Carlos Rangel: o que não pode ser esquecido

“Somos um povo que berra o insulto e sussurra o elogio.” (Nelson Rodrigues) Claudir Franciatto*   Ah se o povo venezuelano tivesse dado ouvidos ao diplomata e jornalista Carlos Rangel! Acredito que tenha sido um dos intelectuais mais importantes do continente. Com seus livros, programa de televisão, sempre lúcido, bom analista e com uma visão liberal […]

“Somos um povo que berra o insulto e sussurra o elogio.” (Nelson Rodrigues)

Claudir Franciatto*

 

Ah se o povo venezuelano tivesse dado ouvidos ao diplomata e jornalista Carlos Rangel! Acredito que tenha sido um dos intelectuais mais importantes do continente. Com seus livros, programa de televisão, sempre lúcido, bom analista e com uma visão liberal genuína, sóbria, sempre voltada a entender nossas mazelas político-filosóficas-morais na América Latina. Quase uma voz solitária pregando no deserto. Como estaria a Venezuela agora?

Em 1985,quando eu preparava o livro A Façanha da Liberdade – uma tentativa de juntar intelectuais liberais de vários países para saber em que pé estávamos – enviei a Carlos Rangel um questionário, já que as agendas não permitiam uma entrevista. O texto com as respostas que ele enviou é brilhante. Trata, em síntese, de um encontro que teve, em 1981, com ninguém menos que Friedrich von Hayek. Uma conversa entre o autor de Caminho da Servidão com o autor de Do Bom Selvagem ao Bom Revolucionário. Só isso!

Entretanto, ao reler 30 anos depois esse texto, percebemos ao final que, mesmo mentes portentosas como essas, podem se entusiasmar com o que pregam. E até demonstrar um certo otimismo ingênuo. Eis uma mensagem para reflexão: alguma vez um liberal pode ser otimista em relação às suas ideias? Será que um dia o senso comum inverterá a ordem atual, a de berrar os insultos ao capitalismo liberal por seus eventuais defeitos e sussurrar elogios às suas muitas virtudes?

Uma sociedade que rejeita aquilo que ela mesma criou

Pois, conversando com Hayek, o venezuelano Rangel começou provocando. Citando Joseph Schumpeter, mostrou que o socialismo seria inexorável, principalmente em virtude das críticas ao capitalismo partindo de dentro da própria sociedade capitalista. “Schumpeter – lembrou Rangel – sustentou que a civilização capitalista, pelo que é consubstancial ao racionalismo, ao livre exame, à crítica constante de todas as coisas, permite (mais que isso, propicia e até premia) o ataque ideológico a seus fundamentos, a ponto de até empresários chegarem a desacreditar da economia de mercado”.

Em sua resposta, Hayek defendeu a tese de que o pessimismo de seu conterrâneo austríaco se fundamentava numa época específica, lá pelos anos 1920. “Naquele tempo, eu estava tão pessimista quanto ele, porque havia uma ilusão, compartilhada até por liberais, de que a ciência econômica comportaria alguma planificação toleravelmente aceita. Quer dizer, Shumpeter não percebeu até que ponto a sobrevivência da economia de mercado, pelo menos onde ela existe, é uma questão de vida ou morte para o mundo inteiro”.

Na sequência, Carlos Rangel continuou provocando e mostrando seu desânimo quanto à ação dos intelectuais do Ocidente que, mesmo diante das malogradas e trágicas experiências socialistas, ainda duvidavam de ser a liberdade um valor supremo a ser defendido. Eis o momento em que Hayek nos permite flagrar um otimismo sem base realista. Ele diz, então, que desde a publicação de O Caminho da Servidão (1944), a luta mudou muito. Explica que o deserto diante das teses liberais era tamanho, que teve de criar a Sociedade Mont Pelerin, para que houvesse um ponto de encontro e debates. “Trinta anos depois, parecia que a Sociedade não era mais necessária, tal era a força, o número, a influência intelectual nas universidades e nos meios de comunicação, dos chamados neoliberais”.

Hayek concluiu afirmando que manteve aberta a Sociedade Mont Pelerin apenas para ajudar na luta ideológica junto aos países em desenvolvimento. E Rangel, pondo fim às provocações, confirma que, àquele momento, o socialismo estava já derrotado, numa verdadeira “derrocada intelectual e política”. Segundo ele, haveria o reconhecimento generalizado de que “a única revolução dos tempos modernos foi a revolução capitalista. Foi o capitalismo, onde o deixaram funcionar, que causou contínuas mudanças e avanços e que gerou riqueza e liberdade”.

Respondendo a algumas perguntas minhas sobre seu país, Rangel afirmou, no fechamento do capítulo, o seguinte: “Atualmente (1985), a Venezuela vive um quadro político e econômico relativamente favorável ao liberalismo. E a razão é simples: havendo desfrutado de 27 anos de liberdade política ininterrupta, com o consequente debate livre de ideias, pudemos perceber a revitalização do pensamento liberal e o desprestígio do socialismo que teve lugar no mundo nesse período”.

Pois é. Enquanto ele fazia essas afirmações Hugo Chávez criava, nos bastidores militares, o MRB-200 (Movimento Revolucionário Bolivariano-200). E deu o que deu. Sendo que, três anos depois desta sua contribuição com o livro A Façanha da Liberdade, Carlos Rangel foi encontrado morto. Tudo indicando tratar-se de um suicídio provocado por crise de depressão grave, de origem genética. Tentei esclarecer isso via internet, mas não consegui. Mas encontrei textos de contemporâneos ao caso, afirmando: “Morreu o lacaio do imperialismo americano”.

Claudir Franciatto é jornalista e escritor. Autor e organizador do livro A FAÇANHA DA LIBERDADE, obra editada pelo jornal O Estado de S. Paulo, com participação de liberais brasileiros e mais Mário Vargas Llosa, Octavio Paz, Carlos Rangel, entre outros.

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