Os diamantes são eternos. Já as falsas teorias…

Londres, 26 Set 2017 (AFP) – O maior diamante bruto já encontrado no mundo em mais de 100 anos, de 1.109 quilates, foi vendido pela canadense Lucara Diamond para a empresa Graff Diamonds por US$ 53 milhões. A pedra preciosa foi levada a leilão em 2016 pela Sotheby’s de Londres, mas não encontrou um comprador […]

Londres, 26 Set 2017 (AFP)O maior diamante bruto já encontrado no mundo em mais de 100 anos, de 1.109 quilates, foi vendido pela canadense Lucara Diamond para a empresa Graff Diamonds por US$ 53 milhões.

A pedra preciosa foi levada a leilão em 2016 pela Sotheby’s de Londres, mas não encontrou um comprador disposto a pagar US$ 70 milhões. O diamante, um pouco menor que uma bola de tênis, batizado de “Lesedi La Rona”.

Cinquenta e três milhões de dólares é muito dinheiro. O que será que faz alguém pagar este preço por uma pedra um pouco menor que uma bola de tênis? A resposta a essa pergunta está na raiz de uma das maiores e mais importantes descobertas da teoria econômica.

Os economistas clássicos achavam que o valor de uma mercadoria seria determinado, majoritariamente, pela quantidade de tempo de trabalho necessário investido na sua produção. Foi com base nessa teoria (apelidada de valor-trabalho) que Marx construiu o arcabouço teórico do que chamou de mais-valia, termo usado para designar a disparidade entre o salário pago e o valor produzido pelo trabalho, cuja diferença seria apropriada pela burguesia capitalista através do lucro. Em outras palavras, Marx falava da expropriação do valor do trabalho do proletário pelos donos do capital (meios de produção). Para o alemão, a produção da mais-valia – ou do lucro – seria a lei absoluta do modo de produção capitalista. Em sua retórica particular, ele enxergava o capital como “o trabalho morto que, como um vampiro, só se nutre sugando trabalho vivo e vive tanto mais quanto mais trabalho vivo ele absorve.”

Foram os chamados economistas marginalistas – liderados por William Jevons, Karl Menger e Léon Walras – que derrubaram a teoria clássica do valor-trabalho, demonstrando, por tabela, que a base sobre a qual Marx ergueu a hipótese da mais-valia (e conseqüentemente tudo que dela deriva) estava absoluta e irremediavelmente equivocada.

A revolução marginalista está, basicamente, no “insight” de que a base dos valores de troca é a avaliação individual subjetiva. Fiquemos com uma síntese de Murray Rothbard sobre o tema do subjetivismo:

A ciência econômica não trata das coisas ou dos objetos materiais. Ela analisa os atributos lógicos e as conseqüências da valoração individual. Evidentemente, as “coisas” fazem parte do problema, já que não pode haver valoração sem que existam objetos a serem valorados. Entretanto, a essência e a força propulsora da ação humana – e, portanto, do mercado – são as avaliações dos indivíduos. A ação humana é resultado de escolhas entre alternativas, que refletem valores, ou seja, preferências individuais.

Resumidamente, o que os marginalistas fizeram foi demonstrar que o valor de troca dos bens é função de parâmetros outros que não apenas os custos diretos dos mesmos e, muito menos, a quantidade de trabalho neles embutida. Entre outras coisas, mostraram que, se o valor dos bens dependesse exclusivamente do seu custo, circunstâncias como escassez, abundância, utilidade ou preferências não teriam qualquer relevância na formação do valor de troca e, conseqüentemente, nos preços dos bens. Um diamante bruto, achado praticamente ao acaso, por exemplo, jamais poderia valer mais do que, digamos, um par de sapatos ou uma bisnaga de pão.

Por outro lado, o valor subjetivo que atribuímos às coisas varia em função de diversas circunstâncias, como clima (invernos amenos costumam fazer encalhar coleções inteiras), estado psicológico do consumidor (euforia ou depressão), necessidade, etc.

Partindo da premissa de que havia um componente subjetivo na formação de valor de todos os bens, os economistas marginalistas desenvolveram também o que se convencionou chamar de “lei da utilidade marginal decrescente”, a qual, resumidamente, estabelece que “cada unidade extra de um determinado bem proporciona menor benefício subjetivo que a unidade anterior”.

Imagine um homem perdido no meio do deserto, sedento e cansado. Ele provavelmente seria capaz de pagar uma fortuna ao primeiro comerciante que aparecesse em seu caminho para vender-lhe uma simples garrafa de água gelada, mas não pagaria o mesmo valor por uma segunda e assim sucessivamente.

Em resumo, o preço de venda de qualquer bem depende da avaliação subjetiva que tanto compradores quanto vendedores fazem dele, e não apenas do custo de produção nele embutido ou o tal “valor-trabalho”. Quando vou a um supermercado e compro um item qualquer, entre os milhares ali expostos, é porque valorizo mais o produto do que o dinheiro pago por ele, enquanto o comerciante valoriza mais o dinheiro do que a mercadoria. Quem quer que já tenha precisado vender com urgência um bem de menor liquidez (imóvel, veículo, etc.) sabe que o valor que atribuímos a ele reduz à medida que o tempo se esgota e a necessidade aumenta.

Que os economistas clássicos, ainda no limiar das investigações no campo da teoria econômica, tenham se enganado nas suas formulações sobre a valoração dos bens, é algo razoável. O que não é razoável é que, passado tanto tempo desde o advento da revolução marginalista, alguns acadêmicos marxistas ainda continuem dando crédito à tese furada da mais-valia. Eu diria que, em matéria de economia, estão ainda na pré-história.

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