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Estatismo na contramão da destruição criativa e da mobilidade social

Triste, e ao mesmo tempo cômico, deparar-me com análises “bem-intencionadas” e emotivas de jovens – e velhos – professores das áreas de gestão e negócios, inacreditavelmente estatistas, coletivistas, declaradamente ou de forma enrustida, socialistas em sentimentos e/ou em visões de mundo e em estratégias “de negócios” pensadas para a geração de uma maior prosperidade geral.

Quem defende a expansão da abstração da mente coletiva do Estado, dos seus braços e de suas pernas sobre a ação individual, e a intervenção deste nos processos econômicos vai, naturalmente, de encontro àqueles que, como eu, acreditam na força da economia de mercado e no protagonismo das pessoas e das empresas frente ao mastodôntico Estado brasileiro.

Por nossos mares tupiniquins, raramente barcos capitalistas, de fato, navegaram por aqui. Nossa nação sempre foi o reino do estatismo, do patrimonialismo, do clientelismo, do capitalismo de compadrio, dos monopólios estatais e privados e da clamorosa intervenção estatal, a fim de beneficiar e proteger “empresários” (ineficientes) amigos dos monarcas.

Bem, pela recente discussão que travei com três desses jovens professores de negócios, sou obrigado a concluir que ou eles nunca passaram os olhos nas essenciais páginas schumpeterianas, ou não as entenderam.

O bem estar econômico de um país, para além dos pseudodesejos bondosos, é medido pela produtividade, e é o processo de destruição criativa aquele que promove o crescimento da produtividade. O nível de produtividade é determinante do padrão médio de vida de um determinado contexto social; mas, por nossas bandas, o centro das discussões “econômicas” e sociais tem sido bem outro…

Por aqui, paradoxalmente, parte de uma turma “colorida” de professores de gestão e negócios parece se unir ao coro suplicante por uma maior intervenção estatal e a correspondente inibição dos “milagrosos” processos de destruição criativa. Pela destruição criativa é que empreendedores criam novas soluções, em termos de novos produtos, serviços, experiências ou novas formas de produzir que florescem causando mudanças na dinâmica econômica. A destruição criativa é a força vital do crescimento econômico, o “vento perene” que cria e leva negócios, trazendo novas indústrias e inovações, varrendo a ordem existente até então. Evidente que a criação e a destruição são gêmeas siamesas.

Nessa nossa república do compadrio, as intervenções e as regulamentações governamentais freiam o processo de destruição criativa e atravancam as essenciais inovações, além de desencorajarem a consolidação de uma mentalidade e de ações empreendedoras no seio da sociedade.

Não compreendo. Como tais professores de negócios podem advogar por políticas estatistas que impedem e inibem a ação empreendedora e que decisivamente são incentivadas pela maior liberdade individual e econômica nos livres mercados?

Qualquer um sabe – e sente – que a única coisa constante é a mudança. Darwin foi pródigo ao nos ensinar sobre os importantes processos de mudança e de adaptação. Sobrevivem aqueles que se adaptam, que buscam o crescimento e que inovam sistematicamente.

No mundo dos negócios, a dinâmica natural é a de que algumas empresas cresçam e outras declinem. Mudanças nas hierarquias entre diferentes empresas são mais antigas do que andar para frente, como também, na moderna economia de mercado, sua vitalidade depende do profundo vínculo entre destruição criativa e inovação.

Para além dos reais sentimentos amargos de rancor e de inveja, a destruição criativa e a inovação são os processos que promovem a mobilidade social, possibilitando que os mais pobres possam ascender econômica e socialmente. Neste sentido, evidente que a lacuna entre ricos e pobres pode coexistir, mas o que importa mesmo é que nos mercados livres há um maior estímulo para que os indivíduos empreendam, inovem e cresçam por seus próprios interesses e méritos.

Em tempos de tecnologias disruptivas, a mobilidade social via empreendedorismo e inovação ocorre, especialmente, tanto nos setores das novas tecnologias da informação, como também no varejo e no setor de serviços. Verdadeiramente, a falta de mobilidade social é um fator prejudicial ao encaminhamento de menores níveis da propalada desigualdade social. Assim, parece-me claro que, em mercados mais livres, tende a existir um aumento das atividades de empreendedorismo, que acabam por funcionar como uma alavanca para o crescimento econômico e para uma mudança social para as pessoas de baixa renda, incluindo aquelas pertencentes a grupos minoritários.

A maior liberdade econômica é instigadora da criação de novas empresas, do impulso a inovações que melhor resolvem os diversos e específicos problemas dos cidadãos e das empresas consumidoras, gerando maiores receitas tributárias e agregando uma mudança positiva nos padrões de distribuição da riqueza criada. Vários estudos acadêmicos, tais como o de Amoros e Cristi (2010), indicam que o surgimento de novas empresas exerce um impacto direto na redução da pobreza.

Não me resta dúvida de que a melhor política social está ligada à promoção de políticas públicas que promovam o emprego e a renda. Iniciativas essas ligadas à desburocratização, à simplificação e à agilização dos processos em nível estatal, visando a impulsionar e tornar o ambiente de negócios mais atrativo e fácil para os investimentos e para os respectivos empreendimentos. Tais políticas devem facilitar o surgimento de novas empresas e criar as condições macroeconômicas e operacionais que possibilitem a manutenção desses empresários, se competitivos, nos mercados em questão.

Fico me indagando, indignado, por que essas questões essenciais sobre as virtudes da criação de riqueza e do fundamental aumento da produtividade nacional parecem tão secundárias frente a outros temas importantes, tais como os direitos de grupos identitários, mas que foram politizados e que objetivamente poderiam ser melhor endereçados e resolvidos com o vital crescimento econômico, em especial, em nosso eterno país de renda média-baixa.

O mundo, evidentemente, se transformou. Há uma maior abundância em tudo – ou quase tudo… o caráter, a honestidade, a coerência? – em nível de saúde, de alfabetização, de recursos; uma maior mobilidade com menores custos, e uma nova consciência em termos do modo de pensar, nas expectativas e aspirações das pessoas. Porém, valores fundacionais como a importância do adiamento de prazeres imediatos, com certos sacrifícios para se fazer a diferença individualmente, não me parece que deveriam ser abandonados.

O que deve e pode nos “salvar” factualmente são investimentos e políticas públicas orientadas para a provisão de uma educação de qualidade, alinhada com os novos desafios de um mundo formatado em cadeias globais de valor e de intensas e impactantes mudanças tecnológicas que transformam os mercados e alteram substancialmente os mercados de trabalho, os tipos de empregos e a forma de criar valor, renda e riqueza. Novos tempos exigem novos formatos organizacionais e novos recursos e capacidades para as pessoas pertencentes a todas as classes e grupos sociais.

Bem, as “bondosas e justiceiras práticas” de redução das desigualdades sociais, alardeadas por jovens e inexperientes professores de visões coletivistas, não funcionam, cientifica e pragmaticamente – assim, não passam de caridosas “boas intenções”. Ilogicamente, por terras verde-amarelas, tais professores aparentam ser inimigos dos produtivos e inovadores processos de destruição criativa.

Como base na sabedoria acumulada do que efetivamente dá certo, a meu juízo, acadêmicos de negócios deveriam incentivar e pontuar aos jovens estudantes a necessidade de se criarem as condições macroeconômicas e de se gestar um ambiente de negócios fomentador do empreendedorismo que impulsione um aumento das possibilidades de mobilidade social ascendente em todas as classes e para todos os grupos sociais.

Especialmente agora, em tempos de crise e paralisações na economia justificadas pela Covid-19, inequivocamente, mercados mais livres tenderiam a potencializar a tão necessária recuperação econômica, trazendo maiores oportunidades para o aumento da fundamental mobilidade social no país.

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.