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Erasmo de Roterdã e o bom governante (final)

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Se buscarmos nos principais dicionários o significado do termo adulador, em todos devemos nos deparar com o adjetivo substantivo masculino “bajulador”. É com os aduladores que o príncipe Carlos, segundo nossa fonte Erasmo de Roterdã, devia preocupar-se. Aliás, afastar-se, manter distância dos que Erasmo classifica como “praga específica”. Como bibliografia para escrever seu alerta sobre o perigo dos bajuladores, o jovem de Roterdã, agora conselheiro de Carlos, toma emprestado o ensaio de Plutarco, que, percebemos, era referência de Erasmo. O ensaio do historiador e filósofo grego foi intitulado Como distinguir entre o amigo e o adulador.

O poder é sedutor. Na política, essa sedução é amplificada pelo “prestígio” que se obtém ao circular junto a um chefe do Executivo, quiçá ser denominado um conselheiro. Nesse sentido, os escritos de Erasmo de Roterdã são riquíssimos, de valor inestimável, de modo que renderiam um imenso estudo de caso, assim como nos fornecem ampla fonte bibliográfica. Retenho-me, todavia, a findar o estudo em que nos debruçamos sobre – e usamos como arcabouço – a obra de Erasmo, neste texto. Meu objetivo é que, do mais simples ao mais importante chefe de executivo no Brasil, o Mito do Planalto, possa este breve estudo ter alguma valia para reflexão sobre os temas abordados – em específico, agora, a bajulação.

Nosso personagem de Roterdã faz uma admoestação àqueles que desdenham do perigo que representam os bajuladores: “[…] os impérios mais florescentes dos maiores reis foram derrotados pela língua do adulador”. Segue: “Em nenhum lugar lemos acerca de um estado oprimido pela tirania implacável sem um adulador que desempenhe um papel fundamental na tragédia”. Hitler chegou ao auge de sua loucura com significativa participação dos aduladores. Joseph Goebbels (1897 – 1945), Hermann Göring (1893 – 1946), Heinrich Himmler (1900 – 1945), Rudolf Hess (1894 – 1987), Reinhard Heydrich (1904 – 1942) e outros mais foram arquétipos “ideais” da desgraça que um adulador pode causar. Todos alimentavam o Führer em sua insanidade genocida. Não me refiro à perda da II Guerra Mundial pela Alemanha, mas sim à barbárie que foi o nazismo em seu todo. Claro que aqui uso um exemplo de governo. Stalin, por exemplo, desconfiava dos bajuladores. Volta e meia um deles era emparedado e o tiro na nuca era disparado; mas uso aqui outro caso extremo. Stalin foi um tirano genocida. Erasmo de Roterdã aconselha distanciamento de bajuladores, não proximidade, que gerou desconfiança em Stalin, seguida por execuções.

O bom governante precisa estar cercado de conselheiros com pensamentos críticos. Quando iniciei como assessor parlamentar do deputado federal Marcel van Hattem, lembro-me de que, no processo inicial de seleção, Marcel pediu-me para apontar pontos a serem melhorados na comunicação do gabinete com os cidadãos. Eu entrava, preciso ressaltar, como assessor de imprensa do parlamentar do NOVO. Fiquei sem resposta à sua proposição. Marcel me “repreendeu” e, noutras palavras, disse: “Ianker, preciso que sejas crítico. Até para me livrares de ‘roubadas’ (por roubadas leia-se: frias, erros, problemas)”. Assim como qualquer pessoa normal, Marcel gosta de elogios. Recebe-os com alegria e retribui com agradecimento. Geralmente, um “obrigado”. Marcel tem escola literata da melhor vertente da ciência política e sabe diferenciar, como bem propõe Plutarco, o amigo e o adulador. No enxuto gabinete do deputado Van Hattem, todos têm liberdade para tecer críticas e fazer algum alerta. Isso nada mais é do que seguir os conselhos de Erasmo de Roterdã. Coincidência, ou não, Marcel tem sua ascendência na Holanda. Cito Marcel pelo simples fato de ser uma experiência real que tenho com um político, ainda que do Legislativo.

Findo lembrando que a crítica é fundamental no processo não apenas político, mas na vida. Críticas construtivas, como bem autoexplica a segunda palavra da expressão, “constroem”! O bom governante precisa estar cercado por homens sábios e críticos. O bom conselheiro, por sua vez, tem de ser ousado a ponto de expor seu pescoço – do contrário ou é bajulador, ou é covarde. Que nosso presidente da República, Sr. Jair Bolsonaro, cerque-se de homens críticos e afaste os aduladores, pois, como já lemos, os governos acometidos pela desgraça estavam repletos deles. Aqui cabe uma frase de Erasmo: “Todos esses loucos encontram, porém, outros loucos que os aplaudem; pois, quanto mais uma coisa é contrária ao bom senso, mais ela atrai admiradores; o que há de pior é sempre o que agrada à maioria.”

Aos aduladores, deixo essa sentença de Erasmo de Roterdã: “[…] fechar os olhos aos defeitos dos amigos, a ponto de apreciar e admirar grandes vícios como grandes virtudes, não será, acaso, avizinhar-se da loucura?”.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).