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Como superar as 48 horas mais longas do ano?

novembro-2016

O ano histórico de 2016 – que representou tantos pontos de inflexão no mundo e, particularmente, no Brasil – tem sido um ano de polarização. Ninguém acreditava que alguma coisa poderia, ainda que não gerar a unanimidade absoluta, efetivamente gerar uma significativa união nacional (mesmo que o “outro lado” da contenda seja franca minoria). Pois, no desfecho de novembro, antes do apagar das luzes do ano, o destino nos reservou os dias 29 e 30 como aqueles que produziriam essa união. Todos os brasileiros se uniram nessas 48 horas. Infelizmente, se uniram na tristeza, no luto, na raiva e na vergonha. Todos esses sentimentos desagradáveis, de uma só vez, nesse curto intervalo, preencheram os corações de quase todos os nossos compatriotas.

Em primeiro lugar, e provavelmente o mais impactante de todos os motivos, pela tragédia que ceifou as vidas de jornalistas esportivos e da delegação da Associação Atlética Chapecoense, que viajava para a Colômbia a fim de começar a disputa da decisão da Copa Sul-Americana. Difícil imaginar um brasileiro que não tenha, como eu, despertado em choque, ao, nas primeiras luzes do dia, ter que lidar com essa dolorosa verdade. Aqueles que acompanham futebol, particularmente; a equipe da Chapecoense, bem como seus dirigentes, vinha impressionando pela valentia com que encarava adversários grandes, pelo seu destemor, pelos resultados fantásticos que catapultaram o clube da quarta divisão para a decisão do segundo mais importante torneio continental da América, e pelo respeito com todos os oponentes. Por isso, particularmente para nós, o fato impacta mais pela juventude das vítimas, pelo inusitado disso tudo, mas também pelo desfecho difícil de engolir de uma linda história de superação desportiva.

Nessa dor, quase todos os tipos de brasileiros – e até estrangeiros – se uniram. A partir daí, as razões divergiram. No mesmo dia em que as luzes do avião se apagaram e a linda história daquele time da Chapecoense se encerrou, Brasília assistia à barbárie de vândalos que protestavam contra a votação da PEC que estabelece o teto geral dos gastos públicos por 20 anos. Para nós, uma das melhores medidas do governo Temer. Para eles, os esquerdistas e os militantes adestrados, o Apocalipse, capaz de justificar a depredação do MEC e enfrentar até a polícia. A PEC foi aprovada no Senado em primeiro turno. Para nós, o único motivo de celebração do dia; para eles, o problema. Para nós, ficou o lamento pelas cenas degradantes, que nos mostram o quanto ainda teremos que trabalhar para sanear as referências deste país. Para eles, a tristeza por ter sido levada adiante uma das reformas mais razoáveis dos últimos tempos – afinal, o razoável é o maior pesadelo deles.

Já à noite, quando ainda derramávamos nossas lágrimas e tardávamos a acreditar, a primeira turma do STF – mais uma vez ele! – decidiu pela soltura de cinco médicos e funcionários de uma clínica clandestina, presos em Duque de Caxias, entendendo não ser crime a interrupção voluntária da gravidez até o terceiro mês. A decisão se aplicou apenas àquele caso específico, mas está aberto o precedente para que o Brasil acolha o aborto. Para que acolha, portanto, o assassinato. Uma mancha moral repugnante para uma civilização que procura ir ao encontro de um destino de grandeza. A Câmara dos Deputados se movimentou para iniciar um processo de reação a esse caminho espúrio adotado pelos nossos desafetos de toga.

Porém, a Câmara, também ela, tratou de dar a sua contribuição e estender pela madrugada o rubor dos brasileiros. Com direito a vaias para destratar o relator das 10 medidas contra a corrupção, o deputado Onyx Lorenzoni, quando a maioria da população não os acompanhava, os parlamentares resolveram desfigurar o documento, deturpando o que deveria ser uma resposta à sociedade. Longe de dizermos que o Poder Judiciário é santo, longe de dizermos que a proposta original das 10 medidas era integralmente factível; mas o diálogo na Comissão em que Onyx foi relator já havia podado seus excessos. Os parlamentares, entre outras coisas, anexaram o que Onyx chamou de “vendeta”: dispositivos para processar e acuar os investigadores, até mesmo sob alegações abstratas como “exercer atividade político-partidária”.

No dia seguinte, e eis porque falamos em 48 horas, esse último drama de escárnio ao povo teve novos capítulos: a ameaça dos procuradores de se desligarem da Lava Jato, e a manobra espúria de Renan Calheiros, querendo votar as dez medidas no Senado em regime de urgência, logo no dia seguinte ao resultado na Câmara, sem qualquer tempo para os senadores as estudarem e debaterem. A pressa de quem se reconhece em dívida, acuado pela Lava Jato, e anseia por achacá-la. Felizmente, o requerimento foi derrotado; mas o espetáculo patético permanecerá.

Tudo isso torna os dois dias finais deste novembro de 2016 difíceis de esquecer – por mais que desejemos. O peso dos fatos ainda se abate sobre nós, em nossa própria efemeridade e mortalidade, como se esses dias ainda não quisessem acabar. Nossa pátria se uniu na tristeza e no sabor amargo da interrupção brusca de uma história desportiva que simbolizava um frescor de esperança e reforçava a crença na possibilidade de as coisas darem certo; se uniu também na vergonha e no temor pelo seu futuro, ainda que por motivos diferentes. Oxalá possamos estar unidos, no futuro, em torno de razões e de ocasiões mais felizes.

Nota: Publicado originalmente com o título “Estertores de novembro: as 48 horas mais longas do ano” em sentinelalacerdista.com.br

Lucas Berlanza

Lucas Berlanza

Jornalista formado pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), colunista e presidente do Instituto Liberal, sócio honorário do Instituto Libercracia, editor do site Boletim da Liberdade e autor dos livros "Lacerda: A Virtude da Polêmica", “Guia Bibliográfico da Nova Direita – 39 livros para compreender o fenômeno brasileiro”, "Os Fundadores - O projeto dos responsáveis pelo nascimento do Brasil" e "Introdução ao Liberalismo" (co-autor e organizador).