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Crescimento do consumo e investimento no Brasil entre 1996 – 2018

Com a divulgação dos números do PIB, ganhou espaço uma tese que diz que o crescimento está sendo puxado pelo setor privado. Para defender a tese, tanto o pessoal do governo como analistas de mercado mostram que o crescimento do consumo das famílias e do investimento foi maior que o crescimento do consumo do governo, que encolheu este ano. Quanto à tese tenho pouco a dizer. O que me incomoda é o argumento usado para defender a tese.

De saída, o argumento implica que é a demanda que puxa o PIB, uma tese mais próxima da abordagem keynesiana do que da abordagem de Chicago, onde é a oferta que puxa a demanda. Aqui é preciso tomar cuidado: os termos oferta e demanda se referem a conceitos macroeconômicos. Os conceitos de oferta e demanda, mesmo quando seguidos de agregado, usados em microeconomia são diferentes dos usados em macroeconomia. Logo é perfeitamente possível acreditar que a demanda precede a oferta, em termos microeconômicos, e que a oferta puxa a demanda em termos macroeconômicos. 

Um segundo problema é a confusão entre consumo do governo e tamanho do governo. Nem todo gasto do governo é consumo do governo. Por exemplo, o PIB é calculado como a soma do valor agregado e os impostos (entram apenas os impostos não incluídos no valor da produção e são excluídos os subsídios). Este ano, o valor agregado, que corresponde a cerca de 86% do PIB, aumentou 0,9% e os impostos aumentaram 1,3%. Dito de outra forma, os impostos cresceram mais do que o valor agregado, mesmo com o consumo do governo caindo. A coisa fica ainda mais complicada quando consideramos as estatais, que não entram nas contas nacionais como governo, e o uso de crédito dos bancos públicos para direcionar a produção do setor privado.

Uma terceira questão é que não é novidade alguma que o crescimento do consumo do governo seja menor que o crescimento do consumo das famílias e que o crescimento do investimento. De fato, desde 1996, esse fenômeno ocorreu em 1996, 1997, 2000, 2006, 2007, 2008, 2010, 2011, 2013 e 2018. O crescimento do consumo das famílias foi maior que o crescimento do consumo do governo nesses anos e também em 2005, 2009, 2012, 2014 e 2017, ou seja, em 10 dos 23 anos da amostra o consumo do governo cresceu menos que o investimento e o consumo das famílias e em 15 dos 23 anos o consumo do governo cresceu menos que o consumo das famílias. Em 2004, o crescimento do investimento foi maior que o crescimento do consumo do governo, que foi pouco maior que o crescimento do consumo das famílias. Em apenas sete anos (1998, 1999, 2001, 2002, 2003, 2015 e 2016) o crescimento do consumo do governo foi maior que o crescimento do consumo das famílias e do que o crescimento do investimento. Quatro desses anos foram no governo FHC, apenas dois em governos do PT e o último foi 2016, que começou com a Dilma e terminou com o Temer. A figura abaixo mostra a taxa de crescimento do consumo das famílias, consumo do governo e do investimento entre 1996 e 2018.

O atual governo tem feito um esforço considerável para implementar uma agenda de reformas que aumente o papel do setor privado na produção e no investimento, uma agenda que infelizmente foi abandonada lá por 2006 e foi retomada em meados de 2016 no governo Temer. Os frutos desse esforço ainda vão demorar um bocado para aparecer; entendo que exista uma tentação para mostrar resultados, mas é preciso tomar cuidado. Dizer que o setor privado puxa o crescimento deve estar relacionado à contribuição do setor privado para fazer o bolo e à capacidade do setor privado de escolher o sabor, o tamanho, a forma e o recheio do bolo. O que os números das contas nacionais mostram, quando muito, é que o governo está consumindo uma fatia menor do bolo.

Roberto Ellery

Roberto Ellery

Roberto Ellery, professor de Economia da Universidade de Brasília (UnB), participa de debate sobre as formas de alterar o atual quadro de baixa taxa de investimento agregado no país e os efeitos em longo prazo das políticas de investimento.