Os preços DEVEM subir em épocas de escassez: entenda por quê

Sempre que ocorre um súbito decréscimo da oferta de uma determinado bem, em virtude de eventos das mais diversas naturezas, volta à cena de debates a treta de que os comerciantes, caso tivessem coração, deveriam manter os preços estanques ou mesmo reduzi-los. Não haveria de ser diferente neste episódio recente da greve dos caminhoneiros:

A melhor maneira de visualizar o erro desta lógica é imaginar o que aconteceria caso os estabelecimentos comerciais — bem como todos os demais agentes das cadeias produtivas — desprezassem o fato de que a relação entre a procura e a disponibilidade de um dado produto ou serviço foi alterada por fatores de ordem externa:

1) Os primeiros clientes que chegassem ao ponto de venda comprariam todo o estoque disponível a fim de fazer reserva para o período de carestia que se avizinha, deixando os demais habitantes da localidade considerada de mãos abanando. Com a elevação do preço, a tendência é de que as pessoas adquiram apenas o necessário para subsistência imediata.

É como se o empreendedor, ao substituir a etiqueta de preço, soasse um alerta: “Atenção: racionem esta mercadoria porque o desabastecimento é iminente”. Se ele ou qualquer autoridade governamental apenas fizessem tal pedido encarecidamente à população local, é certo que a maioria ignoraria solenemente, mas mexer no bolso do sujeito é sempre um método eficaz de captar sua atenção e fazê-lo cooperar.

Se você, porventura, estiver ponderando que o dono do mercado não adota tal procedimento pensando na estabilidade da sociedade, mas sim porque percebeu que poderia aumentar seu faturamento sem fazer força, acertou: é isso mesmo. Assim como não é da benevolência do açougueiro, do cervejeiro e do padeiro que esperamos o nosso jantar, mas da consideração que ele têm pelos próprios interesses. Apelamos não à humanidade, mas ao amor-próprio, e nunca falamos de nossas necessidades, mas das vantagens que eles podem obter — acho que faz só uns dois séculos que Adam Smith tentou explicar isso pela primeira vez.

É claro que, em algum momento, estes clientes comuns transfigurados em atravessadores vão se dar conta do real valor daquela carga e irão vendê-la a preços majorados em um mercado paralelo. Pior seria, aliás, se eles assim não procedessem, e deixassem seus concidadãos passando sede, pois esses jamais aceitariam de bom grado a situação e até mesmo um cenário de barbárie em disputa pelo precioso bem estaria desenhado.

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Ah, mas se o Governo não apenas tabelasse os preços momentaneamente, mas também limitasse as compras por CPF?

Boa sorte fazendo esta lei ser cumprida em um ambiente degradado. Qual seria a maneira mais adequada de impor esta vontade do gestor público? Mandar fiscais para uma região já devastada por uma enchente para multar e confiscar? Parabéns: você acaba de criar mais um pouco de burocracia estatal e piorar o problema! Alguém aí a fim de recriar, quem sabe, a extinta SUNAB ou mesmo virar um “fiscal do Sarney”? Quem viveu a hiperinflação da década de 1980 e o frenesi das máquinas de remarcar sabe do que estou falando…

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Mas como seria possível ajudar os prejudicados por uma conjuntura como esta então? Simples: devemos envidar esforços para reequilibrar oferta e demanda na localidade afetada, enviando doações de suprimentos de toda espécie — como fez, por exemplo, JJ Wat, o jogador da NFL, quando do furacão que atingiu o Texas.

Desta forma, é restabelecido naturalmente o nível de preços anterior ao fenômeno que desencadeou seu incremento. E esta solidariedade pode vir de diversas fontes, tanto privadas (como instituições religiosas) quanto públicas (fundos governamentais para emergências).

Além disso, atitudes como a dos taxistas de Medellín, que resolveram não cobrar a corrida dos parentes das vítimas que pereceram na queda do avião do time da Chapecoense, são sempre dignas de aplauso, sinal da presença de sólidos valores morais em uma sociedade, mas elas devem sempre partir da iniciativa dos próprios prestadores de serviço, bem como ser adotadas onde as circunstâncias permitem. Fraternidade forçada, como diz o pitoresco Padre Quevedo, no ecxiste.

Por fim, os governantes também podem colaborar com os flagelados isentando de tributos todas as transações comerciais efetuadas durante o período de crise. Além de reduzir o preço, tal medida atrairia mais fornecedores para o local, contribuindo duplamente, portanto, para um alívio nas contas dos atingidos pela catástrofe.

Mas e no caso que assola o Brasil atualmente, quando todo nosso território irá sofrer com a falta de combustíveis e, em decorrência direta, com a carência de quaisquer bens de primeira necessidade? Aí ficou difícil, porque estamos falando de uma nação inteira sob forte escassez.

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É por isso que manifestações populares precisam ser norteadas sempre por um único objetivo claro, factível, de realização no curto prazo, sem coagir ninguém a dela tomar parte e causando o mínimo possível de transtorno — muito diferente do que ocorre nas estradas Brasil afora, onde foi apresentada pelos líderes da mini-revolução uma lista interminável de exigências que jamais poderá ser posta em prática por decreto.

Este movimento paradista dos motoristas profissionais, por enquanto, conta com o suporte de parte significativa da população, mas esperem começar a faltar comida e outros itens básicos em nossas casas (como medicamentos), ou então não haver mais gasolina para ambulâncias salvarem vidas, bombeiros apagarem incêndios ou aeronaves transportarem órgãos humanos para transplante, ou para coletar lixo: tudo leva a crer que a simpatia pelos grevistas não vai durar muito. Na hora de escolher entre viver como os personagens de Mad Max ou apoiar que a polícia entre em ação para valer, tenho poucos dúvidas a respeito de qual alternativa as massas irão optar.

EM TEMPO: saiu o resultado da luta dos bravos guerreiros das rodovias que puseram a cara a tapa por um Brasil melhor. Seguem as cláusulas do termo de rendição, digo, acordo firmado com o Executivo Federal. E você que foi levar lanchinho e água pra eles…sinto muito — mas nem tanto:

 
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