A economia como sintoma de uma sociedade doente

Não é difícil perceber que a situação da economia de um país reflete entre outras coisas a disposição de seu povo para criar, produzir, consumir, estocar e negociar os diferentes tipos de bens que lhe possa ser útil, hoje ou no futuro. Tudo que interfere nessa disposição afeta a economia. Aspectos culturais, alterações no ambiente natural, mudanças sociais, ou decisões de governos, por exemplo, geram impactos importantes no nível de atividade econômica de um país. Isso porque alteram a ação das pessoas, que em última instância, é o que define os rumos da economia. Adam Smith, em A Riqueza das Nações, mostra que a livre interação entre os indivíduos, cada um buscando seu interesse particular, resulta em uma ordem capaz de satisfazer necessidades e produzir riqueza. Tudo espontaneamente, sem nenhum dirigismo. No fundo, o direito do homem a sua individualidade, que Smtih chamou de laissez-faire, é que move o mundo.

Com efeito, se os indivíduos têm necessidades diferentes, habilidades e interesses específicos, é natural que a aptidão de cada um seja usada para produzir os bens e serviços que todos demandam. Assim, o motorista conduz o cozinheiro que lhe prepara o almoço, e o sapateiro confecciona o calçado de ambos. Essas trocas valorizam a capacidade e o diferencial de cada profissional e maximizam a satisfação de todos. É por isso que a especialização da mão de obra e a consequente divisão do trabalho são fatores fundamentais para aumentar a produtividade de uma economia. Quando eles estão presentes, a produção de bens torna-se eficiente e os escassos recursos naturais são mais bem aproveitados. Portanto, qualquer arranjo social que altere a naturalidade da ação individual resulta em menor produtividade, economia débil e satisfação material hipossuficiente; prognóstico mais que ratificado pelos autores da Escola Austríaca e duramente vivenciado por povos cuja individualidade é atropelada em nome de uma suposta igualdade. Pura ilusão. A realidade tem mostrado que a imposição do ideal de igualdade a qualquer custo resulta em miséria, dependência e em um grau de assimetria intrapopulacional ainda maior que aquele que se pretende combater.

O economista Ludwig von Mises, em sua obra mais importante, Ação Humana, explica que o homem está constantemente inconformado com seu estado atual e que, por isso, toda ação humana é voltada para melhorar o seu bem-estar. Ele faz isso, avaliando de forma subjetiva as alternativas que possam lhe trazer mais benefícios que custos. Se a individualidade da escolha não é respeitada, os custos superam os benefícios, afinal, ninguém nunca poderá saber o que é melhor para o indivíduo em cada uma de suas decisões, além dele próprio. Desse princípio decorre a ineficiência da ação estatal. Quando o Estado se torna responsável pela saúde, educação, segurança e todo o resto, elimina a opção de escolha do cidadão, inibe a possibilidade de empreendedorismo e ainda reduz a geração de riqueza por tributar a produção e o consumo. Não é sem razão, portanto, que quanto maior a interferência estatal na economia, menor sua capacidade de prosperar e elevar a qualidade de vida de seus cidadãos, conforme atesta a relação entre o Índice de Liberdade Econômica (ILE) e o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH).

No socialismo, ao contrário do pensamento liberal, não há espaço algum para a individualidade. Os interesses de classe devem prevalecer a qualquer custo e todos os problemas nacionais precisam da tutela do Estado para sua solução. Nele, os burocratas se enchem de poder e a iniciativa estatal se torna absoluta, esmagando a liberdade individual em favor do coletivismo. O embate político pelo controle do Estado se torna perene uma vez que este garante privilégios econômicos, que facilitam a manutenção do poder. Empreendedores, produtores e trabalhadores são taxados e os recursos arrecadados são redirecionados, na forma de subsídios, para grandes empresas, grupos de interesses e para os polpudos salários dos burocratas. Apenas uma pequena parte desses recursos retorna na forma de serviços para os agentes tributados e para a parcela menos próspera da população. Trata-se de um arranjo surreal, que ao longo do tempo exaure todas as energias da galinha dos ovos de ouro, o setor produtivo da economia. Não é casual, portanto, que todo projeto de governo socialista requer tirania e se esgota em penúria, sofrimento e morte.

Evidências não faltam para que a sociedade esteja atenta, a fim de evitar que o Estado se torne onipresente. Não é saudável que atividades econômicas como a produção de energia e combustíveis, a gestão de portos, aeroportos e rodovias, e dos sistemas de saúde e educação, entre outros, sejam estatais. A iniciativa privada faz tudo isso com mais eficiência, qualidade e inovação. Porém, quando o Estado cria leis que violam a liberdade individual, como é o caso da lei da palmada, o alerta da sociedade civil precisa soar. É certo que o Leviatã saiu do controle, e ainda que oficialmente o país não seja socialista, caminha celeremente para tal. Por que, nesse caso, é tão difícil perceber que os alicerces da estrutura social livre estão sendo corroídos? Um vislumbre da Teoria Crítica da Sociedade permite compreender a estratégia da revolução cultural proposta pela Escola de Frankfurt. O objetivo é o de moldar a mentalidade e a visão política das pessoas, abalando os alicerces da civilização Ocidental. Para tanto, é necessário cooptar aliados nas associações de trabalhadores (sindicatos), nas escolas, na mídia e até nas igrejas. Assim, aos poucos, sem alarde, geração após geração, a resistência contra a dissolução da liberdade e da individualidade vai sendo minada.

Ocorre que a instituição da liberdade individual, com seu sistema de escolhas e consequências, funciona como anticorpos em defesa da coletividade. Quando os indivíduos são convencidos a abrir mão de sua liberdade em favor do coletivismo, a sociedade perde esse escudo e se torna presa fácil do totalitarismo. A dignidade humana é aniquilada e o indivíduo renuncia à soberania de sua própria vida. Friedrich Hayek, em O Caminho da Servidão, destaca que não há nada mais desesperador e intolerável para um homem que saber que nenhum esforço próprio poderá mudar uma situação desfavorável. Prevalece o sentimento de resignação e impotência. Logo, há espaço para a tirania e a submissão, com todas suas consequências em termos de privação material e falta de perspectiva.

Quais seriam então, as estratégias do coletivismo para desestruturar as defesas naturais da sociedade? O escritor francês Victor Hugo alertou que um povo pode resistir à invasão de um exército, mas não ao propagar das ideias. Assim, o filósofo marxista Antonio Gramsci propõe que a hegemonia coletivista seja conquistada pela mudança no plano da consciência. Ou seja, na ideologia e no discurso. Daí o sentido de afrontar as tradições (que inclui a família, o trabalho e a religião), subverter a lógica, relativizar o rigor científico e dominar a linguagem. Para alcançar esse propósito, os coletivistas lançam mão de instrumentos como o controle dos meios de comunicação, a infiltração de aficionados nas instituições constituídas e o domínio da educação das novas gerações.

Nesse contexto, quando a análise crítica e a divulgação dos fatos são substituídas pela versão progressista, no jornalismo; quando a ética e a lógica econômica são atropeladas pelo casuísmo, na aplicação do direito; quando a meritocracia e o bom senso são ignorados em favor da inépcia e do coitadismo, na educação e no trabalho; a sociedade já se encontra em elevado grau de acometimento. A estagnação econômica decorrente é apenas reflexo dessa disfunção social, que óbvio, reduz a disposição para assumir riscos. Sem a ousadia para experimentar o novo, não há qualquer possibilidade de alcançar o desenvolvimento sustentável. Significa reconhecer a incapacidade de evoluir. Evidente que não há produção que resista à ausência de liberdade para pensar, agir, tentar, errar e recomeçar. Logo, se a produção é obstruída, revela-se negligência pela necessidade humana de consumir. A própria vida é desprezada. O desfecho não poderia ser diferente do completo fracasso da existência humana. Não surpreende, portanto, que todas as vertentes do pensamento marxista, de alguma forma, afrontem os fundamentos da civilização Ocidental. A saber, a liberdade, a democracia, a família e a fé cristã. São valores que até aqui permitiram o progresso material da humanidade, o domínio das forças da natureza e em última análise, a sobrevivência do homem na Terra.

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Vinícius Montgomery de Miranda

Vinícius Montgomery de Miranda

Formação em Engenharia Elétrica na Universidade Federal de Itajubá. MBA em Gestão Financeira na UNITAU. Mestre em Engenharia de Produção pela Universidade Federal de Itajubá. Professor no INATEL e na FAI (Santa Rita do Sapucaí).