A agonia do liberalismo nos EEUU

MARIO GUERREIRO* Escrevi este artigo pouco tempo depois da vitória de Obama na sua segunda eleição. Talvez alguns detalhes tivessem que ser reconsiderados em virtude da atual conjuntura, mas tenho razões para acreditar que, no todo, o artigo continua válido hoje ao final de 2013. Pensei intitular este artigo “A morte do liberalismo nos EEUU”, […]

MARIO GUERREIRO*

Obama concorrendo reeleicao 2012Escrevi este artigo pouco tempo depois da vitória de Obama na sua segunda eleição. Talvez alguns detalhes tivessem que ser reconsiderados em virtude da atual conjuntura, mas tenho razões para acreditar que, no todo, o artigo continua válido hoje ao final de 2013.

Pensei intitular este artigo “A morte do liberalismo nos EEUU”, mas a palavra era forte demais e não correspondia à realidade.

O liberalismo clássico – o de Adam Smith, John Locke, Thomas Jefferson, etc. – não morreu. Agoniza em seu leito, mas pode ainda se recuperar salvando-se da morte.

Uma das evidências disso é que, na recente eleição para Presidente dos EEUU, o eleitorado mostrou-se dividido entre Mitt Romney – o candidato mais próximo da tradição liberal dos founding fathers e Barack Obama – o candidato antiliberal que obteve uma vitória apertada, muito diferente de sua primeira eleição.

Além disso, o Partido Republicano tem a maioria na Câmara dos Deputados, o que significa dizer que Obama e os membros do Partido Democrata não conseguirão passar facilmente suas medidas sem uma negociação com a oposição.

Parece uma constante em eleições americanas que, quando é eleito um Presidente democrata, ele tem que governar com a maioria do Congresso de membros do Partido Republicano e vice-versa.

Constitui-se, desse modo, um sistema de contrapeso capaz de impedir a hegemonia de qualquer partido, diferentemente do Brasil atual em que a oposição é venal ou tíbia, e o PT já se tornou um partido hegemônico.

Derrotada nas urnas, a oposição nos EEUU não passa a ficar se lamentando da derrota, nem aguardando barganhas oportunistas com o partido do governo, mas, sim, cumpre seu papel de oposição, que consiste em exercer seu senso crítico em relação a medidas governistas.

E isto é justamente o que se espera do jogo da democracia em que a oposição tem um relevante papel a cumprir. Não se coloca à espera da compra de seus votos por um partido que almeja a hegemonia, como mostrou o lamentável episódio do julgamento do Mensalão – uma meia-sola, é verdade, mas é melhor do que sapatos furados.

Mas qual a razão da vitória apertada de Obama? É escusado dizer que ela é uma evidência da predominância conjuntural das ideias da social democracia europeia continental sobre o liberalismo clássico angloamericano.

E isto apesar de um fator de grande peso nas decisões dos eleitores: a taxa de desemprego. Enquanto ela é da ordem de 8% nos EEUU – uma taxa considerada alta para os padrões americanos – ela atinge 25% em alguns do PIGS da zona do euro, mais especificamente Espanha e Grécia.

Contudo, a maioria do eleitorado americano não leva em consideração essa comparação. Ouso dizer que esta mesma maioria simplesmente a ignora em virtude de seu caráter paroquial e sua grande indiferença pela situação econômica da zona do euro e por tudo que não diz respeito diretamente aos EEUU.

Uma pista para uma tentativa de explicação para a apertada vitória de Obama está no eleitorado de Washington DC. Neste Distrito Federal, Obama obteve 93% de votos contra 7% dos votos de Romney – uma vitória acachapante! Este fato é bastante relevante quando examinamos a peculiaridade do eleitorado local, emblemático do nacional.

A capital dos EEUU é conhecida como “a cidade dos telefones”, pois tem mais linhas telefônicas do que habitantes. Acrescente-se a isto que a maioria esmagadora dessas linhas não é privada, mas sim de órgãos da administração pública federal.

Além disso, e complementando isso, Washington é extremamente parecida com a douce France. De cada grupo de dez habitantes empregados, muito mais da metade são funcionários públicos.

“Bureaucratie”, um hibridismo de cunho gaulês, composto de ‘bureau” (escrivaninha em francês) e “kratos” (poder, governo, em grego) que caracterizou o governo francês desde a Revolução Francesa (1789) até os tempos atuais.

Mas atualmente não só os jovens franceses desempregados estão atravessando o Canal da Mancha, como também os mais ricos. E isto em virtude de uma alíquota de 75% de seus vencimentos decretada pelo socialista democrático François Hollande, além de taxar em 60% os ganhos de capital. Isso é um assalto à mão armada… de caneta!

Macaquinho de imitação das francesites, Obama já acenou com um aumento de impostos incidindo sobre os mais ricos. E seu critério de “mais ricos” não inclui apenas bilionários, como Warren Buffet e Bill Gates, mas também grande parte da alta classe média.

Não chega a ser como o do PT, que considera alguém que ganha de R$ 200,00 a R$1.200,00 inserido na classe média. Desse modo, fica muito fácil noticiar a ascensão à classe média de 40.000.000 de brasileiros promovida pelo grande partido Será preciso ser economista para perceber essa picaretagem, ô mané?!

Aumento de impostos é a única forma que os socialistas conhecem para reduzir os gastos do governo. Pelo aumento da receita, não por cortes de despesas, porém pela elevação crescente da tributação.

É compreensível que uma cidade de burocratas – Washington ou Brasília – em que a maioria da mão-de-obra ativa é funcionário público ou pendurada no Estado – tenha uma tendência a votar sempre a favor do governo. A menos que este mesmo trate com desdém suas reivindicações salariais pelo congelamento de seus salários diante uma inflação crescente.

Mas não parece haver insatisfação dos funcionários federais com Obama. 93% de votos a seu favor é uma clara evidência do contrário: eles estão muito satisfeitos com Obama, apesar de seu governo medíocre no âmbito nacional.

É verdade que Obama reduziu a taxa de desemprego gerada no governo do republicano George W. Bush,  mas é verdade também que aumentou consideravelmente a burocracia e com seus bail outs colossais elevou em níveis estratosféricos o déficit público, coisa capaz de gerar problemas econômicos em médio e longo prazo.

Mas que importa o longo prazo? “Em longo prazo estaremos todos mortos”, como dizia John Maynard Keynes, o guru do democrata Franklin Delano Roosevelt e seu New Deal. E ao que tudo indica o guru de Obama também.

Contrapondo-se a essa ideia perversa acalentada por ambos os Presidentes, o liberal clássico Winston Churchill costumava dizer: “A diferença entre o bom e o mau político é que o primeiro age pensando nas próximas gerações, mas o segundo nas próximas eleições”.

E é preciso acrescentar que o próprio Churchill foi uma vítima disso que disse, pois finda a Segunda Guerra – em que ele foi o líder da heroica resistência britânica ao nazismo – seu partido, o Partido Conservador (Tory) perdeu as eleições para o Labour Party (Partido Trabalhista). E seu líder, Clement Attlee, se tornou Primeiro-Ministro.

Na realidade, o liberalismo clássico é o de Adam Smith, John Locke, Thomas Jefferson e sua facção dentre os founding fathers.

Não o que os americanos hoje chamam de “liberalism” que nada mais é do que o welfare liberalism (liberalismo do bem-estar) que teve sua origem na Inglaterra do século XIX e que pretendia cuidar do cidadão paternalisticamente from womb to tomb (do útero ao túmulo ou, mais coloquialmente: do berço ao túmulo).

Essa outra forma de liberalismo só era liberal na dimensão juridicopolítica em que defendia as chamadas liberdades civis: as liberdades de associação, de expressão, de ir e vir, etc. Mas nessa dimensão, os socialdemocratas também são liberais.

Mas não poderiam ser considerados liberais, no sentido clássico do termo, porque não conjugavam o liberalismo político com o econômico, pois praticavam e ainda praticam hoje forte intervencionismo e protecionismo, entre outras práticas visceralmente contrárias aos princípios do liberalismo clássico de Adam Smith.

O chamado welfare liberalism, sustentado principalmente pelos fabianos no Reino Unido, pouco diferia das políticas públicas assistencialistas de Bismarck e E. Bernstein na Alemanha e do atual socialismo democrático europeu representado no Reino Unido pelo Partido Trabalhista.

E é por isso que não é equivocado dizer que o Partido Democrata, em um momento de sua história, transformou-se em um partido socialdemocrata da Comunidade Europeia. E que Obama é o Hollande americano que sucedeu o republicano Bush, assim como o Obama francês sucedeu o “direitista” ou “conservador” Sarkozy.

Seu maior defeito já foi apontado: a única maneira que eles conhecem para reduzir os gastos do governo é pelo aumento da receita, não por cortes de despesas, mas sim pelo aumento da tributação.

Não importa que o novo sistema de saúde venha a aumentar drasticamente a dívida pública, desde que ele agrade às massas, pois os bail outs colossais obamistas são empurrados com a barriga para futuros governos.

Na realidade, o que Obama pratica é a chamada política Robin Hood, tirando dos ricos para dar aos pobres. É a execrável redistribuição de renda tão louvada pelos socialistas que, como Hollande, elevou a alíquota do imposto de renda a 75%.

Fazem isso sem se preocupar com as nefastas conseqüências: aumento da sonegação – mediante a qual os ricos protegem seu patrimônio – e desemprego causado pelo fator negativo ao empreendedorismo. Descapitalizados, os grandes empresários investem menos em suas empresas e se veem compelidos a despedir muita gente, para evitar a falência.

E isto para não falar nos que atravessam a fronteira para a Bélgica ou o Canal da Mancha na direção da Ilha de John Bull.

Ao fazer constantes vituperações contra as grandes fortunas, Obama se assemelha a um comunista em seu forte ressentimento em relação aos bem sucedidos, como se ele não fosse um deles.

Como se os ricos construíssem seu patrimônio mediante a exploração dos pobres, não mediante seu trabalho duro e honesto, bem como a aceitação dos riscos inerentes a todo e qualquer empreendimento privado, não aquinhoado por benesses do Estado.

Dos founding fathers ao governo do Presidente Calvin Cooolidge, pode-se dizer que a orientação político-econômica americana era autenticamente liberal na sua acepção clássica, mas no annus mirabilis de 1929 ocorreu uma drástica mudança de rumo.

Coolidge governou o país de 1923 a 1929, o fatídico ano do crash da Bolsa de Valores de Nova Iorque, que produziu grande recessão e desemprego nos EEUU e em todo mundo, com maior ou menor gravidade.

Veio então a terrível década de 30 – em que ocorreu a colossal inflação da República de Weimar  – numa época em que a imaginação econômica ainda não tinha inventado a correção monetária – a ascensão do Partido Nazista e, na União Soviética, com a morte de Lênin em 1924, Stálin, “o homem de aço”, chegou ao poder.

Membro do Partido Democrata, Franklin Delano Roosevelt sucedeu Calvin Coolidge e teve de enfrentar a Grande Depressão.

E o que fez ele? Criou grandes empresas estatais, como a Tenessee Valley, voltadas para grandes empreendimentos cuja função precípua era fornecer o maior número possível de empregos.

Levando em consideração o grande problema social do desemprego em massa, podemos discutir se Roosevelt não teve outra alternativa ou se ele teria outros modos de resolver, ainda que em médio prazo, o desemprego que assolava o país.

Mas o fato é que, da década de 30 em diante, o Estado americano não parou de crescer e a mentalidade estatizante do welfare state passou a fazer um contraponto com a mentalidade liberal clássica, tendência predominante de George Washington a Calvin Coolidge.

Os governos dos republicanos Ronald Reagan, George Bush e George W. Bush foram apenas interrupções atenuantes da mentalidade (social) democrata sucessora da grande Era Liberal iniciada por Washington e finda com Coolidge.

Quando estourou a grande crise americana no governo de George W. Bush não podemos eximi-lo totalmente de responsabilidade pela mesma, mas devemos lembrar que os estopins da crise foram a falência da Freddie Mac e da  Fanny May, grandes imobiliárias semiestatais criadas pelo governo democrata de Franklin Delano Roosevelt.

Em outras palavras: seguindo a orientação de seu guru, John Maynard Keynes, Roosevelt pensava que “em longo prazo todos estaríamos mortos”. Sendo assim, não pensou nas próximas gerações – como propugnava Churchill – porém nas próximas eleições.

Não é de surpreender que esse Presidente democrata tivesse armado uma bomba-relógio que estouraria no colo do republicano George W. Bush.

E que acabaria se tornando um terreno fértil para outro democrata, Barack Obama, desenvolver seu discurso demagógico e populista enfeixado por dois slogans de grande efeito retórico: Change! Yes, we can!

Mutatis mutandis, Obama, Hollande e Lula são farinha podre do mesmo saco. Sofistas mais habilidosos do que o vetusto Górgias de Leôncio (483-376 a.C), são capazes de produzir uma pegajosa baba-de-quiabo persuadindo milhões de apedeutas e esquerdopatas que eles são os salvadores de suas pátrias.

Com a segunda vitória de Obama, as esquerdas em todo mundo já estão vaticinando a vitória das minorias crescentes nos EEUU e a derrota final dos WASPS (“Vespas” em inglês, mas como sigla: “White American Anglo-Saxonic Protestants”).

Mas se esquecem de que foram estes mesmos WASPS que transformaram um país pobre até o século XIX na maior potência econômica, bélica e cultural mundial no século XX e início do XXI.

* DOUTOR EM FILOSOFIA PELA UFRJ

imagem: wikipédia

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