Os 500 anos da Reforma Protestante: Weber tinha Razão?

Cultura e Religião é um dos principais motores de transformações sociais ao longo da história humana. A economia, uma das dimensões do estudo do comportamento humano, não estaria imune aos impactos externos exercidos por mudanças na esfera cultural e religiosa. A Reforma Protestante, iniciada em 31 de outubro de 1517 em Wittenberg, na Alemanha, é […]

Cultura e Religião é um dos principais motores de transformações sociais ao longo da história humana. A economia, uma das dimensões do estudo do comportamento humano, não estaria imune aos impactos externos exercidos por mudanças na esfera cultural e religiosa. A Reforma Protestante, iniciada em 31 de outubro de 1517 em Wittenberg, na Alemanha, é um exemplo clássico de como mudanças culturais podem impactar a economia.

À primeira vista, as diferenças entre os países que aderiram à Reforma Protestante e os que não aderiram parecem encontrar respaldo em diversos indicadores estatísticos. Nações de origem protestantes (tais como EUA, Suécia, Suíça, Dinamarca e Reino Unido) tendem a apresentar indicadores sociais de educação, renda per capita e IDH superiores em média a países de predominância católica (Portugal, Espanha, Itália, Irlanda e Polônia). Os países católicos também verificaram historicamente um desenvolvimento industrial tardio em comparação aos protestantes, além de menor grau médio de escolarização (a taxa de alfabetização era de 32% na Itália em 1870, contra 76% no Reino Unido no mesmo período[1]).

A Reforma vem sendo tema recorrente de estudos acadêmicos, seja na literatura econômica, sociológica ou histórica. Entre as obras mais célebres, encontra-se o clássico de Max Weber publicado em 1904, a Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo.  Segundo Weber, o pensamento teológico calvinista teria impulsionado a fase inicial do desenvolvimento capitalista, ao legitimar uma ética voltada para trabalho e poupança.

Ao contrário dos demais países católicos, que detinham uma concepção tradicionalista do trabalho, enquanto meio de sustento para a manutenção de um padrão fixo de consumo, a concepção calvinista do trabalho o constituía um fim em si próprio. Esta concepção do trabalho com um fim em si próprio levaria a uma nova mentalidade de contínuo aperfeiçoamento profissional e acumulação de capitais. Nesse contexto, indivíduos bem-sucedidos economicamente eram vistos como cumpridores da vocação ao qual a vontade divina os predestinou, e os capitais acumulados, sinais visíveis de eleição e salvação.

Esta tese de Weber da relação entre ética do trabalho protestante e desenvolvimento capitalista apresenta evidência econômica? A literatura econômica vem apresentando resultados diversos. Como exemplo, o economista Davide Cantoni, em seu artigo de 2014 “The Economic Effects of the Protestant Reformation: Testing the Weber Hypothesis in the German Lands”, demonstra que não há evidências para diferenças no crescimento econômico entre cidades alemãs católicas e protestantes no decorrer dos séculos pós-Reforma[2]. O estudo sugere que, eliminando as diferenças geográficas, institucionais e educacionais entre as cidades analisadas, os hábitos religiosos não explicam divergências econômicas relevantes entre regiões protestantes e católicas alemãs.

Apesar de evidências desfavoráveis acerca da relação direta entre cultura protestante e desenvolvimento, alguns autores sugerem efeitos favoráveis, mas por outras vias indiretas e diferentes daquela enunciada por Weber. Becker e Woessmann (2009) apontam que esta via se daria através da educação[3]. Segundo o estudo, há evidências de que a alfabetização das massas, incentivada indiretamente pelos reformadores protestantes para fomento à leitura bíblica, teria desencadeado grande acumulação de capital humano em regiões luteranas da Alemanha.

Estes ganhos de capital humano com a alfabetização podem não ter se refletido em ganhos econômicos imediatos para uma economia agrária e manual como a Alemanha do século XVI e XVII. Contudo, a educação passou a exercer um peso econômico decisivo em meio à crescente especialização técnica exigida pela Segunda Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX. Com isso, as regiões protestantes, mais alfabetizadas que as católicas, puderam se lançar à frente no processo de desenvolvimento industrial.

Outras evidências de impactos indiretos do protestantismo sobre o desenvolvimento capitalista também podem ser encontradas em estudos como o de Cantoni (2017). Segundo este estudo, demonstra-se que o advento do luteranismo na Alemanha teria promovido aquilo que se denomina de “secularização da economia” [4]. Capitais e terras pertencentes à Igreja, primariamente voltadas para atividades monásticas e marcadas pelo enclausuramento social, foram expropriadas por autoridades seculares alemãs durante as guerras religiosas dos séculos XVI e XVII. Deste modo, as terras e capitais, que eram até então monopolizadas pelo poder eclesiástico, foram liberadas e redirecionadas para atividades seculares, mais produtivas e voltadas para o mercado.

Um outro importante efeito desta progressiva “secularização econômica” seria a forte queda da procura por vagas de ensino superior ligados à teologia em universidades alemãs do período pós-Reforma, e o aumento de prestígio de cursos seculares, vinculados à medicina, direito e artes. Em contraste, universidades católicas permaneceram com forte influência do ensino teológico (ver no gráfico abaixo).

O estudo qualitativo de Basten e Betz (2013) apresenta evidências mais claras da tese clássica weberiana, definida pela relação entre a ética protestante e a formação da mentalidade capitalista de trabalho e poupança. Eles observam, a partir de resultados de referendos suíços, divergências nas preferências políticas entre os habitantes dos cantões protestantes e católicos[5].  Segundo estes autores, a “ética do trabalho” estaria evidenciada no fato de que regiões mais fortemente ligadas à Igreja reformada tendem a apresentar padrões de votações mais alinhadas com o livre mercado e menos com a expansão do welfare state.

Os autores enumeram alguns exemplos. Protestantes tendem a ser menos favoráveis a medidas pró-lazer em 14 p.p em relação aos católicos, menos favoráveis a medidas pró-redistribuição em 5 p.p e menos favoráveis a medidas de mais intervenção estatal em 7 p.p. Deve-se ressaltar também que estas mesmas regiões protestantes tendem a apresentar um maior nível de renda per capita médio comparativamente às católicas.

Neste 31 de Outubro, a Reforma Protestante completará 500 anos. É fato que a publicação das 95 teses de Lutero em 1517 trouxe impactos profundos na dinâmica política, econômica e social dos países ocidentais que a aderiram, como ressaltados por diversos autores, entre os quais Max Weber. É também fato que a Reforma de Lutero, mesmo em uma sociedade crescentemente secularizada, reverbera até os dias atuais, nos legando as atuais discrepâncias dos padrões educacionais, institucionais e culturais existentes no mundo ocidental moderno. E o Brasil, uma nação de colonização ibérica e católica, não está fora desse contexto.

Sobre o autor: Tiago Barreira é formado em economia pela FGV.

Nota: Artigo publicado originalmente no Blog do IBRE (Ver em: http://blogdoibre.fgv.br/posts/os-500-anos-da-reforma-protestante-weber-tinha-razao)

[1] Fonte: https://ourworldindata.org/literacy/

[2] Ver em: http://www.davidecantoni.net/pdfs/maxweber_jeea_paper.pdf

[3] http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.168.6279&rep=rep1&type=pdf)

[4] https://economics.stanford.edu/sites/default/files/reallocation_and_secularization_-_the_economic_consequences_of_the_protestant_reformation.pdf

[5]  http://pubs.aeaweb.org/doi/pdfplus/10.1257/pol.5.3.67

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