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As “piriguetes” da tirania e a devassidão da censura

Alexandre de Moraes não para de avançar com seus delírios e lascívias autoritárias. Agora arvora seu dedo em riste contra a liberdade de expressão de seus opositores no mundo. O tirano ordenou ao Twitter excluir seletos perfis dos apoiadores engajados de Bolsonaro de sua rede social. Já silenciados em âmbito nacional, agora também devem ser calados no mundo inteiro ― determinou o ditador do STF.

Para quem não está inteirado do assunto, semana passada Alexandre de Moraes teve sua ordem de excluir os perfis dos apoiadores de Bolsonaro do Twitter, no Brasil, executada pela empresa ― isso após uma escalada ascendente de censuras oficiais coordenadas pelo referido juiz, inclusive com prisões e cerceamentos posteriores a um jornalista.

Buscando uma via para fugir do falo ditatorial que quer estuprar a liberdade de expressão desses cidadãos, as vítimas migraram as contas para uma localização estrangeira, a fim de que seus seguidores pudessem acompanhar as suas postagens na referida rede social. Agora, no entanto, Moraes mandou calá-los no mundo inteiro através de uma sentença universal. Ai daqueles que não acatarem a sua suprema, irredutível, sacrossanta, indobrável, inerrante, imaculada, inviolável, indiscutível e casta ordem!

Sinceramente não me assusta tal avanço viral da mentalidade tirânica dos #ditadorespelademocracia; o que sinceramente me espanta é o silêncio complacente daqueles que circundam o plano sempre pitoresco dos ditos “formadores de opinião”. Salvo as sãs exceções que sempre mantêm a minha fé acesa, cadê os heroicos universitários para protestarem contra o ― esse sim ― avanço do fascismo judicial? Onde estão os órgãos de defesa da liberdade de expressão, tão altaneiros em outros tempos, com outras vítimas? Cadê os editorialistas corajosos e sempre prestativos? Os jornais sempre voluntariosos com os vitimados pela censura? Os intelectuais com seus textões? Sumiram todos aqueles que sempre se levantaram para combater o amorfo e delirante nazismo brasileiro das fábulas antibolsonarianas?

Antes fosse somente o silêncio ensurdecedor dessa turma, confesso que subestimei a capacidade de tolice das “piriguetes” de Stálin; essas também louvam abertamente as decisões estapafúrdias de um STF putrificado em sua alma constitucional. Tais “piriguetes” da tirania se excitam com as tarjas sexys e fofas ― “é pela democracia” ― colocadas sobre as bocas de seus antagonistas; rejubilam até o gozo com o emudecimento em massa daqueles que outrora expunham as suas vergonhas; rebolam seus argumentos “lacrativos” que mal convencem a sua patota.

Ainda que agora se apresentem cordatos, prudentes e supostamente equilibrados, com um autocontrole quase que monástico ante os microfones que os questionam, logo após se sentarem em seus tronos, alguns devidamente “togados”, se transformam em personagens tão excitados com a censura que até Oscar Wilde se sentiria envergonhado em descrevê-los com exatidão.

Tarados por algemas ideológicas, pervertidos por correntes estatais, entregam à devassa todos os freios morais e judiciais que a nossa constituição prevê contra a censura; para finalizar o espetáculo de bordel, chafurdam-se num lamaçal de retóricas medonhas com o intuito fracassado de dar um ar de normalidade às suas sanhas. Eis a imagem da nova esquerda se reencontrando com o seu velho “eu”: ninfomaníacos por autoritarismos.

Porém, tal depravação tem seu preço. Tais como os vermes que louvam um cadáver novo que lhes servirá de alimento, esses indivíduos louvam a putrefação da liberdade de seus opositores, esquecendo-se, todavia, que a censura, assim como a morte, são as agentes mais democráticas desta vida ― hoje é seu vizinho o calado, amanhã será você. A censura da direita logo se verte em censura da esquerda e assim num ciclo eterno até que a liberdade de todos seja virtuosamente respeitada.

Ah meus caros, eu sinceramente sou um homem de poucas certezas e muitas dúvidas. Apesar do que soa em meus textos, a maioria das “verdades” que hoje sustento, faço questão de mantê-las com “v” minúsculo, a fim de que um dia eu possa ter a chance de corrigir possíveis injustiças que porventura cometa com meus limitados julgamentos racionais ― embasados, porém, sempre limitados.

Entretanto, se há uma certeza em minh’alma, é que não há como macular a liberdade de expressão de outrem sem automaticamente macular a minha, que as liberdades ― dentre elas a de expressão ― não são fetiches de filósofos ociosos que engordam suas reflexões com abstratismos irrelevantes. A liberdade de expressão e a defesa da vida são as colas que mantêm qualquer outra ética minimante coesa e respeitável. Não há como picotar a liberdade de expressão sem, logo mais, acabar lacerando também a defesa da vida e, consequentemente, as factuais vidas dos indivíduos. Com maior ou menor grau de asquerosidade, não há sequer um exemplo na história da humanidade em que a censura não tenha sido acompanhada da relativização da vida dos censurados.

Eu quero estar errado. Se Deus quiser este será um daqueles casos em que a minha limitação humana interfere na assertividade de meu julgamento; mas temo que não; a história costuma ser assertiva em relação as previsões desse tipo. Se a escalada de censura continuar, o desastre político-social tende a ser mera consequência óbvia dos fatos. Por que seria agora que a ponta da faca iria ceder, ao invés de mais uma vez furar a carne dos tolos que a socam? Como dizia Reinhart Koselleck: o futuro e o passado costumam estar tão intimamente relacionados que, por vezes, fica difícil desmembrá-los. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.

Pedro Henrique Alves

Pedro Henrique Alves

Filósofo, colunista do Instituto Liberal, ensaísta do Jornal Gazeta do Povo e editor na LVM Editora.