Divide et impera

ROMA

Eis a tática romana quando se tenta conquistar um vasto território: Divide et Impera, isto é, Dividir e Conquistar. E, em termos políticos e culturais, esta é a mesma ação da esquerda, quando quer ter o poder. Dividir a sociedade em classes, ou até mesmo esvaziar o conceito de classe para todo e qualquer grupo se denominar uma “classe”, seja pela preferência sexual, filosófica, etnia, etc.

Dividir e Conquistar” é a melhor tática, se existe alguma pretensão de poder. Assim, não há união e até mesmo os mais tradicionais grupos se veem divididos, e a forma de se chegar ao domínio é quase que garantida – abalando as estruturas sociais indiscriminadamente, não dependendo de uma mínima coerência para a montagem dessa tal divisão de classes imposta[1] para dividir e conquistar.

Notando ações esquerdistas, sociológica e politicamente, o discurso à esquerda se defende de maneira curiosa, o que denuncia a tática de divisão e disseminação do ódio. Quem estuda pelo “ciência sem fronteiras”, por exemplo, está inibido de fazer uma crítica ao governo, caso ele seja de esquerda, ou até mesmo está proibido (dada a resposta sempre irônica e maldosa) de ser algo que não de esquerda.

Analisemos os exemplos: os protestos do dia 15/03/2015 causaram uma reação totalmente irracional e movida por paixões platônicas por parte de esquerdistas. Agressões racistas, classicistas e vitimistas foram endêmicas em toda a resposta esquerdista. “Brados” como “a senzala não foi para a rua”, ou “encontre um negro nessa foto”, foram virais nas redes sociais – em grupos e páginas de esquerda.

De onde isso vem? Essa hipocrisia e cinismo são característicos de movimentos revolucionários até mesmo antes de Marx ter uma estrondosa influência na mentalidade de esquerda no século XIX. Desde a Revolução Francesa, a inépcia e a falta de textura em lances argumentativos caracterizaram a esquerda. Os revolucionários franceses tomaram as terras da Igreja, por exemplo, e o fizeram indiscriminadamente, sem levar em conta a lei, o trabalho da mesma Igreja e, até mesmo, o fato de que territórios religiosos pagavam impostos indiretos de transação e que terras recém-anexadas pagavam um tributo ao Rei. O mesmo ocorre na questão econômica: os revolucionários estavam raivosos contra as medidas econômicas da França adotadas pelo Antigo Regime. Vejamos o caso do ministro das finanças do Reino, Jacques Necker, que é um exemplo claro da incapacidade do discurso e do movimento esquerdista ter coesão e honestidade interna – Burke, que era contemporâneo, aponta tal fator de maneira singular.

 

O Sr. Necker, no orçamento que apresentou às Ordens reunidas em Versalhes, fez uma exposição detalhada da situação da nação francesa.

Se lhe dermos crédito, não era necessário recorrer a quaisquer novas imposições que fossem, para deixar as receitas da França equilibradas com suas despesas. Ele declarou os encargos permanentes de todas as categorias, incluindo os juros de um novo empréstimo de quatro milhões, em 531.444.000 livres; a renda fixa em 475.294.00, fazendo o déficit ser de 56.150.000, ou quase 2.200.000 esterlinas. Mas, para equilibra-lo, ele apresentou poupança e aumentos de receita (considerados como inteiramente certos) de bem mais do que o total desse déficit; e conclui com estas palavras enfáticas (p. 39): ‘Quel pays, Messieurs, que celui, ou sans impôts et avec de simples objêts inapperçus, on peut faire disparoîte in déficit qui a fait tant de bruit em Europe’. Quanto ao reembolso, o abatimento da dívida e os outros grandes objetivos de crédito público e acordo político indicados no discurso do Sr. Necker, sem dúvida poderiam ser levados em consideração, mas uma taxação muito moderada e proporcional sobre os cidadãos sem distinção teria acudido a todos eles na mais plena medida de sua necessidade.

Se essa exposição do Mons. Necker era falsa, então a Assembleia é culpada no grau mais elevado por ter forçado o rei a aceitar como seu ministro, e depois da deposição do rei, por ter empregado como ministro deles, um homem que foi capaz de abusar tão notoriamente da confiança de seu senhor, e da deles próprios; e também em um assunto da mais alta importância, e diretamente pertinente à sua função particular. Mas, se a exposição foi exata (como, tendo sempre, tal como os senhores, concebido um alto grau de respeito pelo Sr. Necker, não tenho dúvida que foi), então o que se pode dizer em favor dos que, em vez de uma contribuição moderada, razoável e geral, a sangue-frio, e sem nenhuma necessidade que os impelisse, recorreram a um confisco parcial e cruel?”[2].

 

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A contradição e a falta de responsabilidade com o próprio discurso são propriedades notórias neste caso. A Assembleia, antes da deposição do Rei, agia sem coerência, munida de irracionalidade e imprudência. Não é atoa que de tais discursos e incoerências, brotou o Terror francês, imbuído de raiva e intolerância sem precedentes – tratando-se de política.

Não se pode fugir da realidade e das consequências de suas ações. Têm-se as melhores paixões para se lutar em prol do oprimido, do mais fraco e do pobre, mas sem a devida lógica e responsabilidade, fora a decência e ciência nas ideias, nada pode progredir, apenas ir para um ponto pior do que o anterior; e na Revolução Francesa assim foi. O episódio da questão financeira da França é apenas um dos inúmeros exemplos que podem ser tirados da catastrófica Revolução, mas foi posto em destaque apenas para fins demonstrativos.

Tais incoerências, tolices e cegueiras, por conta de uma ideologia, são um mal que se agarrou à esquerda desde o seu nascimento; por mais que hoje a esquerda seja um constructo que deve muito mais à filosofia de Hegel que aos revolucionários franceses, tal característica se manteve conservada e, infelizmente, sempre viva. Um revolucionário que comanda uma revolução (um Lenin, ou Stalin da vida) por meio das armas trata de separar o povo com discursos quentes e viciantes: agora não há mais russos, por exemplo; há a burguesia e o proletariado, os oprimidos e opressores, e como a elite opressora é responsável por todo mal social existente, ela deve ser eliminada a todo custo. Para uma guerra civil desta extensão, não há como um grupo revolucionário sair vitorioso sem antes instaurar o ódio e criar a separação de classes – ou agrava-la no imaginário popular de maneira proposital. Nada de medidas brandas e que procurem ter coesão e ordem. Ordem é uma palavra quase que criminosa. Não pode haver alguma coesão social que não seja em prol do mais fraco e em detrimento das elites. Mas isso só ocorre porque antes, com os sofistas e pensadores à esquerda, as noções de causa e consequência foram inibidas, a moral relativizada e os valores combatidos em prol de algo mais moderno e igual.

É de se suspeitar se as palavras igualdade e modernidade não foram as mais facínoras do mundo. É evidente que em prol de qualquer causa, infelizmente, se possa cometer abusos criminosos, mas quando é assim normalmente as causas foram corrompidas e despidas de várias convicções sérias e humanas; já na esquerda ocorre um mal no íntimo do “movimento”.

No esquerdismo, não se trata de algo que “invada”, como consequência, as noções do indivíduo, pois a maioria dos esquerdistas que apoiam medidas progressistas que visam “melhorar o mundo” realmente têm tal vontade de fazer tal bem, porém não notam, na maioria dos casos, até mesmo em se considerando a presença de esquerdas civilizadas, o ímpeto destrutivo e subversivo ainda existente. Tal fato ocorre pela inclinação de projetar ideias que mudem o mundo para melhor, mas sem uma boa análise do mundo. Quer se mudar o mundo, fazendo o mundo algo errado, subvertendo a realidade. Mas qual seria o problema de querer melhorar o mundo?

O mundo é muito complexo para existir um movimento que vise melhorá-lo. A começar por culturas ou discursos contrários às nossas noções de melhoria: não seria nem uma melhora para todos – sendo de qualquer classe – se as ideias esquerdistas se concretizassem. Logo, isso já não abarcaria toda a humanidade. A pluralidade de costumes também é um empecilho. Com diferentes culturas no globo, é muito difícil acreditar que algo, tendo um caráter abstrato e universal, possa se aplicar em todas, e de maneira ativa e benéfica, que envolva toda a sociedade em uma mudança intensiva e que renegue praticamente todas as suas tradições e cosmovisões. De fato, não é à toa que as piores ditaduras da Terra se deram por conta de tais discursos progressistas, pois a falta de consistência com a realidade é endêmica.

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Mesmo com as mudanças políticas causadas pela filosofia hegeliana – estas que “causaram” a “filosofia” marxista –, a conservação da inépcia é evidente, pois nos vários movimentos à esquerda, o caráter centralizador político é notório.

Um direitista político, um liberal, deseja que a sociedade se torne mais autônoma. Não apenas o mercado precisa de um Estado Mínimo, mas todo o corpo social também. O Estado, para um liberal, é um perigo que sempre ronda os homens; é o Estado que detém os poderes legislativos, judiciais e executivos, logo, pode-se criar facilmente abusos para com o corpo social, mas um esquerdista, mesmo um social democrata, sempre é a favor de mais peso e poderes ao Estado. Apenas com o poder regulamentador do Estado é possível fazer as mudanças precisas. O grau de esquerdismo politico aumenta com o grau de regulamentação que se propõe.

Para reterem poder, dando mais amostras da inépcia de suas crenças ideológicas, é necessário desarticular a sociedade anterior. Só isso, em um alto nível de esquerdismo, já se caracteriza como um crime. Em todas as revoluções à esquerda, ou em tomadas democráticas de poder, a esquerda desmembra as instituições sociais e as convenções anteriores. Criam um discurso de “bom” e “mau” e tiram tudo dos que consideram maus, criando mais concentração de poder em suas mãos. Stalin e Lenin fizeram isso de uma forma bélica e sanguinária, porém o Dividir e Conquistar mudou.

Não se divide mais por meios bélicos um povo. O esquerdismo mais ortodoxo, provindo de Marx e os primeiros ditadores de esquerda, se mostrou falho para o domínio dos “oprimidos”.

Gays, mulheres, negros, minorias: todos utilizados para separar a sociedade e imperar sobre ela. Já se evita uma incursão demasiada violenta para tomar a mentalidade e a política de nações, preferindo-se identificar diferenças sociais, apontando culpados para fenômenos culturais que têm origens distantes (suficientemente longínquas para não fazer o mínimo de sentido julgá-las ou condená-las judicialmente) e diversas, criando rótulos, genéricos e, cada vez mais inchando sua militância com discursos e ações violentas. No final, a sociedade fica apenas mais dividida, mais rançosa consigo mesma, deixando, até mesmo de identificar-se como uma unidade para se autodeclarar uma pluralidade – esta que possui abismos intransponíveis de uma “classe” para outra. Gays contra heterossexuais, ateus contra religiosos, negros contra brancos, pobres contra ricos… Diferenças e preconceitos que já existiam, mas de modo “natural” e comum, são cada vez mais inflados por conta do vitimismo.

O vitimismo traz para todo grupo autointitulado vítima da sociedade um caráter máximo de autoridade e pureza em relação ao todo. O pensamento de que “não existe racismo reverso”, isto é, de negros contra brancos, por conta de diferenças históricas e econômicas, simplesmente impossibilita, no âmago do argumento, a existência (em qualquer instância) de um negro que odeie brancos pelo fato de serem brancos. Não importam as motivações de um indivíduo, a violência que pratica; o que for…. Ele ganhou um status quo, ou deveria ganhar, segundo o movimento das minorias ou que se auto intitula defensor dos direitos humanos; logo, um negro que estupra uma branca e que só fez isso por conta de a mulher ser branca, não seria racista.

Mede-se o grau de crime, ofensas, machismo, racismo, homofobia, sendo que eles, e apenas eles, podem ter a régua de medição.

Assim, não pela união e luta do proletariado e campesinato[3], dividem a sociedade por suas diferenças, compram o problema de minorias e setores que eram realmente discriminados, mas invertem o esquema e as tornam suprassumos da humanidade. Monopolizam a virtude, a caridade e o desejo de fazer o bem para, no processo, criarem uma massa rancorosa e repleta de ódio que os apoiará politicamente. O populismo das minorias é uma estratégia brilhante que chega a levar seus defensores à sociopatia em pouco tempo. Criam cabrestos contra discursos notoriamente autoritários[4] (quando não totalitários), invertem conceitos bem quistos e formulados, destroem a imagem de instituições que tudo deram para melhorar a civilização.

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Divide et Impera… Mas as coisas não são tão simples.

A reação à tática da esquerda, com relação à cultura, é clara atualmente. Não mais a esquerda detém a hegemonia nas universidades, embora ela ainda continue sendo maioria esmagadora, em termos de discurso e militância. A direita, isto é: liberais e conservadores, ascendeu dentro do meio acadêmico e midiático. Por mais que na velha mídia ainda não exista espaço para a direita (não sem a boa e velha edição tendenciosa), a internet tem se mostrado decisiva para o que ocorre no Brasil atualmente. As manifestações de Março e Abril (de 2015) mostraram isso muito bem; não mais bandeiras vermelhas imperam nas ruas, mas sim a bandeira do Brasil.

Os grandes culpados, em certo sentido, pelo levante da direita no Brasil foram os próprios militantes. Militantes gays, feministas, comunistas, etc., não conseguem esconder a raiva que permeia o centro de suas crenças e ideologias. Feministas ficam nuas em público, invadem igrejas, xingam as famílias e os homens, matam seus filhos; gayzistas promovem atos que a sociedade repugna em público, e de maneira ofensiva, como os “beijaços” e as paradas gays, onde até mesmo sexo à luz do dia ocorre; comunistas batem palmas quando terras são invadidas, se calam para a opressão e os crimes de seus aliados, querem o impossível e fazem o possível para tê-lo. Tudo isso, de fato, tanto ódio, tantas estratégias grotescas e vis, foram um tiro pela culatra.

A população não aceita mais tanta agressão. O “Dividir e Conquistar” acabou por se autodenunciar. Os “escondidos” esforços para criar mais e mais luta de classes estão notórios agora. O futuro, pelo visto, não é um bom lugar para a esquerda revolucionária, seja ela mais ortodoxa, ou não.

[1] Negros se tornam vítimas, por exemplo. Ser branco é errado quando se tem uma opinião contrária da esquerda; se um indivíduo for cristão, conservador, heterossexual ou rico, tais características denotam falta de “virtude” quando se tenta ter um debate racional com a esquerda – a não ser, claro, se os ricos, brancos, “cristãos” e heterossexuais forem iluminados por São Marx, padroeiro dos tolos.

[2] BURKE, Edmund. Reflexões sobre a Revolução na França. 1ª ed., Rio de Janeiro: Topbooks, 2012, p. 301-302.

[3] Para aqueles que ainda insistem em se surpreender ou, até mesmo, achincalhar e escarnecer da influência, e até mesmo dependência, do pensamento de esquerda para com movimentos gayzistas, feministas, o movimento negro e afins, recomendo que estudem a obra e vida de personagens como György Lukács, H. Marcuse, Sartre, Simone de Beauvoir, A. Gramsci, etc – fora os últimos escritos do próprio Marx e de Angels.

[4] Basta ver o tipo de proposta que tentaram, a todo custo, enfiar goela abaixo da nação: http://www.plc122.com.br/plc122-versao-de-iara-bernardi/#axzz3XKCQqm1y – e mantendo atenção, principalmente, no Artigo 16º, parágrafo 5ª, onde se criminaliza opiniões filosóficas contrárias. Qualquer um que não veja problemas claros nesses dos casos, ou é um ignorante e tem cognição baixa, ou um desonesto intelectual. Mesmo que tal proposta tenha mudado, dar créditos ou méritos para quem as defendeu, fora espaços para transmitir suas opiniões, é uma atitude mentalmente pueril.

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Hiago Rebello

Hiago Rebello

Graduando em História, Licenciatura, pela Universidade Federal Fluminense, colunista do Instituto Liberal.