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Certas coisas são inegociáveis

O que está em discussão não é a legalização do aborto, então não vou entrar nesse mérito. O que está em discussão, e sequer deveria estar, é o que já está na lei, e, diga-se de passagem, é um ponto irretocável da mesma. Pense o que você quiser sobre aborto, e aqui você pode até mesmo ser pessoalmente contra, mesmo em casos de estupro, sem com isso pretender impor sua visão de mundo à coletividade, em especial àqueles e àquelas que não comungam dela. Defender que o Estado obrigue uma vítima de estupro e, nesse caso, uma criança de 10 anos vítima de estupro, a dar sequência à gravidez, é algo vil, abjeto e desumano. Reitero, não se trata de você ser pessoalmente contra, mas de você defender o uso do império da lei para proibir a prática, condenando alguém que já sofreu uma violência terrível a uma continuidade dessa violência, quando não, como também é o caso, colocando a vida dessa pessoa em risco.

Na verdade, a justiça, como não poderia deixar de ser, já havia autorizado o procedimento, e a coisa seguiria o seu curso da forma discreta que a sanidade e bem-estar dessa menina, a vítima aqui, requeriam; mas não: Sara Winter, que se diz “pró-vida” e uma pessoa religiosa, de forma criminosa violou a intimidade da menina, divulgando o seu nome e o endereço do hospital onde estava internada nas redes sociais. O estrago foi feito e a militante, que já integrou o Ministério da Mulher, Família e Direitos Humanos, sob a gestão da ministra Damares Alves, conseguiu mobilizar uma horda de fanáticos para hostilizar o médico responsável pelo procedimento, que até mesmo tentaram invadir o hospital. A tal “corrente de oração” não visava a apaziguar o sofrimento da criança, que não lhes tira o sono; visava a roubar-lhe, ainda mais, a infância, a dignidade e possivelmente a vida.

Não se trata de pessoas que, tendo a defesa da vida em alta conta, pecam pelo excesso de zelo, porque zelo é justamente o que lhes falta. O Brasil se aproxima de 110 mil vidas perdidas pela covid-19 e não tenho dúvidas de que os mesmos que, no alto de um pedestal de moralidade, acham razoável obrigar uma menina de 10 anos a ser “mãe”, são os mesmos que até aqui apequenaram, quando não, fizeram troça da ameaça e das vítimas. Não é suposição, é constatação. Conheço exemplares, e tenho certeza de que o leitor também, que, se dizendo “pró-vida”, agora se escandalizam com o aborto em questão, mais do que com o próprio facínora que a estuprou (tudo leva a crer, o próprio tio), mas seguem a pandemia desde o princípio defendendo que se lotem igrejas, fazendo discursos toscos contra atos singelos e solidários como o uso de máscaras, dizendo que todo mundo “morre um dia”, relativizando mesmo as medidas de isolamento mais brandas em prol de um economicismo radical (tão ruim quando o isolacionismo radical), e por aí vai. Alguém duvida que os imbecis que fazem dancinhas segurando caixões em manifestações de rua também tendem a defender a proibição da interrupção da gravidez em casos como esse? Não é que todos os que pensam assim façam dancinhas com caixão ou apoiem a atitude da Sara Winter, mas mesmo os supostamente mais moderados acabam revelando fanatismo. Será que defenderiam o mesmo se fosse com a própria filha? Duvido.

Tampouco se trata de uma “punição” ou “acerto de contas”, como, imbuídos da mais profunda desonestidade intelectual, tentam pintar por aí. A punição aqui deve ser aplicada, da forma mais severa possível, ao monstro que a estuprou por quatro anos consecutivos. A interrupção da gravidez se faz necessária para não alongar o trauma além do que já sofreu e não colocar a sua vida em risco. Ainda que não houvesse o risco à vida, restaria o estupro, e a lei é clara em ambos os casos, não estabelecendo, inclusive, prazos. O aborto não é um acontecimento “feliz”, como nada nessa história é. Os que tentam transformar o sofrimento da menina em pauta política são seres desprezíveis, mas não sejamos hipócritas em ignorar que os mais desprezíveis aqui, ou pelo menos tanto quanto, são os que defendem que o Estado obrigue uma criança estuprada a ter um bebê, o que, no fundo, também é uma pauta política. Isto é, para mim, um ponto inegociável. Defender isso nada tem a ver com identitarismo ou mesmo progressismo – a não ser que entendam que reconhecer o direito de vítimas de estupro interromperem a gravidez seja um sinal de “progresso” em face de países que não o fazem; é mera questão de civilidade. Quem diz defender a vida, mas joga para escanteio os direitos de uma criança vítima de uma das violências mais bárbaras que pode existir e faz pouco caso da maior pandemia em um século, não defende a vida coisíssima nenhuma. Tenha a consciência que quiser, defenda o que quiser no plano subjetivo, mas no que se refere ao império da lei, certas coisas são inegociáveis.

Gabriel Wilhelms

Gabriel Wilhelms

É licenciado em Música e graduando em Ciências Econômicas, atua como colunista e articulista político.