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Cuidado com o autocuidado

Parece-me surreal o que está acontecendo no mundo acadêmico relacionado com gestão e negócios e, similarmente, em algumas empresas que “compram” tais abordagens pós-modernas. Não encontro outra palavra para descrever a situação atual. Abra, por exemplo, uma Harvard Business Review, e encontrarás quase que a totalidade das edições com artigos sobre diversidade, racismo, autocuidado, inclusão, layout “diferenciado” e espaços para colaboradores, como chefes devem tratar pessoas, e assim por diante.

Honestamente, fico em dúvida se estou lendo uma revista de negócios ou se desapercebida e equivocadamente abri uma revista de psicologia e/ou de psiquiatra. Inacreditável! Para sujeitos desavisados e/ou inexperientes, aparenta que o espaço organizacional transformou-se, de fato, em um consultório de terapeuta.

Evidente que o tema da diversidade é importante, que cuidar dos funcionários é vital, que construir relacionamentos para forjar comprometimento e confiança é essencial, que aumentar a participação de mulheres é muito desejável, enfim. Contudo, o que me parece horripilante é a ênfase nessas questões, em especial, em diversidade e em autocuidado, parecendo que a função precípua de uma organização é a “bondosa” tarefa de realizar inclusão social.

Não, meus senhores, a empresa existe para criar um valor diferenciado, inovando sistematicamente esse valor, e lucrar a partir deste, por meio da satisfação contínua dos desejos e das necessidades dos clientes. Na verdade, toda a sua cadeia de suprimentos deve estar focada e integrada no fornecimento deste pacote de valor superior. Lucratividade superior é uma condição sine qua non.

Conceitos – e mais importante ainda – práticas, que são mais antigas que andar para frente, são apresentadas agora com novas roupagens, sobrevalorizadas, rebuscadas com psicologias “pop”, glamorizadas, significando um grau de relevância que, a meu juízo, não somente retira o foco do principal, como, de fato, atrapalha a consecução de rentabilidade superior. Esse modismo pode “matar”. O “cuidado” com os funcionários sempre foi básico, qualquer pequeno ou médio empreendedor sabe disso.

Francamente, um aspecto que me parece central refere-se a contratação de pessoas que estejam alinhadas com o tipo de negócio em questão, em termos de habilidades e de competências, e que sejam aderentes ao modelo de negócios da organização. Treinar pessoas, definir responsabilidades, incentivar um maior envolvimento e participação dos funcionários, envolvê-los nos objetivos estratégicos, dar feedback e premiar o bom trabalho, bem, todas essas são ações primárias em qualquer negócio.

Porém, agora o “cool”, do momento, é o autocuidado. Todos os funcionários precisam dele! A psicologia “pop” invadiu o portão da fábrica e todos os funcionários sentem-se com necessidades de consideração especial, caso contrário, tadinhos, ficarão traumatizados… Bem, a onda da autogestão já eliminou o nível de gerência, mas caso sua empresa ainda possua esta camada, os seus gestores devem ter o máximo cuidado quanto à forma de abordar os funcionários.

Mesmo quando da necessidade de checar e de cobrar resultados, muita atenção e carinho, pois isso pode desencadear um “problema psicológico” no colaborador. Muita prudência e cuidado para não ferir emoções e suscetibilidades! Senhores, está ficando cada vez mais difícil – terrível – adentrar num ambiente organizacional, é preciso muita circunspecção para “não pisar em ovos”.

A Disneylândia corporativa esquece-se de que as pessoas são, por natureza, diferentes, e que nem todos os indivíduos são tão afáveis e gentis. Só um acadêmico – provavelmente mais jovem, inexperiente – para desconhecer que, na realidade empresarial objetiva, por vezes, o funcionário não terá suas “necessidades” atendidas, e ainda será contrariado em função de algum objetivo ou circunstância organizacional. Além disso, outras vezes, suas necessidades emocionais não serão ouvidas ou consideradas, uma vez que decisões e ações estratégicas necessitarão de uma lógica racional e estritamente técnica.

Nesse mundo do autocuidado empresarial, fico me questionando, surpreso, se as empresas criarão programas e espaços de “bem-estar” para resolver os “problemas” dos funcionários, ou se, pragmaticamente, originarão horários mais flexíveis e remuneração com salários justos? Quanto à diversidade, o negócio está mesmo impressionante! Aqui o foco – equivocado – está na cor e no gênero.

Evidente que a diversidade geral pode agregar criatividade e diferentes visões e experiências, contribuindo para a geração de inovações que podem conduzir a um aumento da lucratividade organizacional. Repito, o foco da empresa não é inclusão social, portanto, funcionários devem ser contratados por suas formações, experiências e contribuições, não por suas meras aparências físicas. Agora, em tempos pandêmicos, li uma “pérola”, desprovida de comprovação cabal.

Uma “especialista” em diversidade, em um artigo da HBR, alega que as mulheres são mais propensas a serem nomeadas para cargos de liderança em empresas com problemas, pois estão mais familiarizadas com a gestão durante a crise, em comparação com os pares do sexo masculino, acostumados a serem escolhidos por suas atribuições “técnicas”.

Fiquei indagando-me se todas as empresas não resolvem “problemas” e se o gênero realmente é aquilo que soluciona tais problemas, ou se de fato não é a competência do gênero em questão o aspecto-chave? Pois é… tenho medo da frequente confusão entre crenças com evidências comprovadas e meras crenças… Essa “especialista” vai além, afirmando que a diversidade traz vantagem competitiva para as organizações. Novamente: gênero ou competência?

Bem, eu decidi que também irei inovar. Na minha próxima pesquisa sobre gestão e negócios, vou investigar nas revistas de medicina e de psicologia. Temas empresariais transformaram-se em diversidade, autocuidado, entre outros relacionados, portanto, irei beber direto da fonte. Ponto!

Alex Pipkin

Alex Pipkin

Doutor em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS. Mestre em Administração - Marketing pelo PPGA/UFRGS Pós-graduado em Comércio Internacional pela FGV/RJ; em Marketing pela ESPM/SP; e em Gestão Empresarial pela PUC/RS. Bacharel em Comércio Exterior e Adm. de Empresas pela Unisinos/RS. Professor em nível de Graduação e Pós-Graduação em diversas universidades. Foi Gerente de Supply Chain da Dana para América do Sul. Foi Diretor de Supply Chain do Grupo Vipal. Conselheiro do Concex, Conselho de Comércio Exterior da FIERGS. Foi Vice-Presidente da FEDERASUL/RS. É sócio da AP Consultores Associados e atua como consultor de empresas. Autor de livros e artigos na área de gestão e negócios.