As lições de Roger Scruton e o Brasil medonho

Sir Roger Scruton ficou largamente conhecido por suas críticas ácidas às Eras Thatcher e Reagan. A ênfase dada à economia, ao ideário do livre-mercado, em seus respectivos países desgostava o filósofo inglês. Para ele, seria uma rendição do conservadorismo ao materialismo, arrefecendo as energias morais e espirituais inglesa e americana. Com efeito, aqueles países emergiram […]

Sir Roger Scruton ficou largamente conhecido por suas críticas ácidas às Eras Thatcher e Reagan. A ênfase dada à economia, ao ideário do livre-mercado, em seus respectivos países desgostava o filósofo inglês. Para ele, seria uma rendição do conservadorismo ao materialismo, arrefecendo as energias morais e espirituais inglesa e americana. Com efeito, aqueles países emergiram do sufoco em que se encontravam. Mas uma vez que  a lição de casa elementar conservadora não fora devidamente observada, a negligência teria seu preço, esbravejava Scruton.

O tempo provou que Scruton estava parcialmente equivocado visto que a recuperação econômica também manifestava interesses morais de primeira grandeza. A recente matéria publicada pelo Wall Street Journal  relembra como o corte dos gastos públicos da Era Reagan colocou a economia americana novamente em um círculo virtuoso, após anos de contração e agigantamento do Estado. O presidente cowboy da Califórnia e a Dama de Ferro debelaram os juros escorchantes e os  impostos sobre a renda do povo, não com base apenas em uma confiança cega, newtoniana às leis de mercado. A atuação política e os discursos de despedida de Reagan e Thatcher demonstram que ambos viam naquela volúpia estatal uma imoralidade, uma ruptura com os princípios dos “Founding Fathers” e o “Common Law” inglês.

A dissociação artificial entre a esfera econômica e espiritual admitida inadvertidamente por Scruton é uma falácia que a Escola de Ludwig Von Mises denunciou com argúcia insuperável. Mesmo na economia concebida como macroeconomia, como um fenômeno coletivo abstrato, quem opera decisões nessa esfera é um indivíduo. Conquanto Reagan e Thatcher tenham enfatizado a macroeconomia, fizeram-no como seres morais, com suas escolhas específicas. De súbito, recuperaram a confiança em suas economias em escala mundial. Roger Scruton conhece bem Von Mises e o ama. Apenas se distraiu, um lapso perdoável, para quem no calor da crítica tende a embotar-se. O filósofo britânico reconsiderou parcialmente sua postura, ao menos a contundência dela.

Sem embargo, ambas gestões não se dedicaram, maciçamente, ao trabalho de recuperação das universidades, associação civil, família, por exemplo, como reivindicava Scruton. Nesse sentido, os anos provaram que os seus uivos na noite escura do reino britânico eram tristes presságios. Na década seguinte, a cultura de tão permeável aos influxos eufóricos da afluência, degenerou-se a um tal ponto, pior de onde Reagan e Thatcher tinham iniciado seus governos. A equação é simples: quem obtém dinheiro através dos outros inclina-se à irresponsabilidade. Isto vale para governos, parasitas de governos e para os filhos mimados dos ricos, desprovidos de moralidade firme. Não deu outra: sob o discurso doutrinador dos esquerdistas na imprensa e nos bancos das universidades, vieram à tona a delinquência juvenil, violência doméstica, corrupção crescente, rebaixamento da arte, da educação, casuísmo judicial, secularização e retraimento da transcendência e da religião cristã.

O curioso é que esse recuo dos aspectos identificadores mais nobres da cultura caminharam ao lado de índices de crescimento econômico relativamente satisfatórios. Mas a razão aí é outra. A riqueza gerada na era Reagan e Thatcher foi gasta em novas políticas governamentais, como na era Clinton. O impacto de curto prazo de governos intervencionistas produz altas taxas de crescimento econômico. Tal se deu na maioria dos países comunistas, na ditadura brasileira, na China comunista, na gestão Lula. No entanto, a conta quando chega sempre foi e será paga com o empobrecimento da população, o desemprego, a inflação e outros efeitos subversivos. E pior, a política intervencionista intensifica o processo de irresponsabilização humana, o qual arrasta a cultura para níveis de imoralidade profundos. Decerto, a vitalidade de uma cultura não se mede total e completamente pelos índices econômicos. Scruton estava certíssimo.

Entretanto, tais fatos mostram, ao meu ver, de modo inequívoco,  que subestimar a economia em detrimento de uma suposta recuperação da alta cultura, pode ser tão temerário quanto a ênfase demasiada naquela esfera. Note o alto potencial das políticas microeconômicas. Se contempladas, impulsionarão a moralidade, a confiança, a solidariedade, a poupança interna e o ativo circulante. O comércio do bairro fortalece a unidade entre a padaria e a dona de casa. Esses laços de amor e serviço são imprescindíveis para revitalizar a sociedade, além de reaquecer a economia.

Se o conservadorismo resiste com veemência  às políticas anticíclicas, opta,  muitas vezes, por parte da sua  cartilha macroeconômica, como juros, circulação da moeda, controle da inflação e gastos públicos. Sobretudo em um cenário de pressão política pragmática de alguns setores mais privilegiados. Essa foi a cizânia de Scruton contra a Dama de Ferro e “Jack” Reagan. Simultaneamente, a  política macroeconômica não precisa ser vista como uma escolha pior pelos conservadores, em particular se ela for usada contra ela mesma. Negá-la, então, é ser tão ideológico quanto o marxismo e os metacapitalistas que a manipulam. Na verdade, tudo tem de ser contemplado em alguma medida, sempre com o olho na moralidade.  Uma batida no cravo e outra na ferradura.

Russel Kirk refreia o arroubo quase ideológico de Scruton, ao chamar a atenção que a política é a “arte do possível”. Possível aí entendido como algo a ser feito sem comprometer a verdade. Em sua opinião, Reagan,  Thatcher e o papa João Paulo II,  resistiram juntos a uma onda pagã sem paralelo sobre o mundo e jamais esse mérito pode deixar de ser creditado a eles. Foi um esforço de muitos “newtons”, incrível! Influiu de modo positivo sobre o arcabouço moral da sociedade. Por outro lado, a pouca assertividade das ações deles sobre as camadas mais profundas da sociedade, para além do permitido, precipitou a sua esterilização. São essas camadas que servem de base à complexificação e sofisticação social. Não deixa de ser verdade, todavia, que a espiral descendente seria muito pior se até no nível macroeconômico nada fosse feito. Reagan e Thatcher estavam certíssimos! Scruton esqueceu a lição de Edmund Burke que dizia:

“Ninguém comete erro maior do que não fazer nada porque só pode fazer um pouco”.

Nesse sentido, todos esses fatos ressoam uma lição preciosa para o Brasil atual. É necessário parar com o ataque histérico de que o Brasil acabou porque a macroeconomia vai mal, ou que é inútil priorizá-la. Ou que a pré-política (a família, a escola, o bairro) está fraturada de modo exposto e irrecuperável em virtude do vexame da política partidária e institucional. Se a realidade é complexa, multifacetada, que conservadorismo é esse de horizonte estritamente sombrio e cético que pede ao último que sair do Brasil que apague a luz? O pessimismo curiosamente pode servir de saldo positivo para discursos utópicos de esquerdistas. Dizer que o Brasil acabou é tudo o que as forças sombrias desse país querem ver-nos reproduzir. Ela dinamita o conhecimento da verdade na medida em que nos faz crer na redução drástica da realidade ao caos. Com o seu jeito sorumbático,  o conservador distraído se entrega à vampirização ideológica oportunista. Sobriedade é a palavra. Nem otimista, nem pessimista, mas um relutante realista. Veja outra frase lapidar de Edmund Burke:

“É um erro popular muito comum acreditar que aqueles que fazem mais barulho a lamentarem-se a favor do público sejam os mais preocupados com o seu bem-estar”. 

A colocação genial de Burke serve de alerta para baderneiros conservadores, coxinhas pilhados, ideólogos moralistas, esquerdistas furiosos e desesperançados. É uma convocação ao trabalho sério, discreto e consistente de uma vida. O futuro não nos pertence. Cabe deixar um legado digno. Passar o bastão já é um ato heroico.

O deslize de Scruton adverte-nos quanto ao perigo de diagnósticos temerários e apocalípticos até mesmo dessa “voz no deserto”, que tanto tem ensinado acerca do conservadorismo. Da mesma sorte, encoraja-nos através do seu erro crasso de análise,  aos que timidamente se retiram do campo da economia. Para muitos trata-se de um assunto para “libertarians” inescrupulosos. Não. Deve haver atitude propositiva, que tenha objetivos de longo alcance – especialmente a economia regional- mas que oferte soluções brilhantes para a macroeconomia também. Quem disse que não é possível gerar riqueza e ao mesmo tempo um arcabouço moral? Por outro lado, o acerto de Roger Scruton mostra como o ganho financeiro pode intensificar o ânimo revolucionário, caso não for acompanhado da recuperação da estética, da filosofia, da literatura e da religião cristã. Em resumo, a visão holística aliada às realizações possíveis, com fidelidade, dentro da esfera de cada cidadão lúcido, sempre se mostrou o caminho seguro para a recuperação da ordem na sociedade.

Sobre o autor:  Wellington Costa é jornalista. 

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