

Não se pensa a longo prazo neste país, só nas consequências imediatas, sendo elas aparentemente positivas, tudo bem, tudo lindo! E eis o perigo. O aplicativo que consigo proibir hoje por me desagradar, legitima a proibição amanhã daquele que me agrada, por desagradar a outrem.

Por isso devemos ser tolerantes, culpar os verdadeiros responsáveis por seus atos, pensar antes de agir e sermos responsáveis pelas consequências dos nossos atos.

Pedir ao papai Estado que tome “providências” é legitimar quaisquer ações arbitrárias do mesmo Estado contra mim. Afinal, como bem disse [1]John Locke, não há poder algum que eu possa dar ao magistrado para suprimir aquilo que lhe desagrada, que o mesmo não possa usar para me agredir, por desagradá-lo.

Fonte:

A Cara de Vitória – http://www.acaradevitoria.com.br/2014/08/appsbrasileiro-pede-justica-que.html

Referência:

[1] Locke, John. Carta sobre a Tolerância, São Paulo, SP, Editora Hedra, 3ª edição, 2010

Roberto Barricelli

Roberto Barricelli

Assessor de Imprensa do Instituto Liberal e Diretor de Comunicação do Instituto Pela Justiça. Roberto Lacerda Barricelli é autor de blogs, jornalista, poeta e escritor. Paulistano, assumidamente Liberal, é voluntário na resistência às doutrinas coletivistas e autoritárias.