Sobre liberdade e o interesse pela vida alheia

Não há aprendizado maior para se valorizar e respeitar a liberdade do que o seu exercício. Não há alternativa para alguém assumir a responsabilidade por seus atos senão exercendo a liberdade de agir.

Muitos dizem que liberdade exige responsabilidade. Isso é falso. Filosoficamente, responsabilidade não é prerrogativa para o exercício da liberdade, é o contrário. Liberdade não exige responsabilidade, liberdade oferece, cria, proporciona e torna possível o exercício da responsabilidade.

Sem liberdade, ninguém age, sem ação, a responsabilidade é uma mera abstração. Sim, podemos agir por compulsão, mas sabemos que nossa responsabilidade por atos praticados mediante coerção carecem de moralidade, logo, não temos sobre eles responsabilidade alguma. Quem não tem liberdade para agir, para acertar ou errar, não tem pelo que se responsabilizar.

Liberdade também não é sair fazendo tudo o que se quer por aí, agredindo os outros, violando a integridade física, a liberdade e a propriedade dos demais. Pelo contrário, liberdade é o exato oposto disso, liberdade é, nada mais, nada menos, que ausência de coerção. Onde há coerção, a liberdade já não existe mais. Liberdade e coerção são excludentes, liberdade e responsabilidade são inerentes, sendo a secunda corolário da primeira.

Quem age coercitivamente, iniciando um ato de fraude ou de força, impondo aos outros o que os outros não querem fazer, está excluindo a liberdade com sua ação e como consequência, e só aí, está assumindo a responsabilidade que terá, por uma questão de justiça.

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Quem usa de coerção para tirar a liberdade dos outros, ou violar a integridade física ou a propriedade de alguém, está declarando que não se importa de colocar seus direitos em risco, para arcar com a responsabilidade pelo que faz, na forma que for estabelecido.

O uso da liberdade, ou de coerção, sempre acarreta que aquele que agiu, venha a exercitar a responsabilidade sobre os seus atos, seja para o bem, ou para o mal.

Muita gente, principalmente nas redes sociais, discute assuntos que envolvem a liberdade, a coerção e a responsabilidade dos outros, sem ter entendimento claro desses conceitos.

Sem essa compreensão do que liberdade, coerção e responsabilidade significam, estarão incorrendo sempre em um erro de integração de conceitos e ideias.

Por isso, as discussões sobre aborto, drogas, casamento gay, pornografia (não confundir com pedofilia), expressão artística, enfim tudo que for suscetível a uma crítica moral, duram horas, semanas, meses e anos com gente batendo na mesma tecla.

Discussões desse tipo não são discussões técnicas ou teóricas. Normalmente, as pessoas não estão interessadas na realidade, mas em expressar suas opiniões, muitas vezes movidas por experiências traumáticas ocasionais, por sentimentos atávicos ou dogmas dos quais não consegue fugir.

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Na realidade, em última instância, tais discussões tratam sobre a liberdade, sobre a propriedade privada, sobre a busca da felicidade, sobre a responsabilidade que esses direitos trazem.

Uma coisa é certa, se cada um aproveitasse a sua liberdade e a sua propriedade para cuidar da sua vida, da sua família, dos amigos próximos, se eles merecerem, em vez de passarem horas, dias, semanas, meses e anos enchendo a paciência dos outros, viveríamos todos uma vida melhor.

O que nos faz ser assim, querer ser responsável pela vida alheia como se ela nos pertencesse, são as instituições criadas por aqueles que querem inverter a relação causal entre liberdade e responsabilidade.

O governo, apoiado por seus adoradores quer nos tutelar oferecendo o estado de bem estar social e o combate a todas as ações que podem supostamente causar mal a nós ou aos outros. Essa supressão da liberdade simplesmente transfere a responsabilidade para os outros via o próprio governo. Como o governo se responsabiliza pra nossa saúde, não temos a liberdade de fazer o que quisermos.

Hoje, discutimos se podemos exercitar a nossa liberdade para uma série de coisas. Hoje, queremos assumir para nós a responsabilidade que a liberdade nos traz.

Se o governo continuar assumindo a responsabilidade que a nossa liberdade nos oferece, num futuro não muito distante, caberá ao governo decidir se teremos o direito de existir.

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Se pararmos de pedir mais governo em áreas da nossa vida como a economia, a educação, a saúde, a cultura, o esporte, a previdência, os costumes alheios, por mais que estes possam nos aborrecer, poderemos então exercer a nossa liberdade, usufruir da nossa propriedade e buscar a nossa felicidade como cada um quiser.

Ao governo caberá apenas o problema da coerção, da iniciação do uso da força ou de fraude. Para nós restará o que nos permite viver quando a coerção é suprimida, o exercício pleno da liberdade, o direito que nos permite cooperar em paz e trocar os valores que temos a oferecer ou que sentimos falta para vivermos mais e melhor.

Sobre crianças, por não serem ainda independentes, a responsabilidade por elas é dos pais, ou de quem tem a sua guarda.

Afinal, a liberdade de trazer ou não uma criança ao mundo cabe aos pais e a responsabilidade que advém desse exercício da liberdade individual, também.

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