Dia Internacional da Liberdade de Imprensa – Entrevista com Paulo Eduardo Martins

“Não há liberdade de imprensa sem liberdade de mercado”, Paulo Martins

foto.Paulo1Instituto Liberal: Como comentarista, você costuma se posicionar a favor das liberdades individuais, com convicção e de forma direta, ainda que isso seja a custo posicionamentos não muito populares, como fim do SUS e a privatização de todas as estatais. Você já sofreu algum tipo de pressão, ou censura por isso?

Paulo Martins: Eu já sofri pressão e censura, mas não da direção do veículo que eu trabalho. Mas sim de colegas, pois a maioria dos jornalistas não tem uma mentalidade liberal. Em geral, a mentalidade do meio jornalístico é de esquerda, bem apaixonada por estatais, por intervenções. Muitos acham estranho, quando são feitas defesas como a da privatização completa, um liberalismo pleno e isso causa um certo choque. Já o pessoal da militância política, tende a reagir por não suportar opiniões divergentes. Ou seja, pode ocorrer uma pressão de público e também dos colegas, por parte da direção de aonde eu trabalho, ao menos, isso não aconteceu.

 

IL: No Brasil, poderosos homens públicos, propositalmente, confundem o público com o privado e transformam estatais num quintal de seus respectivos partidos. Em relação à imprensa, você acha que tal jogo de interesses ou aparelhamento está envolto a esse setor? Isso acontece? De qual forma?

Paulo Martins: Isso influencia. O aparelhamento da imprensa ocorre de outra forma, falo do aparelhamento por intermédio de partidos, não vou nem entrar no mérito de aparelhamento cultural, que a esquerda faz muito bem. O caso partidário se dá quando uma determinada agremiação assume o poder e usa as estatais e suas verbas publicitárias para influenciar o veículo. Hoje, no Brasil, com tantas estatais, tantas campanhas educativas o governo do Estado é o maior anunciante do mercado. Como é que um veículo de alto custo, que é a televisão, sobrevive sem o maior anunciante do mercado? Fica muito difícil. Muitas vezes, o poder de ser cliente é usado para causar constrangimento, impor pressão e, de certa forma, direcionar os veículos para o seu interesse. Eu costumo falar quando sou convidado a palestrar que ‘não há liberdade de imprensa sem economia Liberal’. Não tem como.

IL: Por quê?

Paulo Martins: Porque sempre vai haver esta interferência financeira ou, no nosso caso, de interferência legal, pois o Estado é poder regulador. Se você quiser mudar uma antena de lugar, você precisa da autorização do governo. Renovação de concessão, ou conseguir a própria concessão… Então, é muito forte a capacidade de um governo intervir num veículo como TV ou rádio. Desta forma, ou partido que assume o poder é extremamente virtuoso, entende do jogo e aceita críticas tem uma ética forte não faz este tipo de operação, ou a liberdade fica comprometida é o caso que a gente vive hoje mediante este poder do PT que é um partido nefasto e totalitário.

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IL: Isso que você comentou reflete bem um episódio recente que resultou na extinção da bancada de comentários de um Telejornal de âmbito nacional, após uma suporta reunião entre o Ministro Thomas Traumann e um diretor da companhia. A forma que estão organizados os anúncios no Brasil (essencialmente as verbas públicas, que estão de forma centralizada), contribuem ou facilitam a criação de instrumentos de controle do conteúdo editorial?

Paulo Martins: Não é que esse cenário contribua ou facilite, a forma com que isso foi organizado é para isso. Está é a finalidade! Centralizaram-se as verbas, todas, para que se pudesse obter o controle do processo, controlarem os veículos. Eu não tenho certeza como é que está agora, mas, pelo menos, há alguns anos, estavam publicando uma “coluna do Presidente”, paga, em todos os pequenos jornais do país praticamente. .Jornais de bairro são veículos muito sensíveis financeiramente, são frágeis, então, o governo ‘salva o dono do veículo’ e o deixa amarrado. O objetivo é este, não é um acidente esta centralização das verbas.

 

IL: A Presidente tem feito um alto número de pronunciamentos oficiais. No último, ela afirmou que os críticos do aumento do Salário Mínimo estão contra o trabalhador, ou que querem destruir a imagem da Petrobrás. Isso é adequado? De alguma forma, também, estes posicionamentos  ameaçam à liberdade de imprensa ou demais liberdades em geral?

Paulo Martins: Isso, primeiramente, confunde o ouvinte, o público do próprio veículo. Segundo que é constrangedor, a dependência econômica do Estado é muito grande, ela empurra uma relação de cliente, principalmente em jornais impressos que não se consegue ter uma regulação, tudo é um método. Este maniqueísmo que eles fazem acaba influenciando na postura das pessoas, do leitor, dos colegas de imprensa do ambiente, em si. A intenção deles é indicar que se você diverge do governo, você tem interesses espúrios, é contra os pobres, contra alguém, ou seja, você é um canalha. E isso tudo forma uma ambiente horroroso, um ambiente que temos hoje. Para a direita ‘sair da casinha’ foi difícil, porque todo mundo tinha medo. Agora que um começa a sair, outros se encorajam. Mas, um dos pontos que inibiram isso, foi este ambiente de terror, o que você citou anteriormente, estas relações com os veículos são questões essenciais neste clima todo.

 

IL: Sobre estas intenções que você indicou, em um quadro de reeleição do PT, por exemplo, você enxerga a retomada próxima do dito Controle Social da mídia, tão defendida pelo ex-ministro e atual conselheiro do Instituto Lula, Franklin Martins? Quais consequências ela traria para a imprensa e para o país?

Paulo Martins: Caso o PT permaneça por mais tempo, isso vai acontecer. Eles vão conseguir isso, vão alugar o congresso de outra maneira para aprovar este projeto. Nos documentos deles já está previsto no Plano Nacional de Direito humanos a constituição de Conselhos com poder de intervenção nos veículos. São formas de tentarem atrapalhar diretamente a administração independente dos veículos e as consequências serão nefastas. Ter um governo com capacidade plena de intervenção é evidente que o objetivo é que só sejam publicadas informações que interessem a esse respectivo governo para contarem a história que preferirem, a versão do sucesso dos programas do governo. Cria-se, assim, um admirável mundo novo petista e um dos pontos fundamentais para o estabelecimento de uma ditadura é controle de informações e o objetivo deles é esse. Acredito que será dado este passo, caso o PT permaneça no poder e o Brasil vai se tornar uma ditadura petista, um tanto ‘branca’ ou branda, mas será. Quem for amigo do regime, será usado por um tempo e quem não for já será descartado logo de início. Temos que dizer logo as coisas como elas são: o PT está constituindo uma ditadura no País.

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IL: O que você disse claramente e de forma incisiva sobre ameaças à democracia, o vem fazendo por meio de críticas ao Foro de São Paulo e ou ao Mensalão, classificando-o não, apenas, como escândalo de desvio de dinheiro, mas apontando que o uso ilegal da verba pública foi para ingerência do Poder Executivo em outro Poder, com ênfase a um caráter de golpe de Estado. Muitos afirmam que esses pontos de vista não são verdadeiros e alguns colegas de profissão chegam até ridicularizar estes seus posicionamentos. Por quê?

Paulo Martins: Uma parte tem uma organização para fazer isto mesmo e faz de uma forma orquestrada, estes são os cretinos. Aí tem os outros dois perfis: os covardes e os ignorantes. Quando não se tem coragem para dizer ou se desconhece tenta ridicularizar, diminuir o feito alheio e não se carimbar como um ignorante ou um covarde, é, também, uma saída para alguns. A ignorância é muito forte neste meio, principalmente, em questões como o Foro de São Paulo, noto um desconhecimento disso. Os cretinos a gente sabe quem são, a maioria sabe. Mas o resto, em geral, está envolto à ignorância e à covardia de buscar saber e quando acaba sabendo não compra a briga, fica constrangido.

 

IL: Os ditadores compreenderam que para manterem uma sociedade sob controle é preciso ter apoio popular e, para isso, disfarçam a sede de poder de causas nobres. Um exemplo recente foi o caso do assassinato de um dançarino que motivou a defesa o fim das UPP´s. A própria ONU, também, defendeu a unificação, a desmilitarização da Polícia, causas que, segundo suas análises, beneficiariam os traficantes.  Como o profissional de imprensa deve agir para elucidar o público nestas situações? Porque é um impasse: de um lado, o público que não tem acesso a estes interesses escusos e de outro, líderes que são exímios profissionais do discurso, da comoção popular… Como agir?

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Paulo Martins: Primeiro ele tem que buscar conhecimento, não pode ser ignorante, porque senão acaba sendo vítima do golpe também. Entender que há um método, um processo, aí é a busca de informação, a apuração a responsabilidade, escolher se vai fazer parte deste jogo ou se há um compromisso com a ética, com a profissão. Mas, sobretudo, tem que ter e buscar o conhecimento. Vejo vários colegas que acabam sendo instrumentalizados. Sem o conhecimento é impossível deixar de fazer parte do que ‘eles’ querem. Está é a chave do negócio: conhecer e não estranhar falar algo de diferente, procurar ter rigor e buscar as informações, não entrar em ‘ondas’, se entrar ele fica no máximo igual aos outro e o jornalista não precisa ter compromisso com onda alguma. 

 

IL: Dentre tudo que você critica qual a maior ameaça para as liberdades individuais?

Paulo Martins: A maior ameaça para o país hoje é o espírito do brasileiro que é permeado por ignorância e covardia que o faz omisso, que o faz ridicularizar quem está brigando sem querer saber o que está acontecendo. Essa é a maior ameaça para o Brasil porque quando já estiver num ponto sem volta, aí já não vai adiantar fazer nada. Esse, para mim, é o principal problema.

 

IL: Isso tem a ver com aquilo que você chamou, em entrevista ao Bruno Garschagen do Mises Brasil, de “superioridade moral do ‘estatismo’”?

Paulo Martins: Isso também é parte, o fato de não procurar saber o faz aceitar a corrente que predomina e a que predomina é esta, que cola a superioridade moral da ação do Estado e todo mundo embarca. Todo mundo sofrendo com a porcaria do serviço público se você fala em privatização, criticam de antemão. É algo irracional, automatismo que muitos nem notam, este é o grande problema que a gente tem.

 

IL: Quer fazer alguma consideração final?

Paulo Martins: Quero ressaltar a iniciativa de vocês os Instituto Liberal, o Mises Brasil, todos os Think Thanks que estão em atividade e que estão fazendo um trabalho excelente, que deveríamos ter feito há muito tempo. Só com trabalho, acesso à informação, a estes autores que vocês divulgam, as obras, os artigos é que pode acontecer a mudança cultural que a gente tanto precisa. Estamos no caminho, o problema é que estamos bem no início do caminho, enquanto que eles já estão [esquerda] bem avançados.

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Comentários

  1. Concordo com tudo o que foi dito. Tenho estudado bastante.

    Conte comigo!

  2. Entrevista bem feita. É necessário que se alerte alguns bem intencionados quanto ao perigo da estatização excessiva
    feita pelo Governo.

  3. O fato de não estarmos discutindo assuntos atuais e de extrema necessidade para nossa soberania, autonomia, sobrevivência, estabilidade social, políticas energéticas, entre outras coisas e ao invés continuamos lidando com um debate medieval infindo de mençalões, esquemas de enriquecimento ilícitos, aparvalhamento de estado, populismo, e por aí vai… , deixa clara a falta de escrúpulos e lepra moral do estado constituído. Nossa tarefa de cidadão é de fato um caso perdido, uma missão impossível assim com nos encontramos no presente momento. Tudo isso pode piorar consideravelmente se levarmos em conta que pode acabar uma liberdade de expressão sem precedentes em nossa curta história. Não tenho uma opinião formada sobe seus interesses ou caráter, senhor Paulo Martins, porém o que temos em jogo nesse momento é muito maior do que apenas liberdade de expressão, e de forma resumida precisamos desviar a nação desse curso o qual tomamos quase que em piloto automático de decisões estapafúrdias. Não temos educação suficiente para isso, então só nos resta a liberdade de expressão como ultimo recurso, até mesmo como instinto. Grite alto e cada vez mais forte pois suas palavras tem conteúdo e podem ter ressonância. Precisamos de direção e tem que ser em consenso. Por isso quanto mais clara a mensagem maior será a mobilização.