Boeing ucraniano abatido e o cinismo da esquerda em comparar este caso com o de 1988

Em primeiro lugar, não pretendo relativizar o sofrimento dos familiares e amigos das vítimas dessas tragédias.

Em segundo lugar, devemos nos lembrar que já ocorreram diversos casos de governos que abateram aviões civis ao longo das últimas décadas. Como exemplos mais representativos temos o do Boeing 727 líbio que foi abatido por Israel em 1973, o do DC9 italiano abatido pela OTAN em 1980, o do Boeing 747 sul coreano que foi abatido pelos soviéticos em 1983 e o do Airbus 300 iraniano abatido pelos Estados Unidos em 1988.

Logo que foi noticiado a caso do Boeing ucraniano abatido pelo Irã, na semana passada, a esquerda tratou logo de lançar duas narrativas para inocentar a teocracia de estimação deles: erros acontecem, vide o caso de 1988 mencionado acima; o erro dos iranianos foi provocado pelos Estados Unidos.  

Curiosamente, não aplicaram a tese do “erro provocado” ao caso de 1988.

Comparemos, então, as duas situações:

Em 1988, ocorria a Guerra entre o Irã e o Iraque, com o primeiro sendo apoiado pelos soviéticos e o segundo pelos Estados Unidos.

Uma das principais atuações do Irã era contra navios mercantes de outros países no Golfo Pérsico, atacando-os com lanchas e aviões. Os Estados Unidos, por sua vez, atuavam na patrulha daquela região, tentando coibir esses ataques.

Na manhã do dia 3 de julho, foi registrada movimentação de embarcações militares iranianas em direção a um navio paquistanês e logo em seguida, em direção a navios americanos.

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Neste momento, o Airbus 300 da Iran Airlines decolou do aeroporto de Bandar Abbas, próximo ao Golfo Pérsico. Nele também operava parte da força aérea iraniana. Havia sido desse aeroporto que haviam decolado os F4 iranianos que participaram de um ataque a navios americanos no começo daquele ano e onde, semanas antes, começaram a operar os F14, aeronaves com especificações de ataque a navios (os aiatolás que proclamaram a revolução islâmica/antiamericana não abriram mão dos aviões de fabricação americana que lhes pertenciam, alguns dos quais são usados até hoje).

Nesse cenário, o Airbus seguiu rota em direção a um navio de guerra americano, que identificou erroneamente a aeronave como sendo um F14. Ainda assim, tentou alertá-la por rádio diversas vezes. Sem obter resposta, disparou um míssil, derrubando o avião que levava 290 passageiros.

O terrível erro foi logo reconhecido pelo governo americano, que abriu um processo para esclarecê-lo e que gerou um acordo com as famílias das vítimas num valor total de quase 200 milhões de dólares.

Vamos, agora, ao caso do voo 752.

No dia 3 de janeiro, numa via de acesso do terminal de cargas do aeroporto de Bagdá, o veículo em que estava o maior líder terrorista do mundo, que ocupava também um importante cargo no governo iraniano, é alvejado por um míssil lançado por um drone americano. O Irã tomou isso como ato de guerra. Cinco dias depois, lançou mísseis sobre bases americanas no Iraque.

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O Irã esperava uma reação americana, o que não aconteceu – e nem havia histórico de ataque americano ao território iraniano. No entanto, as forças da teocracia islâmica interpretaram como inimigo um Boeing que acabara de decolar do aeroporto de Teerã, alvejando-o com um míssil.

Comparando as situações, chegamos à conclusão de que é apenas mais um espetáculo de cinismo da esquerda dizer que este acidente ocorreu sob circunstâncias semelhantes ao de 1988. Não foi! Nem próximo a isso.

Em 1988, o Irã utilizava um aeroporto civil como “escudo humano” para uma base militar. Autorizou o voo de uma empresa estatal sob zona de um conflito promovido por ele mesmo, porque partiam apenas do Irã os ataques na região do Golfo Pérsico. A guerra contra o Iraque se desenrolava noutras frentes. O Irã lançava mísseis até contra Israel.

O que ocorreu dias atrás foi um acidente trágico. Não acredito que o governo iraniano tenha dado ordens para derrubar um Boeing com quase 180 pessoas a bordo. No entanto, seu erro tem um pé no dolo e outro na culpa.

Compreendemos o clima de tensão, mas não o nível de despreparo das forças do país a ponto de disparar contra uma aeronave que havia recém decolado de um aeroporto na capital do país – e ainda tem gente que acha que eles podem desenvolver um programa nuclear.

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Para piorar, o Irã ainda tentou negar o ocorrido. Primeiro disse que havia sido um acidente, mas que não permitiria investigações externas. Mesmo diante das imagens do avião caindo em chamas e das partes de fuselagem alvejadas por tiros e de um míssil russo, insistiu que havia sido um acidente e que estava sendo vítima da guerra política americana. Agora, diante das evidências, resolveram reconhecer o erro, porém culpando os Estados Unidos pela situação.

Erros são erros. Tragédias são tragédias. Nada irá desfazer o ocorrido, devolver a vida às vítimas nem do caso de 1988, nem de 2020; mas não podemos tolerar o cinismo.

No caso de 1988, podemos dividir a culpa igualmente entre os dois países. No caso de agora, não. Foi um erro do Irã e somente dele.

Minhas condolências às famílias das vítimas. 

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João Cesar de Melo

João Cesar de Melo

É arquiteto e artista plástico.