Com a pena da galhofa e a tinta da melancolia

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Morro do Livramento, RJ, onde nasceu M.A.

Nos tempos do vetusto Machado de Assis, o Brasil não era o que está se transformando. É certo que o País era muito mais pobre, mas em compensação a vida era muito mais tranqüila, sem grandes sobressaltos e incertezas quanto ao futuro.

“Bons tempos!”, diriam os saudosistas, mas não sem alguma dose de razão. Não estávamos, porém, em nenhum paraíso, como reconheceu o próprio autor de “O alienista”.

Advirto que o título desse excelente conto machadiano nada tem a ver com o que hoje comumente entendemos por “alienação” ou “alienígena”: alienista era o nome dado na época ao que hoje denominamos ‘aquele que cuida de alienados’ (doentes mentais), ou seja: psiquiatra.

Em muitas passagens de suas obras, Machado destila seu pessimismo e fina ironia ou às vezes mesmo seu cortante sarcasmo: “Só se pode escrever sobre o Brasil com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”.

De minha parte, penso que a galhofa, a mofa, a gozação são indispensáveis na dieta de qualquer brasileiro vivendo no país do real – melhor dizendo: do surreal – mas é muito difícil ser melancólico dentro de um hospício ou de um circo.

E o Brasil é isto: Se cercar vira hospício (como nosso “manicômio tributário”), mas se jogar uma lona em cima vira circo (como nosso Congresso em que há até palhaços profissionais).

Lembro que muito antes do Congresso estar repleto de oportunistas, ladravazes, palhaços, gente que só está lá para “se arrumar” – como dizia o político que nunca mentiu: deputado Justo Veríssimo – Millôr Fernandes escreveu um inolvidável artigo num jornal.

Nesse artigo, ele comparava o Congresso Nacional a um circo.

Choveram cartas de leitores indignados com a desairosa comparação. Foram tantas que Millôr decidiu fazer uma retratação. Cito-a de memória, com desculpas por possíveis imprecisões:

“Eu quero declarar aos queridos leitores que, em momento nenhum, de nenhum modo, tive a intenção de ofender a valorosa classe circense em que alguns arriscam sua vida no trapézio, outros entram na jaula com leões e outros ainda ganham seu pão honestamente engolindo fogo”.

De minha parte, devo esclarecer que se comecei insinuando um contraste entre passado e presente, entre o País de Machado e o País do Mau Achado, é porque estou chegando ao limite.

Com perdão da expressão chula: estou de saco cheio desta terra de beócios em que circulam pelas ruas milhões de zumbis mesmerizados pela falsa propaganda do PT (Perda Total, no jargão das seguradoras de veículos).

Não passa um só dia em que não apareça nos jornais mais um escândalo financeiro, mais uma patuscada de Dilmandona, a Presidente pelo voto do povo e a “Presidenta” por decreto do Palácio.

A inflação – ou o “retorno do reprimido” no dialeto freudiano – botando suas horrendas garras de fora. – Já vi este filme dirigido por Sir Ney e confesso que não gostei do enredo.

Para dar um simples exemplo: Num restaurante de Ipanema (Rio de Janeiro, RJ), uma omelete com camarões a 90 reais. Em Nova Iorque, o mesmo prato a 40 reais no câmbio do dia.

[E ainda há quem não entenda por que tantos turistas brasileiros gastam tanto comprando desde shampoo até automóveis nos EEUU. Que atitude antipatriótica!]

Boa parte desse preço absurdo advém da carga tributária pesando sobre os alimentos. Mas, no caso específico dos restaurantes, creio que o custo dos salários tem um peso maior do que o dos alimentos.

E os salários aumentaram em média 8,5 acima de uma inflação de 6%. A isto, podemos acrescentar a expectativa inflacionária gerada por um ano eleitoral e pela Copa de 2014 juntos.

Numa conjunção perversa como essa, os preços costumam fazer uma jornada nas estrelas! E às vezes ficam por lá mesmo…

A indústria brasileira definhando dia a dia. Pesam os encargos trabalhistas superiores a 100% dos salários e as dificuldades de investirem na modernização, de modo a se tornarem empresas competitivas no mercado externo e interno.

Isto para não falar no encarecimento de matérias primas resultante das péssimas condições de armazenagem e escoamento, bem como nos nossos portos jurássicos fechando ao cair da noite por falta de iluminação.

Unbelievable! Inacreditável é o forte contraste entre nossa pujante agroindústria e nossas pífias vias de escoamento para nossos portos arcaicos.

Mas a propaganda do PT mostra aos brasileiros um outro país, um país chuchu-beleza com seu povo alegre e feliz. In asinus bucca risus abundat. [Na boca do asno o riso é abundante].

E o que é pior: mais de 100 milhões de analfabetos funcionais, verdadeiros zumbis acéfalos, acreditam em tudo que o governo mostra na TV.

Mas não são eles justamente a maior parte do eleitorado que só pode eleger mesmo nulidades, corruptos e oportunistas à sua semelhança?!

Considerando que a maior parte desse eleitorado é composto de mulheres e de pessoas idosas, o eleitor típico brasileiro é a velhota semianalfabeta, beata, simplória e mal informada, ou seja a Velhinha de Taubaté em carne e osso.

E nessa Luís Fernando Veríssimo – esquerdista desvairado, mas excelente humorista – atirou no que viu e acertou no que não viu. Mas o que podemos esperar de um país como este? Nada, a não ser farto material para gargalhadas.

Numa situação semelhante à nossa, o grande poeta russo Vladimir Maiakovski (1883-1930) proferiu uma sentença de desespero: “É preferível morrer de vodka do que de tédio”.

O brasileiro pode até morrer de cachaça, mas de tédio é impossível alguém morrer no País do Cavalo Matusquela e da Eguinha Pocotó*

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* Obs. Não deixem de ler Luciano Pires: Brasileiros Pocotó: reflexões sobre a mediocridade que assola o Brasil (S.Paulo, Panda Books.2004)

 

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Mario Guerreiro

Mario Guerreiro

Doutor em Filosofia pela UFRJ. Professor do Depto. de Filosofia da UFRJ. Membro Fundador da Sociedade Brasileira de Análise Filosófica. Membro Fundador da Sociedade de Economia Personalista. Membro do Instituto Liberal do Rio de Janeiro e da Sociedade de Estudos Filosóficos e Interdisciplinares da UniverCidade.