Aquecimento global: quando o jornal Washington Post tentou fazer ciência

O jornal Washington Post publica hoje um editorial cujo título é bombástico: “O aquecimento Global já chegou. Negá-lo é imperdoável”. Para defender sua tese, o Post diz que fez uma análise das temperaturas terrestres em 3.107 municípios dos EUA, nos últimos 100 anos e concluiu que as temperaturas já subiram 2º C, uma conclusão que nem o IPCC corrobora. No editorial, o Post incorre em dois erros graves. O primeiro é tentar “fazer ciência” pelas próprias mãos, sem os cuidados do método científico, e o segundo, achar que duvidar das teorias científicas é uma blasfêmia, uma heresia.

Como escrevi alhures, ciência não é matéria sujeita a consensos ou certezas imutáveis. Ao contrário, espera-se que as teorias sejam constantemente testadas e, se for o caso, falseadas. Imagine como seria a física hoje se Galileu não tivesse questionado a teoria aristotélica, se Newton não tivesse estendido e generalizado o trabalho de Galileu e Einstein estivesse plenamente satisfeito com as conclusões de Newton. Na verdade, o esforço para “negar” as teorias científicas é tão antigo e saudável quanto a própria ciência.

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É assim que as ciências da natureza trabalham. Observações levam a hipóteses. Hipóteses são testadas através de experimentos. Os resultados são divulgados, examinados e duplicados antes que uma boa teoria seja divulgada. Certezas são raras, leis são muito poucas. Ciência não é fonte de autoridade, mas de conhecimento.

Cientistas não são deuses. São seres humanos sujeitos aos mesmos impulsos que todos nós. Esses mesmos impulsos humanos quase sempre nos levem a acreditar que estamos certos, ou pelo menos do lado certo. No entanto, isso não é desculpa para endossar métodos e comportamentos não científicos.

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O antídoto contra o uso político da ciência é realçar a própria falibilidade científica, além de estimular o ceticismo. Não é justo, nem inteligente, sair por aí chamando de herético quem desconfia da atividade humana como causa do aquecimento global, ou duvida das catastróficas previsões dos computadores. Heresia (comportamento imperdoável) tem a ver com fé, e ciência não é assunto de fé. A ciência não prescreve dogmas, nem evolui conforme a opinião da maioria.

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João Luiz Mauad

João Luiz Mauad

João Luiz Mauad é administrador de empresas formado pela FGV-RJ, profissional liberal (consultor de empresas) e diretor do Instituto Liberal. Escreve para vários periódicos como os jornais O Globo, Zero Hora e Gazeta do Povo.