De cada um, conforme sua capacidade; para cada um, conforme sua necessidade

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Trechos do desabafo de um mendigo, ex-funcionário da Fábrica de Motores Século XX:

“Ninguém sabia como o plano ia funcionar, mas cada um achava que o outro sabia. E quem tinha dúvida se sentia culpado e não dizia nada, porque, do jeito que falavam, quem fosse contra era desumano e assassino de criancinhas”.

Como funcionou o plano.

“É como derramar água dentro de um tanque em que há um cano no fundo puxando mais água que entra, e cada balde que a senhora derrama lá dentro o cano alarga mais um bocado, e quanto mais a senhora trabalha, mais exigem da senhora, e no fim a senhora está despejando baldes 40 horas por dia, depois 56, para o jantar do vizinho, para a operação da mulher dele, para o sarampo do filho dele, para a cadeira de rodas da mãe dele, para a camisa do tio dele, para a escola do sobrinho dele, para o bebê do vizinho, para o bebê que ainda vai nascer, para o mundo à sua volta; tudo é para eles, desde as fraldas até as dentaduras, e só o trabalho é seu, trabalhar da hora em que o sol nasce até o escurecer, mês após mês, ano após ano, ganhando só o suor durante toda a sua vida, sem descansar, sem esperança, sem fim… De cada um, conforme sua capacidade; para cada um, conforme sua necessidade”.

(…)

“…então decidiram que ninguém tinha o direito de julgar suas próprias capacidades. Tudo era resolvido na base da votação. Sim senhora, tudo era votado em assembleias duas vezes por ano. (…) Bastou a primeira (assembleia) para a gente descobrir que todos tinham se transformado em mendigos – mendigos esfarrapados, humilhados, todos nós, porque nenhum homem podia dizer que fazia jus a seu trabalho, não tinha direitos nem fazia jus a nada, não era dono de seu trabalho, o trabalho pertencia à ‘família’, e ela tinha que pedir em público que atendessem as suas necessidades, como qualquer parasita, enumerando todos os seus problemas, até os remendos na calça e os resfriados da esposa, na esperança de que a ‘família’ lhe jogasse uma esmola. O jeito era chorar a miséria, porque era a sua miséria, e não o seu trabalho, que agora era a moeda corrente de lá. Assim, a coisa virou um concurso de misérias disputado por 6 mil pedintes, cada um chorando mais miséria que o outro”.

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(…)

“Escolhiam no voto quais eram os melhores trabalhadores, e esses eram condenados a trabalhar mais, fazer hora extra todas as noites durante os seis meses seguintes. E sem ganhar nada mais, porque a gente ganhava não por tempo nem por trabalho, mas sim conforme a necessidade. (…) Começamos a esconder toda a nossa capacidade, trabalhar mais devagar, ficar de olho para ter certeza de que a gente não trabalhava mais depressa nem melhor do que o colega ao nosso lado. Tinha que ser assim, pois a gente sabia que quem desse o melhor de si para a ‘família’ não ganhava elogios nem recompensas, mas castigo”.

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“Não há maneira melhor de destruir um homem do que obrigá-lo a tentar não fazer o melhor de que é capaz, a se esforçar por fazer o pior possível dia após dia. (…) E trabalhar melhor para o quê? A gente sabia que o mínimo para sobrevivência era dado a todo mundo, quer trabalhasse, quer não, a chamada ‘ajuda de custo para moradia e alimentação’, e mais do que isso não se tinha como ganhar, por mais que se esforçasse.

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(…)

“A sua honestidade era como um instrumento nas mãos da desonestidade do próximo. Os honestos pagavam, e os desonestos lucravam. Os honestos perdiam, os desonestos ganhavam. (…) Éramos competentes, nos orgulhávamos do nosso trabalho e éramos funcionários da melhor fábrica do país, para a qual o velho Starnes só contratava a nata dos trabalhadores. Um ano depois da implantação do plano, não havia mais nenhum homem honesto entre nós”.

(…)

“Queriam que trabalhássemos em nome de quê? Do amor por nossos irmãos? Que irmãos? Os parasitas, os sanguessugas que víamos ao redor?”

(…)

“Um começou a espionar o outro, cada um tentando flagrar o outro em alguma mentira sobre suas necessidades, com o intuito de cortar sua ‘ajuda de custo’ na assembleia seguinte. Começaram a surgir delatores, que descobriam o que alguém tinha comprado ás escondidas um peru para a família num domingo qualquer, provavelmente com dinheiro que ganhara no jogo. Começamos a nos meter na vida do outro”.

(…)

“(Na última assembleia) Fez um discurso curto, vil e insolente dizendo que o plano havia fracassado porque o restante do país não aceitava que uma única comunidade poderia ter sucesso no meio de um mundo egoísta e ganancioso”.

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A Revolta de Atlas (volume II), de Ayn Rand

Nesta semana em que se completa 110 anos do nascimento da escritora, releio seu livro mais famoso e me vejo novamente assombrado pela realidade de que, depois de todas as comprovações históricas, depois de todos os testemunhos, depois de toda a literatura sobre as consequências das “boas intenções” socialistas, ainda temos no mundo regimes que impõem as mesmas humilhações e desgraças a seus povos − ao extremo, na Coréia do Norte, um pouco menos em Cuba. Mas a maior assombração é, sem dúvida, saber que tamanho absurdo é sustentado por pessoas que vivem e gozam (gozam!) no colo do capitalismo. Pessoas que, em vez de demonstrarem indignação diante da escravização dos outros, sentem-se ideologicamente excitadas, motivadas a ruminar os discursos mais cretinos, a apoiar os líderes mais canalhas e a empunhar bandeiras da cor do sangue drenado pelas “boas intenções” socialistas.

Quanto desgosto Ayn Rand sentiria se soubesse que, em pleno século XXI, o marxismo ecoa… e alimenta os mesmos tipos de vermes de sua época.

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