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Ciência e política

Quem é que não reparou ainda que boa parte da discussão política em torno da pandemia de coronavírus em algum momento começou a girar em torno de resultados de ditos “estudos científicos”? Não passa um dia sem que eu mesmo veja alguém argumentando ou contra argumentando sobre o uso de um medicamento ou sobre medidas de distanciamento social citando algum artigo técnico publicado em periódico científico. O que isso pode revelar é um desconhecimento muito grande, e perigoso, do que vem a ser ciência.

Em parte esse estado de coisas é culpa de nós mesmos, cientistas, que até hoje não fomos capazes de apresentar uma definição suficientemente clara e consistente do que seja ciência, nosso próprio ofício. É isso mesmo, “o que é ciência?” ainda é uma pergunta que intriga muitos pensadores. Essa é uma questão bastante difícil, na verdade, pois cada nova definição acaba excluindo atividades que geram resultados úteis e que gostaríamos de chamar de ciência ou acaba por incluir outras atividades que são inconsistentes com a noção da busca pela verdade. Ainda assim, como argumenta F. A. Hayek, “a sociedade avança aumentando o número de operações importantes que somos capazes de realizar sem pensar sobre elas” [1]. Não compreender nosso ofício de cientistas de maneira unânime e sistematizada não nos impede de decidirmos pelo correto curso de ação, ou, nas palavras do economista: “nós desenvolvemos práticas e instituições construindo sobre hábitos que se provaram bem-sucedidos em suas próprias esferas e que por sua vez se tornaram a base da civilização que construímos” [1].

Nos últimos 10 anos, reservo parte do meu tempo para ler sobre a filosofia da ciência, o fundamento que ajuda a não me entusiasmar com a espuma do noticiário e dá coragem para colocar a cabeça dentro da água para admirar as verdadeiras maravilhas ali escondidas. Nesse sentido, gosto muito do resumo de Lars-Göran Johansson da Universidade de Upsalla [2]. Ele enumera três critérios para considerar algo como científico:

“i) o que conta como resultado científico não é o que um pesquisador ou grupo de pesquisa individualmente reivindica, mas aquilo que aqueles que estão familiarizados com o tema, os pesquisadores na fronteira do conhecimento de seu campo de estudo, aceitam coletivamente;

ii) as opiniões individuais dos pesquisadores sobre política, ética, religião e seus interesses de carreira cancelam-se mutuamente nas decisões coletivas;

iii) quando diante de um conflito entre hipótese e observação, não é o julgamento individual do pesquisador que determina qual conclusão aceitar, mas aquele de toda a comunidade de pesquisa.”

Algum leitor incauto poderia imaginar que existe alguma instância central ou assembleia de decisão coletiva; a Organização Mundial da Saúde, por exemplo, quando o assunto fosse recolher o consenso científico sobre saúde. Isso seria, entretanto, uma espécie de pensamento circular, algo na linha de “a política deveria tomar decisões baseada no método da ciência (que seria isenta, o que quer que isso signifique), mas a ciência deveria tomar decisões com o método da política…” Não preciso nem continuar para saber onde isso vai dar.

Para chegar no consenso científico, seria crucial um modelo institucional em que existam “vários grupos de pesquisa independentes trabalhando no mesmo tema, que estes grupos tenham a possibilidade de compartilhar seus resultados e que estes resultados sejam publicados e estejam sujeitos ao debate e crítica de outros grupos da mesma área” [2]. Repare como parte importante do programa se refere a comunicação. Assim como F. A. Hayek argumenta no contexto econômico que a difusão de informações de forma descentralizada via sistema de preços faz surgir um consenso sobre a alocação de recursos, na ciência esse mecanismo de formação de consensos ocorre por meio da adoção dos resultados de um determinado pesquisador como base para novas pesquisas por outros grupos independentes.

As informações são transmitidas por meios descentralizados e mesmo hoje ideias revolucionárias têm dificuldade de serem compreendidas e precisam ser redescobertas várias vezes antes de causarem impacto significativo no consenso das comunidades científicas. Isso demanda tempo para ocorrer. Um tempo que não é o tempo da política e nem deveria ser, pois ciência e política têm objetivos distintos, como bem destacou Max Weber. Lars conclui que “cada pesquisador individual é tão irracional quanto qualquer outra pessoa” e todo esse devaneio foi só para poder dizer que quem cita o resultado de um artigo técnico sem lê-lo ou compreender suas fraquezas com o intuito de defender ou criticar a posição de um grupo político não está sendo “científico” ao falar de política, mas está agindo como os políticos que procuram por concordância para sustentar seus posicionamentos e são imunes a qualquer possibilidade de refutação ou convencimento.

Baseado em Hume, Mandeville e Menger, Hayek enumera a lei, a linguagem e o dinheiro (law, language and money) como “os três paradigmas de instituições que ocorrem de forma espontânea” [3]. Hayek argumenta que, enquanto a lei e a linguagem continuaram seu curso natural de descoberta, evolução e refinamento, “depois de duzentos ou trezentos anos do uso de moedas (coins), os governos interromperam qualquer desenvolvimento posterior. Não tínhamos permissão para experimentar com ele, então o dinheiro não melhorou; ao invés disso, piorou com o passar do tempo” [3]. Compreendo a ciência como um quarto paradigma, muito mais recente, de instituição formada pela ordem espontânea e que merece ser estudada à luz da metodologia hayekiana.

Políticos não estão procurando pela verdade; estão tentando defender sua agenda, na maioria das vezes composta por pautas reativas e de curto prazo. Não há nada de errado ou sujo nisso, são atividades distintas e necessárias em qualquer sociedade. Como ocorreu com a moeda, a ciência corre o risco de ser capturada pelo estado e congelada em sua forma atual, o que seria desastroso para uma sociedade que autoproclama viver uma nova era, a era do conhecimento. O primeiro passo é o uso político de resultados científicos ainda imaturos, por isso tenhamos coragem de dizer que nossas opiniões políticas são políticas ao invés de procurar dar-lhes uma roupagem científica.

Referências

[1] Hayek, Friedrich August. “The use of knowledge in society.” The American economic review 35.4 (1945): 519-530. Disponível em https://www.econlib.org/library/Essays/hykKnw.html

[2] Johansson, Lars-G. Philosophy of science for scientists. Springer, 2016. https://link.springer.com/book/10.1007/978-3-319-26551-3

[3] F. A. Hayek, Interview at the University of Freiburg. Transcrição disponível em https://www.libertarianism.org/publications/essays/interview-f-hayek e https://youtu.be/EYhEDxFwFRU

*Edil Guimarães é professor da Universidade de Brasília, atual chefe do Departamento de Engenharia Elétrica. Atua como Presidente do Instituto de Formação de Líderes de Brasília (IFL Brasília) e membro da diretoria executiva do IFL Brasil.

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O Instituto Liberal é uma instituição sem fins lucrativos voltada para a pesquisa, produção e divulgação de idéias, teorias e conceitos que revelam as vantagens de uma sociedade organizada com base em uma ordem liberal.