A complexidade da situação no Brasil

Sachsida_mordaca_do_PTA situação pós-eleitoral no Brasil está complexa. Difícil de entender, como são difíceis de entender os processos que ocorrem em diversos países da América Latina que são vítimas de crescente populismo ao longo das últimas duas décadas.

Parece que a ira populista está perdendo força. Mas é uma questão de anos a sua substituição por opções mais razoáveis e conservadoras. No momento, o que se está enfrentando na Venezuela, Argentina, Brasil é uma consequência direta da irracionalidade populista, que se agravou ao longo da última década. Os regimes populistas vêm agonizando há anos. E empobrecem os países aos quais se vinculou essa espécie de boca de vampiro que suga o sangue. […]

No Brasil, neste período pós-eleitoral, ouviram-se vozes que revelam o mal que o populismo irresponsável faz ao País. Em recente entrevista à emissora de TV Globo News, o candidato derrotado do PSDB, Aécio Neves, disse que perdeu a eleição para um partido que mais se parece com uma organização fora da lei. As pessoas no Brasil sabem que o PT e seus aliados “fizeram o diabo” […] nas últimas eleições, inventando mentiras contra seus desafetos, elaborando falsos dossiês, amedrontando os mais frágeis (“se você votar no PSDB perderá o que ganhou”), etc., utilizando a estrutura oficial (correios, propaganda e comunicações pagos pelos contribuintes).

Por outro lado, Zander Navarro, crítico de esquerda, em um artigo recente (“A tragédia petista-2”, O Estado de São Paulo, 30 de novembro de 2014), afirmou que “O PT deixou de pensar e se acomodou com as delícias do poder e do dinheiro”. Em outro artigo publicado na mesma data pelo jornal, Fausto Sergio, superintendente executivo do Instituto Fernando Henrique Cardoso, sob o título “O petrolão não é um fato isolado”, destacou que a doença da corrupção em favor do PT “se instalou nos fundos de pensão, nas estatais, nos bancos e nas agências reguladoras”, minando a capacidade da sociedade de fiscalizar a administração pública. E o ex-senador Jarbas Vasconcellos, do Partido do Movimento Democrático Brasileiro (PMDB), aliado do governo, ao se despedir do Senado para assumir a cadeira que ganhou na Câmara dos Deputados, disse que iria continuar a fazer oposição a um partido (o PT) que mudou o programa partidário através das manipulações obscuras para roubar o dinheiro do contribuinte.

Como superar esse estado de coisas? Do meu ponto de vista, são necessárias ações da sociedade em três frentes: econômica (mediante o fortalecimento da economia de mercado e da organização de empresas nitidamente capitalistas independentes do Estado), política (através da revalorização da representação e do saneamento da vida político-partidária) e cultural (através de uma crítica, do ponto de vista liberal, às práticas de privatização do Estado dos líderes bolivarianos na América Latina nos últimos vinte anos). É o que alguns no Brasil chamam pelo nome de “resistência cultural”. O neopopulismo será derrotado mediante o exercício da razão aplicada à economia, à política e à cultura.

 

Artigo na íntegra no blog do autor

Tradução / edição: Ligia Filgueiras

Ricardo Vélez-Rodríguez

Ricardo Vélez-Rodríguez

Mestre em Filosofia (PUC/RJ). Doutor em Filosofia (UGF). Professor da Universidade Federal de Juiz de Fora. Coordenador do Centro de Pesquisas Estratégicas "Paulino Soares de Sousa". Coordenador do Núcleo de Estudos Ibéricos e Ibero-Americanos. Professor Emérito na Escola de Comando e Estado Maior do Exército.

3 comentários em “A complexidade da situação no Brasil

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    05/12/2014 em 5:31 pm
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    Acho que o populismo vai mais uma vez mudando de pele… e se perpetuando. Já teve outros invólucros…
    Creio que há uma pequeno engano na forma como normalmente se pensa o populismo.. Ele não pode ser abordado como se fosse puro ou existente por si mesmo.. porque, em geral, não passa de um instrumento para atingir a situação político-econômica desejada. Não existe um sistema populista, que não intermediário uma situação em construção. Como essas situações na atualidade são cada vez mais efêmeras, é justo um populismo que apenas vai mudando.. sem nunca chegar ao destino.

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    04/12/2014 em 12:37 pm
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    Concordo com o professor Vélez quanto ao declínio do populismo. Mas penso que isso está sendo contornado com facilidade pelo Foro de São Paulo, na implantação do socialismo do século XXI em quase toda a América Latina. Suas sugestões de como superar este estado de coisas são perfeitas, mas faltam estratégias mais agressivas para colocá-las em prática, e mais rapidamente. Como mobilizar a sociedade para o enfrentamento desses problemas? A informação e a velocidade das mídias, em muito podem contribuir, mas vejo necessidade de um órgão/empresa que centralize e mobilize a disputa no mercado ideológico monopolizado pelo gramscismo. Até quando os livre empreendedores e o capital produtivo vão se deixar explorar? Onde está o marketing de resultados do pensamento liberal? Enquanto isso, líderes socialistas, suas elites e utilitários enriquecem, porque eles sabem que têm em mãos um excelente negócio!

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      05/12/2014 em 2:53 am
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      Concordo com tudo que disse. E algo precisa ser feito com urgencia.

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