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Ano novo, vida nova: A necessidade de refletir sobre o politicamente correto

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Sergio Renato de Mello*

Começo dizendo que, quando as pessoas começam a pensar que um mero agradecimento a Deus é sinônimo de ser retrógrado ou até mesmo de burrice, deixando de fazê-lo, aí estaremos diante de um caos absoluto chamado politicamente correto e que vai evoluir na perda  de nossa individualidade até nossos sentidos ou sentimentos humanos. O pensar será desnecessário, já que existem pessoas que pensam por mim. Tirando um sentimentalismo que, espero, é o último reduto para uma bondade natural, de resto o que sobra é uma mera máquina de repetição do senso comum.

Os afazeres e a correria do nosso dia a dia quase sempre nos impedem de pensar e refletir sobre se nossas ações estão sendo boas ou más, se são capazes de nos atingir positiva ou negativamente. O cotidiano feroz que entendemos como uma necessidade nos é como um obstáculo intransponível ao reconhecimento de nossa necessidade de reflexão sobre a própria vida. A pressa, a necessidade de dar conta de tudo, o trabalho, ganhar dinheiro, enfim, tudo que ocupa nossa mente e nossa atenção objetiviza nossa vida e faz de nosso reflexo no espelho parecer tudo muito estranho.

Aí, surge final de ano com a expectativa de um novo marco zero a partir do começo do ano, onde se pensa em tudo se iniciar para fazer melhor, ou fazer do contrário, diferente, enfim, desta vez fazer dar certo. Parece que somente nesse tempo é que temos a chance de vermos o espelho de nossa alma, de observarmos nossa própria vida e do jeito que a estamos conduzindo, se positiva ou negativamente. A começar pelo simbolismo representativo do natal, que nos cai como momento necessário de reflexão e avaliação para posterior, se for o caso, mudança, os dias que sucedem após a data em que se comemora o nascimento de Jesus nos servem para pensar. Nesse grande momento, não duvido que devem existir pedidos ateus de socorro a Deus.

Tudo isso é muito louvável. O bom e o ideal seria que isso acontecesse todos os dias, numa pausa reservada para meditação ou em algum intervalo de pensamento no trabalho. Theodore Dalrymple faz esse exercício sempre quando vai em livrarias e pega livros ao acaso, neles também tendo encontrado os mais diversos objetos que os faz pensar. Desse seu costume fez publicar O prazer de pensar, onde cita: “Encontramos coisas em livros velhos: principalmente insetos mumificados, é claro, mas também manchas de sangue, flores secas prensadas, bilhetes velhos de ônibus, listas de compras, fichas de embarque, orçamentos de consertos a serem feitos, contas de açougue, marcadores de páginas de livros anunciando seguros de vida, festivais de arte e livrarias e alguns chegam a chamar o leitor para a e o arrependimento.” (o destaque é meu).[1] Ou seja, não duvido que as livrarias e os livros aleatoriamente pegos sejam os seus oráculos.

Porém, se é sempre apenas em momentos de descanso prolongado que nos tornamos mais introspectivos e subjetivos é porque tem algo de muito errado acontecendo…

Às vezes caímos na armadilha enganosa de sempre agradar aos outros mais até do que a nós mesmos. Nessa trilha auto fraudulenta, deixamos de opinar, aconselhar, manifestar o que pensamos, enfim, até mesmo de ajudar quem não tem o conhecimento e precisa dele, quando nós o temos. Há, de nossa parte, um receio de perder alguma coisa que nos é muito valioso. Politicamente, achamos que o correto é ser o isento, o neutro, o que ainda não tem opinião formada sobre o assunto. Há sempre algo mais valioso a ser preservado do que a manifestação de uma opinião que pode custar, em tese, muito caro.

Vivendo enredados, os politicamente corretos estão dispostos a acreditar sempre na bondade natural de Rousseau e acreditar que o ser humano é sempre bonzinho e esquecer do pecado original e da queda que leva a uma consciência cética, a qual acredito estar correta para os dias que seguem. A gênese de um tal estado de coisas digamos “modernas” ou “progressivas” (como se tudo que estivesse acontecendo fosse algo natural e rumo a um bem comum de mais liberdade, igualdade e fraternidade em escala mundial) remonta a Jean Jacques Rousseau, que pregou uma sementinha do mal com os seus discursos (romantismo, totalitarismo, moderna antropologia, revolução sexual e da família foram deflagrados em parte por força de suas idéias). Para ele, o homem primitivo era bondoso e inocente. Ao contrário do que o cristianismo prega e parece ser uma impressão falsamente difundida no meio público, o homem nasceu bom mas pecou e, por isso, os conceitos de queda e de pecado original que estão a permear, sem discriminação, as impressões sobre todos.

Isso prejudica, pois encerra um alto preço pessoal a pagar, um sentimentalismo tóxico que impregna o fundo da alma humana. Não se quer ser egoísta e ao mesmo tempo há necessidade de não se desprezar o “eu” que fala muito alto dentro de cada um. Há a criação impensada de um paradoxo a ser resolvido.

A postura politicamente correta de hoje em dia, na sua grande maioria extremada e ressentida, acaba por reprimir sentimentos e interesses maiores e mais valiosos do que aqueles defendidos pela postura contrária. Se esses politicamente corretos deixassem de o sê-lo, veriam o quão grande e autêntico galardão que ganhariam. No entanto, não é o que ocorre e as consequências são de uma larga desvantagem para os interesses pessoais, pois eles são deixados em segundo plano. Aqueles que, por conta de posturas politicamente corretas, sufocam os seus sentimentos mais ou menos aflorados, deixam de lhe garantir uma vida altamente qualificada se adotassem proceder contrário. Em resultado na própria saúde física e mental, a ciência já detectou que reprimir gritos de denúncia, de socorro ou de mera manifestação pessoal de um sim ou de um não sintomatizam o corpo com as mais variadas doenças cuja origem é a repressão.

Afora isso, pode-se contar também que terceiros resultam como pessoas atingidas e vitimizadas pela negligência ou condescendência politicamente correta. Foi divulgado na internet o caso de um pai que deixou de denunciar o abusador de seu filho por receio de estar lhe agredindo. Ou seja, quis mais proteger o abusador do que o seu próprio filho! A escolha mais acertada para esse ajuste de condutas é pensar no coletivo, no bem comum, no outro, sabendo-se que agindo de forma contrária estará sendo ofertado à comunidade um bem maior, que é o resgate da consciência da verdade e possibilidade de reflexão e mudança dali em diante. Exemplos de uma cultura sentimentalista e politicamente correta vemos diariamente. É o professor e os pais que não disciplinam o aluno e os filhos por acharem desnecessária a correção ou por quererem ser modernos. São os desvios de intelectualidade com os novos direitos que vieram em prol de desprotegidos ou supostos desprotegidos, os quais acabam sendo deturpados em seu núcleo essencial e virando abuso de direito.

Theodore Dalrymple diz que o triunfo da visão romântica da educação foi desastroso por coincidir com o triunfo da visão romântica das relações humanas e, em especial, da família. Ou seja, traz-se a falsa ideia de que todas as relações humanas devam ser perfeitas, sem desavenças ou sempre sorridentes, inclusive na relação entre pais e filhos, uma falsa prática e um ideal a ser perseguido em continuidade, quando o contrário é o que se tem. Nada é perfeito e tudo tem os seus momentos de crise. Quando se mistura interesse financeiro com dever e se tem desgaste, nada além do amor e do afeto deve ser mais observado, dizem os românticos. Aí, não temos mais estabilidade nas relações sociais, inclusive familiares, e qualquer crise, por mais simples que seja, é motivo de ruptura total. Aqui, neste ponto, há uma verdadeira inversão de valores em jogo, algo que se está deixando acontecer por imperceptível diante de uma cultura transformada ou que se quer transformadora de uns tempos para cá. As artimanhas esquerdistas e extremadas caiu num senso comum e faz parecer que tudo seja verdade, objetivo último do fim socialista e comunista dos antigos ainda em perseguição. De um certo cárcere italiano, já que preso a mando de Mussolini, levou ao mundo seus cadernos com a fórmula para a destruição cultural no ocidente judaico-cristão. A inversão de valores que hoje se sente, o sentimentalismo impregnado na mente e como resultado de uma bondade natural são o norte do agir de um politicamente correto. Theodore Dalrymple escreve que “O politicamente correto é muitas vezes a tentativa de tornar o sentimentalismo socialmente obrigatório ou aplicável por lei”.[2]

A postura politicamente correta é de cunho político, já que por trás dela existe uma ideologia tida por salvadora e ela pode ser considerada um instrumento de cunho neutralizador de seus opositores. Apesar dessa sua natureza, carrega em si uma grande carga de cunho emocional e psicológico, já que é resultado de um ato do pensamento ou espiritual. Sabendo-se que é em nossas mentes que circulam os menores e maiores demônios, não devemos jamais desprezar o passado nessa luta, o histórico, o legado que nos foi deixado até o presente momento. Cito Jesus Cristo como o homem que mais influenciou a história no caminhar da humanidade até aqui, tendo ele dado criação a uma cultura que se vê em nós até os dias atuais, assim como, por sua causa, guerras e revoluções foram desencadeadas e estão sendo ainda planejadas nos dias hodiernos e em escala global. Não somente guerras com material bélico de fato, mas, principalmente, no espaço cultural e espiritual (novamente cito Antônio Gramsci, muito embora o pessoal “pensante” ou auto endeusado que lhe antecedeu também quis aniquilar o legado judaico-cristão e cujas mazelas se sentem ainda hoje). E a saga politicamente correta nada vê, nada ouve, nada sente, nada sabe, nada manifesta em uma conduta que chega a ser criminosa (o caso da imigração em massa e que está levando inocentes à morte na Europa). Jesus trata o politicamente correto dessa forma: pelo amor. O seu legado não foi de moralidade, e sim de relacionamento. E também desta: sim sim ou não não. Ou seja, sejamos firmes e não fiquemos em cima do muro. E, por fim, também desta: ser humilde e não passivo. Ser isentão é querer viver à sombra dos outros e do destino que nos é imposto, o qual pode ser por nós mesmos construídos e do nosso próprio jeito

Sobre o autor: Sergio Renato de Mello, defensor público do Estado de Santa Catarina.


[1]Traduzido por Margarita Maria Garcia Lamelo. 1ª ed. São Paulo: É realizações, 2016, na contracapa.

[2]Podres de mimados: as causas do sentimentalismo tóxico. Traduzido por Pedro Sette Câmara. 1ª ed. São Paulo: É realizações, 2015, p. 33.

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