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Dostoiévski, Orwell e Francis: da revolução à decepção com o socialismo

Eles viveram em períodos diferentes, com contextos diferentes e escreviam em gêneros literários diferentes, mas os três autores tinham duas coisas em comum: 1) eram jornalistas; 2) se desiludiram com o socialismo. Como bem consta no título do texto, estou falando dos escritores Fiódor Dostoiévski (1821-1881), George Orwell (1903-1950) e de Paulo Francis (1930-1997). Neste pequeno ensaio, vamos apenas arranhar a imensa superfície desses três gigantes literários, na perspectiva de sublinhar aspectos que causaram a desilusão do trio com a ideologia socialista.

No final da primeira metade do século XIX, o escritor russo – que no meu entender está entre os cinco maiores de todos os tempos – passou a frequentar um círculo intelectual revolucionário socialista de São Petersburgo, conhecido como Petrashevski. Por conta disso, foi preso em 1849. Após oito meses enclausurado, ele e outros prisioneiros foram condenados à morte por fuzilamento. Segundos antes de ser executado, no entanto, Dostoiévski recebeu do Czar Nicolau I uma súbita e surpreendente mudança em sua sentença: o então autor de Gente Pobre (1846) não mais seria executado: seria condenado a passar quatro anos na Sibéria para trabalhos forçados e mais alguns anos como soldado, num total de dez anos.

Da experiência na prisão, Dostoiévski escreveu o romance, que não deixa de ser uma autobiografia de sua estadia como preso, Memórias da Casa dos Mortos (1861). Na obra, Fiódor anotou cada momento que vivenciou como presidiário: a solidão, a convivência com os presos… Observou de perto a miséria humana ao extremo. Fiódor foi sendo remoldado intelectual e psicologicamente à medida que passou seus dias preso. A experiência gerou uma guinada na visão de mundo do autor, que passou a deixar de ver o socialismo como a solução para os problemas da sociedade. Chegara a uma conclusão: o mal da humanidade se dava não por ideologia, mas sim pelo afastamento do homem de Deus. Ou seja: o mundo é ruim por causa da falência do ser humano, de sua miséria e desgraça interior; porque o próprio homem é mau e não porque uma “classe oprime outra”.

Tal constatação do autor russo pode ser bem percebida nos demais livros que escreveu a partir desse período, como Crime e Castigo (1866) – com o maldito personagem Raskolnikóv -, O Idiota (1869) e Os Irmãos Karamázov (1880) – entre outros livros e artigos. Muitos pensadores o classificam como reacionário. De forma alguma afirmo que Doistoiévski se tornou um conservador como Edmund Burke (1729-1797) ou como Roger Scruton (1944-2020), ou até mesmo um liberal como Ludwig von Mises (1881-1973); é fato, entretanto, que ele se distanciou do socialismo – e cada vez mais. Defendeu o livre pensamento e a liberdade de imprensa como poucos em sua época, quando escrevia sua coluna Diário de um Escritor em um periódico conservador russo – conteúdos que após sua morte foram compilados como livro por várias editoras pelo mundo afora. Como ocorre com muitos, o escritor se distanciou das ideias socialistas à medida que amadureceu na idade e na vida.

Em Diário de um Escritor, escreve: “Os pregadores do materialismo e do ateísmo, que proclamam a autossuficiência do homem, estão preparando indescritíveis trevas e horrores para a humanidade sob pretexto de renovação e ressurreição”, como bem lembra o filósofo Luiz Felipe Pondé em seu livro Crítica e Profecia – A Filosofia da Religião em Dostoiévski. Na obra, Pondé também menciona um trecho de Os Irmãos Karamázov: “Ame toda a criação de Deus, ela inteira e cada grão de areia nela. Ame cada folha, cada raio da luz de Deus. Se amar tudo, perceberá o mistério divino das coisas.” Cristão ortodoxo e cada vez mais avesso ao socialismo, Fiódor Dostoiévski morreu em São Petersburgo em 9 de fevereiro de 1881.

O indiano naturalizado inglês George Orwell, apesar de em entrevistas negar de forma tímida que deixara de ser socialista, escreveu um clássico que foi um tapa na cara das ideias do totalitarismo da esquerda: o livro 1984 (1949). A trama conhecida e tão atual narra a história de Winston Smith, vigiado pelo Grande Irmão (Estado) sem qualquer tipo de liberdade. A história fora apagada e reescrita pelo Estado totalitário. Já em A Revolução dos Bichos (1945), minha obra favorita do autor, Orwell faz analogia a Marx/Lênin (1818-1883 e 1870-1924), Stalin (1878-1953) e Tróstki (1879-1940) com porcos totalitários – chamados, respectivamente, de Porco Major, Napoleão e Bola de Neve.

Apesar de conter apenas 140 páginas, o livro é uma obra-prima. Em Um Experimento em Crítica Literária (2019, Brasil), o escritor Clive Staples Lewis (1898-1963) – conhecido como C. S. Lewis -, professor de literatura inglesa em Oxford e, após 1954, eleito à cátedra de Literatura Medieval e Renascentista em Cambridge, além de ser considerado um dos maiores críticos literários de todos os tempos, afirmou que Animal Farm (título original inglês de A Revolução dos Bichos) foi mais genial que 1984 tanto por sua crítica alegórica como pelo formato mais condensado. Eu concordo com Lewis. É mais que natural a preferência do autor de As Crônicas de Nárnia por um livro que tende à fantasia. Afinal, essa era a especialidade do amigo de J. R. R. Tolkien (1892-1973). Orwell dá uma lição aos neorrevolucionários ao não deixar a paixão ideológica o impedir de enxergar as aberrações do comunismo soviético e fazer as mais duras críticas – e olha que naquela época a KGB não brincava em serviço e tinha agentes infiltrados por todos os lados.

Francis (1930-1997) – e já escrevi sobre isso em meu livro A Filosofia do Fracasso: ensaios antirrevolucionários (2020) – chegou a ser preso durante o regime militar no Brasil. Trotskista de carteirinha, apaixonado por arte, sobretudo por livros e pela escrita, migrou para Nova Iorque e se rendeu ao capitalismo. O contraste de um país terceiro-mundista como o Brasil com os Estados Unidos o fez refletir e mudar de lado. Passou a ser um liberal na economia e grande defensor das privatizações, sobretudo da Petrobras. Morreu cedo e deixou saudades, mas também deixou um exemplo de sobriedade político-ideológica e cultural com sua conversão de pensamento.

Cito esses três expoentes intelectuais bem distintos como exemplos de que mudar é possível e ser idiota a vida inteira é burrice. Parece pleonasmo, mas não é. Isso vale tanto para revolucionários marxistas como para o próprio Brasil, que é amarrado há quase um século por uma herança comunista deixada por Prestes (1898-1990), e varguista, com uma cultura de paternalismo, patrimonialismo e outros ismos. O certo é que mudar é preciso. O Brasil precisa sair do buraco e as reformas econômicas são um dos caminhos. Escrevo “um dos” porque ainda há muito a ser feito no campo cultural. Isso também vale para essa nova direita que surge, que às vezes vive em bolhas e não enxerga meio palmo à frente. A prometida mudança na educação não ocorreu. Minar universidades e escolas com reacionários talvez não seja o melhor antídoto contra os doutrinadores ideológicos marxistas que vivem como carrapatos sugando o sangue nas universidades e no ensino básico. Ou seja, a ocupação de espaços como resposta ao aparelhamento gramscista deve ser natural, e não com a imposição de uma fanática direita de polo-invertido.

Dostoiévski, Orwell e Francis deram exemplo: mudaram! Observemos que viveram em períodos bem mais nebulosos em termos de liberdades. Alguns, em pleno 2020, com tantos exemplos históricos de cerceamento às liberdades, ainda flertam com o socialismo; outros não se rotulam como revolucionários, mas infelizmente são engolidos pela Síndrome de Estocolmo e se rendem à imposição do Estado aos cidadãos – e os altos impostos são um exemplo. Não acredito em anarcocapitalismo, o que para mim mais parece um formato de mundo Mad Max. Creio num Estado mínimo e eficiente, com impostos proporcionais ao tamanho dessa máquina pequena e, como disse, eficiente. Porém, quanto ao modelo político-tributário do Brasil, não preciso fazer uso de eufemismo politicamente correto para definir: somos reféns de um Estado que impõe impostos extorsivos que equivalem a um estupro. Isso mesmo: o Estado não pergunta se você quer ou não pagar imposto. É na base da força, da imposição – quase como no romance 1984, de Orwell. Mesmo assim, poucos nos dias atuais, infelizmente, são os que se levantam e protestam contra os impostos. Assim, atestam o que escrevi acima: a maioria dos brasileiros foi engolida pela Síndrome de Estocolmo; mas aí já vamos para outra rumo nesta prosa…

Para findar, que a catarata ideológica não te cegue, caro leitor. Lembre-se de Doistoiévski, de Orwell e de Francis. Homens que sobrepuseram o intelecto à paixão – pois pensar um pouco, às vezes, faz bem. No caso específico dos três autores abordados neste pequeno ensaio, descortinou-se o mundo, pois o socialismo, como definiu Winston Churchill (1874-1965), é a crença na ignorância.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).