Bolsonaro é o Gustavo Kuerten da Direita

Guga não foi o ápice de um processo gradual e planejado para a formação de atletas do Tênis no Brasil. Ao contrário: ele foi um ponto fora da curva, uma planta que brota em meio ao deserto, alguém cujo potencial extrapolava qualquer pretensão do país no esporte.

A prova disso é que o manezinho encerrou a carreira há pouco mais de 10 anos e, nessa década, nenhum brasileiro figurou sequer entre os 50 melhores do mundo.

Pois Bolsonaro vive experiência semelhante.

Ao raiar das eleições de 2018, estava claro que a profecia de Olavo de Carvalho iria se cumprir: o primeiro candidato à Presidência da República que assumisse um discurso conservador, alinhado aos valores e costumes do povo, ganharia de lavada o pleito eleitoral.

Só que há um problema: o capitão não tarda a perceber que está praticamente sozinho em sua empreitada. Não há partidos políticos no Brasil que representem a agenda conservadora que pretende encampar após eleito. São raros os agentes políticos que defendem sua visão de mundo.

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Bolsonaro percebe que está tão isolado na política brasileira quanto Gustavo Kuerten no Tênis nacional.

Pior: a lei eleitoral não permite que ele lance candidatura avulsa e concorra ao cargo máximo do Estado brasileiro de forma independente, sem recursos oriundos dos pagadores de impostos – o que fica claro, em certo ponto, que seria plenamente viável, já que o agora Presidente chegou ao ponto de devolver verba do fundo eleitoral para a União Federal.

Eis que ele precisa, portanto, filiar-se à alguma agremiação política para entrar na disputa eleitoral, já que, um pouco antes, Bolsonaro saiu do PP por conta do envolvimento do partido na Lavajato – o depoimento de vários operadores do esquema revelou que ele foi o ÚNICO parlamentar a não aceitar propina das construtoras envolvidas em corrupção.

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Escolhido o PSL, inúmeros candidatos do partido surfam na onda de popularidade do capitão e conquistam cargos eletivos – só na Câmara dos deputados, foram 51.

E aí surge outro problema: se já seria difícil governar sem um contingente de parlamentares que comungasse dos mesmos princípios e ideais do Chefe do Executivo, imagine então ter de lidar com uma PSEUDO-BASE DE APOIO, uma turma de legisladores “de Direita”, mas que apresenta projetos de lei para proibir o porte de armas de brinquedo e a comercialização de “games violentos”.

Bolsonaro vencer a eleição presidencial no ano passado equivaleu a colocar a carroça da História adiante daqueles que deveriam ter ido à frente pavimentando o caminho. Correto seria ter formado primeiro uma geração de parlamentares conservadores, para então galgar ao posto máximo da máquina estatal.

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Bolsonaro no Palácio do Planalto, cercado de militares social-democratas e congressistas progressistas que muito mal disfarçam suas verdadeiras ideologias para permanecerem como “aliados” do presidente, está muito pior do que estaria uma cabeça sem corpo: ele é uma cabeça de humano implantada em um corpo de animal.

É possível tentar sobreviver até 2022 e arrancar a fórceps algumas melhorias para o Brasil? Sim, é. Desistir sequer é uma opção. Mas fica cada vez mais claro que o ermitão da Virgínia tinha razão uma vez mais…

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