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Conselhos de Isócrates a Nicolés, rei do Chipre: o que nossos governantes podem aprender

Em 374 a.C, morreu Euágoras, rei de Salamina, de Chipre. Quem assumiu o trono da ilha europeia foi seu filho, Nicolés (data? – 310 a.C). No dicionário Oxford de Literatura Clássica, é importante esclarecer, ambos são denominados como “Euagoras” e “Nicoclés”, respectivamente. O orador ateniense Isócrates (436 a.C – 338 a.C), amigo de Euágoras e que fora professor de Nicolés, enviou a este, por conta própria – devido à morte do pai -, sem formular nenhuma lisonja tradicionalmente dirigida a governantes, uma série de recomendações.

O pensador grego não se furtou de expressar como um rei deveria ser, atentando sobretudo para a sabedoria em atos, pensamentos e palavras. Idiossincrasias como nobreza e generosidade eram indispensáveis. Com a lealdade acima de tudo, o rei deveria ser “culto, laborioso, pautado […]” e, estando ao máximo rodeado por homens inteligentes, eruditos e com capacidades, se afastar do vício e “dar emprego e autoridade aos mais dignos”.

Um ponto importante que me chamou atenção: [o rei] “Deve tirar a sua força da ordem e regularidade da sua administração e da prosperidade crescente dos particulares, não de impostos excessivos”. Um conselho interessante, não achas, caro leitor? Isócrates findou o trecho, provavelmente escrito em 376 a.C, recomendando a Nicolés que amasse seu povo e cuidasse bem dele sem, contudo, deixar de ser severo quando assim exigisse a justiça.

Abaixo, destaco mais alguns conselhos de Isócrates a Nicolés que podem talvez ter alguma valia a nossos políticos, conquanto saibamos que, do Planalto a nosso Congresso bicameral, estendendo-se a governos estaduais e municipais, raros são os políticos, e abro aqui o bom exemplo do liberal conservador Marcel van Hattem – a quem tanto admiro – com valores que despertam nos cidadãos motivos para acreditar que ainda é possível haver uma mudança político-social no país. Leiamos:

– “Preceitos, primeiro objeto a que devem aspirar os reis [ou qualquer governante, lógico], que é como a fonte dos seus deveres.”

– “Para alcançar esse objeto, o rei deve tornar-se superior aos outros, cultivando o seu espírito e convivendo com homens destacados pela sabedoria.”

No próximo conselho de Isócrates a Nicolés, observamos um chamado ao respeito à propriedade privada:- “[…] As riquezas dos particulares devem ser protegidas […]”.

No próximo conselho, Isócrates atenta para a importância das companhias dos homens que circulam pelo governo, para a própria composição dos governos feita pelo rei e para a escolha dos juízes: – “Escolha dos amigos e dos homens que privam com os príncipes, escolha dos magistrados e ministros.”

Malgrado tantos problemas em nosso Senado Federal, a editora de nossa Casa Legislativa presenteia-nos com bons volumes que versam sobre política. Na edição de Conselhos aos Governantes, de onde tiro os escritos de Isócrates, também vemos Platão, Kautilya, Maquiavel, Erasmo de Roterdã, Miguel de Cervantes, Maurício de Nassau, Frederico da Prússia e Marquês de Pombal, entre outros, além de nosso imperador D. Pedro II (1825 – 1891), que, durante sua viagem aos Estados Unidos entre maio de 1871 e março de 1872, escreveu à então regente D. Isabel.

Quiçá nossos governantes leiam alguns desses conselhos, sobretudo os de Isócrates.

REFERÊNCIAS: Conselhos aos governantes, 2° edição / Isócrates… Et al. — Brasília: Senado Federal, 2000.

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer

Ianker Zimmer é jornalista diplomado pela Universidade Feevale (RS). De 2015 a meados de 2019, trabalhou no Jornal NH e na Rádio ABC. Editorial Sinos. Entre 2020 e 2021, foi assessor de imprensa do deputado federal Marcel van Hattem, na Câmara dos Deputados (Brasília). Além de colunista e autor no Instituto Liberal (RJ), é colunista dos sites Opinião & Crítica e Tribuna Diária. Atualmente exerce o cargo de Diretor de Gestão Integrada na Secretaria de Segurança Pública de Novo Hamburgo. Autor de A filosofia do fracasso: ensaios antirrevolucionários (Viseu, 2020), República Democrática do Pensamento Único (Almedina, 2021) e coautor de Introdução ao Liberalismo (Almedina, 2021).